No Senado, a gratidão vale R$ 50 milhões

No Senado, a gratidão vale R$ 50 milhões

“Gratidão.”

Rodrigo Pacheco tem uma forma curiosa de demonstrar afeto por seus apoiadores. “Gratidão” foi a justificativa que o senador Marcos do Val deu para justificar os R$ 50 milhões destinados às suas emendas pelo presidente do Senado. Em fevereiro de 2021, ele apoiou a campanha de Pacheco, que foi o vencedor.

O Brasil nunca nos decepciona: a política aqui só serve para beneficiar os próprios políticos. De acordo com a entrevista (inacreditável, aliás) que o senador Marcos do Val deu ao Estadão, Pacheco não quis saber se o dinheiro seria usado para comprar ambulâncias, caixas de sapato vazias ou orquídeas para a sogra. A regra foi clara: “ele chamou quem eram os mais próximos, que apoiaram a campanha dele (à Presidência do Senado), os líderes, e disse: ‘o meu critério vai ser esse”.

Fico imaginando a reunião em que Pacheco comunicou isso aos seus pares. Olhos brilhando de ganância em volta da mesa, tapinhas nas costas, celulares desligados. Gravatas francesas sobre as panças pantagruélicas; Cabelos, pingando gel e mal tingidos de acaju. De repente Pacheco se levanta, respira fundo e anuncia:
“Gratidão.”

Na época do mensalão, os congressistas aliados do PT ganhavam mesada de R$ 50 mil. Pacheco repassou R$ 50 milhões para Marcos do Val. A diferença não é apenas a quantidade de zeros depois do “5”: o mensalão era descaradamente por baixo dos panos, enquanto a verba de Marcos do Val é lavada às claras e torna-se legalizada por meio do “orçamento secreto”, que impede a identificação dos padrinhos dessas emendas.

Será que o senador tem noção do que assumiu na entrevista? Provavelmente, não. Vamos lembrar que a capacidade cognitiva não é o forte da base bolsonarista. O que não deixa dúvidas é que o critério para distribuição do dinheiro que veio dos seus impostos não segue uma lista clara das prioridades do País, nem problemas regionais, a fome da população, a busca por melhorias na educação, saúde ou segurança. Nada disso. O critério é: ajudou Pacheco a se eleger? Recebe a grana. Não ajudou? Fique a ver navios.

Aos amigos, o orçamento secreto e a gratidão. Aos ingratos, a lei.

Hoje, depois que viu a péssima repercussão de sua entrevista, Marcos do Val disse que foi “mal interpretado”. Como Pacheco retribuirá a ingratidão do ex-apoiador?