Cultura

No rastro dos nazistas

Como simples cidadãos perseguiram e levaram a julgamento criminosos do III Reich, legando um modelo universal de justiça contra futuros genocidas

Crédito: Cortesia / Luigi Caputo

DETETIVE Simon Wiesenthal (1908-2005) em seu escritório em Viena, em 1998: de sobrevivente do Holocausto a vingador famoso (Crédito: Cortesia / Luigi Caputo)

“Os caçadores demonstraram que é possível construir um sistema legal supranacional e a despeito das organizações jurídicas estatais” Andrew Nagorski, escritor

Com o final da Segunda Guerra Mundial, centenas de milhares de prisioneiros dos campos de extermínio nazistas foram libertados. Eram na maior parte judeus, sôfregos não apenas por contar casos de torturas e execuções, como sair ao encalço de seus algozes. Para satisfazer às vítimas e, ao mesmo tempo, encerrar o assunto em nome da reconstrução da Europa, as nações vencedoras promoveram três julgamentos exemplares de líderes nazistas: Nuremberg, Dachau e Auschwitz, de 1945 a 1947. Mas não foi o suficiente. À margem do Estado indiferente, cidadãos comuns conhecidos como caçadores de nazistas passaram a fazer justiça por conta própria. Mas a sanha vingativa deu origem a processos que, pouco a pouco, tiveram sucesso em localizar e julgar os culpados pelas atrocidades. O que era desforra se transformou em Justiça.

O período de perseguições, capturas e julgamentos se estendeu de 1946 a 2011. “Agora que a temporada de caça de 65 anos acabou, chegou a hora de narrar a história e analisar os fatos”, afirma à ISTOÉ o jornalista americano Andrew Nagorski, autor do livro “Caçadores de nazistas”, lançamento da editora Intrínseca. Ele trabalhou como correspondente da revista Newsweek na Europa, o que lhe permitiu entrevistar centenas de envolvidos, além de ter tido acesso a documentos em arquivos locais. “Eu me senti qualificado para redigir o capítulo final da Segunda Guerra.”

Tudo começou nas ruínas do Reich, quando um jovem arquiteto escravizado em vários campos de concentração assistiu ao extermínio da família. Chamava-se Simon Wiesenthal. Livre, jurou aniquilar cada um dos criminosos nazistas. Ao lado dos EUA, reuniu documentos de oficiais e cúmplices genocidas. Rompeu com os americanos por achá-los crédulos às mentiras dos belos e arianos oficiais alemães, que “confundiam com astros de Hollywood”. Em 1947, fundou o Centro Simon Wiesenthal na Áustria. A instituição coordenou ações de buscas aos nazistas, o que culminou com a captura, em 1960, em Buenos Aires, do tenente-coronel Adolf Eichmann pelo Mossad, serviço secreto israelense. Mesmo assim, Wiesenthal foi acusado de encobrir nazistas, como o secretário-geral da ONU e presidente austríaco Kurt Waldheim.

Os impunes

“Criminosos foram julgados e presos, assim como inocentes foram executados’, afirma Nagorski. “Além disso, outros tantos restaram impunes.” É o caso do médico Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, que “burlou o Mossad e morreu incógnito no Brasil”. Para seguir as pegadas esmaecidas de Mengele e entender como ele escapou, o jornalista francês Olivier Guez viajou pela Argentina e Brasil. O resultado é o romance de não ficção “O desaparecimento de Josef Mengele”, também lançado pela Intrínseca. Segundo Guez, muitos técnicos nazistas foram aproveitados nas ditaduras sul-americanas. “Mengele se beneficiou da Operação Odessa, uma rede de proteção de refugiados hitleristas”, afirma Guez à ISTOÉ. “Teve sorte de evitar a prisão.” Mas não evitou julgamento da História: seus restos foram exumados em 1985 e recebeu a sentença post mortem proferida por Wiesenthal.

O legado dos caçadores de nazistas, diz Nagorski, foi ter elaborado um sistema legal internacional não controlado por governos: “Eles provaram ser mais eficazes que o Tribunal Internacional de Justiça, sediado em Haia, que se mostrou inócuo”. A experiência em lidar com criminosos nazistas, para ele, lançou métodos eficazes para julgar casos futuros de crimes de guerra.

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