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No Iêmen, rebeldes huthis perseguem mulheres e impõem sua ordem moral

No Iêmen, rebeldes huthis perseguem mulheres e impõem sua ordem moral

Duas iemenitas caminham pelo mercado da parte antiga de Sanaa em 2 de março de 2020 - AFP

Chegaram de repente, armados até os dentes, e exigiram o fechamento imediato do Ofelia, único café para mulheres em Sanaa. “O lugar das mulheres é em casa. Por que continuam saindo?”, questiona um membro dos huthis, os rebeldes que controlam a capital do Iêmen.

Esta foi a única explicação dada à dona do café, Shaima Mohamed, quando pediu um pouco de tempo para advertir suas clientes.

“Pediram que deixássemos as instalações, dizendo que estávamos fazendo algo de errado”, escreveu no Facebook.

Em sua página, o Ofelia anunciou em 19 de fevereiro que o estabelecimento estaria fechado “a partir de amanhã por razões que fogem à nossa vontade”.

O episódio ilustra a determinação dos huthis de impor sua própria ordem moral nas regiões sob seu controle desde 2014 no país. Os huthis enfrentam o poder central em uma guerra que se tornou devastadora para o território.

O proprietário de um café misto em Sanaa, que pediu para não ser identificado, contou à AFP que seu estabelecimento foi fechado duas vezes em três meses. Ele lamentou que a ordem tenha saído de uma entidade não governamental.

“Preferíamos que a ordem de fechamento fosse de um órgão oficial. Somos contra essas medidas abusivas e somos contra as restrições impostas às pessoas na capital”, desabafou.

Provenientes das montanhas do norte e pertencentes à minoria zaidita, os huthis conseguiram se impor em Sanaa e em parte do norte do país, apoiados em palavras de ordem como “Morte aos Estados Unidos”, “Morte a Israel”, “Maldição sobre os judeus” e “Vitória ao Islã”.

– Opressores e oprimidos –

Convertidos em um grupo armado e disciplinado, estes rebeldes não escondem sua proximidade ideológica com o Irã. Desde 2015, resistem à intervenção militar liderada pela vizinha Arábia Saudita, rival de Teerã no Oriente Médio.

“A situação nas zonas controladas pelos huthis é cada vez mais tensa”, afirma Nadwa al-Dawsari, pesquisadora do Projeto sobre a Democracia no Oriente Médio (POMED).

“Os jovens combatentes são treinados durante meses nas montanhas. Não aprendem apenas a usar armas, mas também sofrem uma lavagem cerebral em uma versão radical do Islã xiita”, explicou.

“Foram treinados pelo Irã, aprenderam a usar a desinformação para subjugar as mulheres. Estão construindo um Estado policial similar ao Irã”, acrescentou a pesquisadora.

“Estes comportamentos são impactantes para a sociedade iemenita que, embora conservadora, oferece espaços de liberdade para as pessoas e cultiva o gosto pela música e pelo lazer”, comentou Adel al-Ahmadi, um especialista nos huthis.

“É um movimento ideológico (…) que passou do estado de oprimido para o de opressor”, afirmou Al-Ahmadi, referindo-se às demandas originais do movimento oriundas de uma região marginalizada pelo poder central.

Em 13 de fevereiro, véspera de Dia de São Valentim (no Brasil comemorado como o Dia dos Namorados em 12 de junho), os rebeldes agrediram jovens na rua. Segundo testemunhas, eles estariam descumprindo o código de indumentária.

Os rebeldes rasgaram a camisa vermelha de um deles, dizendo que simboliza esta festa considerada contrária aos costumes do país.