Cultura

No cinquentenário de sua morte, é hora de redescobrir Oscarito

Com nome de monarca espanhol, ele virou rei da comédia brasileira. Oscar Lorenzo Jacinto de la Inmaculada Concepción Teresa Diaz nasceu em Málaga, em 1906, e morreu em 1970 no Rio de Janeiro, conhecido “apenas” como Oscarito. Há exatos 50 anos ele nos deixava. Toda uma página da história do cinema brasileiro pode ser contada pela trajetória de Oscarito, protagonista de um tempo em que o cinema brasileiro era de fato popular e as comédias cariocas atraíam milhões de pessoas aos cinemas.

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O pequeno Oscar Lorenzo veio ao mundo no dia 4 de agosto de 1906 na bonita cidade andaluza de Málaga, sendo assim conterrâneo de Pablo Picasso e Antonio Banderas. Chegou cedo ao Brasil, a tempo de virar carioca da gema. Filho de uma família circense, que emigrou para trabalhar em espetáculos de variedades, tinha apenas um ano ao chegar no Rio de Janeiro. Desde criança o picadeiro foi seu ambiente familiar. Conta-se que aos quatro ou cinco anos de idade já atuava em quadros cômicos com a família. Crescendo, passou pelo rádio e o teatro de revista. Na peça Calma, Gegê, de 1932, estreia com nome artístico afrancesado, Oscarito Brenier. E, claro, acabou por chegar ao cinema, com uma primeira aparição nas telas em A Voz do Carnaval, de Adhemar Gonzaga, em 1933.

Seria na Atlântida, porém, que Oscarito, em protagonismo solo, ou em dupla com Grande Otelo, conheceria seus maiores sucessos.

Em Nem Sansão nem Dalila (1954), de Carlos Manga, paródia de Sansão e Dalila (1954), de Cecil B. DeMille, ele é empregado no salão de beleza Dalila, em companhia de Eliana e Fada Santoro.Vê-se transportado para a antiguidade por uma máquina do tempo. Torna-se um colosso, cuja força reside na peruca obtida em troca esperta com o verdadeiro Sansão. A graça da paródia reside tanto na plasticidade interpretativa de Oscarito, seu corpo maleável e expressão malandra, quanto nas referências à política brasileira. As alusões às mutretas da luta pelo poder são evidentes e os elos entre personagens reais se estabelecem de maneira inequívoca. Em campanha eleitoral, Sansão se dirige aos “trabalhadores de Gaza” com as mesmas palavras e inflexão de Getúlio Vargas quando se endereçava aos “trabalhadores do Brasil”.

O tom crítico da paródia encontra em Oscarito seu intérprete ideal. Talvez o mais bem acabado exemplar seja O Homem do Sputnik (1958), também dirigido por Carlos Manga. Para mostrar como a chanchada era antenada em acontecimentos importantes da atualidade, basta lembrar que no ano anterior a União Soviética havia lançado o Sputnik 1, primeiro satélite artificial a orbitar em torno da Terra. A façanha pôs mais fogo na já incandescente Guerra Fria e desencadeou a corrida espacial entre as duas superpotências. A paranoia atingiu níveis de alerta máximo nos Estados Unidos e naquele tempo não se falava em outra coisa senão no banho tecnológico que os russos estavam dando nos americanos.

Parodiando a conjuntura internacional, a chanchada entra em campo para rir e comentar de forma jocosa os acontecimentos. Pois não é que um estranho objeto aéreo cai dos céus, e justamente em cima do galinheiro do sr. Anastácio (Oscarito)? Ele e a mulher (Zezé Macedo) acordam com o estrondo numa noite de chuva. Anastácio constata que o objeto havia matado suas duas melhores galinhas. Mas não tem importância, pois logo o casal descobre que o artefato pode ser valioso, folheado a ouro. Sua venda pode mudar a vida do casal de caipiras. Deocleciana (Zezé) sonha com ascensão social e Anastácio almeja apenas comprar uma chocadeira para seu galinheiro.

A imprensa sensacionalista escreve que o Sputnik caiu no Rio de Janeiro e a notícia põe as potências mundiais em transe. Estados Unidos, União Soviética e França mandam emissários ao Rio para se apoderar do satélite. Tendo por quadro as luxuosas dependências do Copacabana Palace, os estrangeiros usam suas armas na disputa pelo artefato. A brutalidade e a força física não estão ausentes, mas, no planejamento da viagem, os americanos recomendam embarcar uma carga de bugigangas e quinquilharias “para trocar com aqueles índios”. Os soviéticos parecem igualmente truculentos e malévolos. Já a França prefere o soft power erótico encarnado pela agente BB, genial imitação de Brigitte Bardot feita por Norma Bengell, incumbida de enredar o frágil e influenciável Anastácio.

Se Oscarito já era ótimo, em dupla com Grande Otelo ficava ainda melhor. O par foi formado em Tristezas não Pagam Dívidas (1943) e consolidou-se em atuações memoráveis. Em Carnaval no Fogo (1949), uma sequência de antologia, com Romeu (Oscarito) fazendo sua declaração de amor ao pé do balcão de Julieta (Otelo), em farsa paródica de Shakespeare, com direito à peruca loira de Otelo. Ou em Matar ou Correr (1954), paráfrase do western clássico de Fred Zinnemann, Matar ou Morrer (1952).

Formando dupla com Grande Otelo, os dois atingiram o chamado “estado da arte” – o ponto mais alto da interpretação cômica. O crítico Alex Viany descreve dessa forma a força da dupla: “Oscarito, com suas caretas e seus passinhos de urubu malandro, Otelo com seu gênio trágico-satírico, representavam um fenômeno de comunicação popular, apreendendo o jeito de falar e agir, de pensar e sonhar, do típico malandro do Rio de Janeiro”.

Adorada pelo público, que se via nela representado, a chanchada, com suas paródias, heróis e vilões, galãs e mocinhas, era malvista por intelectuais e críticos. O maior detrator do gênero era o crítico Antonio Moniz Vianna, do diário Correio da Manhã. Achou Matar ou Correr um escândalo, com cenas “chupadas” dos faroestes que tanto amava. Uma vez perguntaram a Moniz Vianna quais eram os três maiores cineastas do mundo e ele respondeu sem pestanejar: “John Ford, John Ford e John Ford”. Diante de tal idolatria, qualquer brincadeira com o gênero seria mesmo vista como afronta e crime inafiançável.

Já quem empregava Oscarito não via motivo para queixas. O dono da Atlântida, Luiz Severiano Ribeiro Jr., costumava dizer que Oscarito era “uma mina de ouro”. Comparado com frequência a Chaplin, Totò e Cantinflas, Oscarito era mesmo um mestre em sua arte. Rosto e corpo “falam” mais que os diálogos e, além disso, era um ás do improviso. Para conferir seu talento, basta assistir a uma sequência de Os Dois Ladrões, quando, vestido de mulher, faz a famosa cena do espelho com Eva Todor, uma citação explícita de Hotel da Fuzarca, dos irmãos Marx. O público o adorava.

Desprezada pela crítica em sua época, mais tarde a chanchada seria reabilitada e hoje é estudada a sério. Sérgio Augusto lançou em 1989 um livro referencial, Esse Mundo é um Pandeiro. O professor da Universidade Federal Fluminense, João Luiz Vieira, tem dedicado estudos ao gênero. São apenas dois exemplos. Esnobada em seu tempo, a chanchada, seus diretores e intérpretes ganharam status na crítica e na pesquisa acadêmica. O mundo é mesmo redondo e gira, com perdão dos terraplanistas.

No cinquentenário de sua morte, é hora de redescobrir Oscarito e a comédia popular brasileira.

Três filmes com Oscarito que merecem destaque:

‘Carnaval Atlântida’

José Carlos Burle, 1952

Em plena disputa com a paulista Vera Cruz, a Atlântida assume-se como o estúdio dos filmes musicais, cômicos e irreverentes, no melhor estilo carioca. A ideia é mostrar a impossibilidade de se filmar no Brasil um épico sobre Helena de Tróia. Oscarito faz o consultor histórico da produção, o professor Xenofontes, que, seduzido pelas curvas da rumbeira Lolita (Maria Antonieta Pons), acaba caindo na gandaia.

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‘Nem Sansão nem Dalila’

Carlos Manga, 1954

A viagem onírica do barbeiro Horácio fornece a Oscarito um dos seus melhores papéis. Depois de levar bronca do patrão por chegar atrasado e atender a um cliente fortão, Horácio inexplicavelmente é levado ao passado longínquo. Obrigado a lutar pela sobrevivência, torna-se um figurão ao adquirir força física misteriosa. O ponto alto é a paródia da luta pelo poder, com Oscarito imitando os gestos e a voz de Getúlio Vargas dirigindo-se ao povo.

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‘O Homem do Sputnik’

Carlos Manga, 1958

Talvez seja o mais “político” dos filmes de Oscarito. Põe na berlinda as ambições sociais das camadas populares, o esnobismo das classes mais abastadas e a relação de dependência do Brasil em relação às potências mundiais. Tem momentos inesquecíveis. As cenas de BB cantando, dançando e insinuando suas virtudes para um pasmo Anastácio, com Norma Bengell imitando a atriz francesa ao paroxismo, com direito a beicinho e tudo mais. Oscarito interpreta de corpo inteiro seu desconcerto, fazendo desta uma sequência de antologia. Não apenas da chanchada, mas do cinema brasileiro em seu todo.

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