Entrevista

Candidato do Podemos a presidente da República

Sergio Moro: Nem mensalão e petrolão e nem rachadinhas

Andre Coelho

Sergio Moro: Nem mensalão e petrolão e nem rachadinhas

Germano Oliveira
Edição 14/01/2022 - nº 2712

O ex-juiz Sergio Moro, 49, é o terceiro mais bem colocado na corrida presidencial deste ano e o melhor entre os candidatos da chamada terceira via para tentar impedir a polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas ele diz não estar preocupado apenas com os índices das pesquisas, por entender que ainda faltam dez meses para as eleições e acredita ter tempo suficiente para ultrapassar seus opositores. Explica, porém, que prefere dedicar os próximos meses à construção de um projeto para um novo País. “Não quero um Brasil com essa deterioração institucional que vem desde o governo do PT, com o mensalão e o petrolão; agora, são as rachadinhas e o orçamento secreto de Bolsonaro”, diz o pré-candidato. Em entrevista à ISTOÉ, Moro diz ser contra a descriminalização das drogas, contra a liberalização total do aborto, defende o teto de gastos e é a favor de estudos para a privatização da Petrobras. Para ele, o economista Affonso Celso Pastore não será seu Posto Ipiranga e sim o coordenador do seu plano de governo. “É muito cedo para dizer se ele será meu ministro da Economia ou não.”

Quando lançou-se candidato a presidente em novembro, seu nome cresceu nas pesquisas e atingiu 10%, mas depois parou de crescer e até caiu. O que explica a oscilação?
Quando voltei ao Brasil foi para construir um projeto de um novo País. Estou preparando esse projeto, que leva um certo tempo, ouvindo especialistas e a sociedade de um modo geral. Porque hoje temos um diagnóstico muito ruim da situação do Brasil. Algo que me motivou foi a percepção de que as pessoas estão falando sobre 2022 de forma desalentada, como se estivéssemos indo para um funeral e não para uma eleição. Há também um desapontamento muito grande com o atual governo e igualmente uma insatisfação enorme com o governo anterior do PT. Há um grande espaço para um projeto diferente.

São verdadeiras as informações de que se não atingir 15% até abril, o senhor pode desistir da Presidência para lançar-se candidato ao Senado?
Não há nenhuma veracidade nisso. Isso são boatos espalhados por pessoas que têm medo da minha candidatura. Eu tenho repetido que esse navio aqui já zarpou. O projeto é ser pré-candidato a presidente. Não tenho nenhuma pretensão de concorrer a um cargo eletivo no Senado. Agora, vou deixar muito claro, a minha aspiração é para fazer algo de diferente dentro do governo. Não quero um País com tamanha dificuldade, tamanho desemprego, inflação elevada e com essa deterioração institucional que vem desde o governo do PT, com mensalão e petrolão; agora, a gente tem visto as práticas das rachadinhas e do orçamento secreto. A gente quer um País diferente. Queremos um País com prosperidade, mas também o bem-estar da alma. Um País que a gente tenha orgulho, que seja honesto e íntegro. O objetivo não é ser presidente como Lula ou Bolsonaro. É um projeto diferente de País e de integridade da Presidência da República.

É verdade que o senhor pretende ter imunidade em função das acusações da parcialidade na Lava Jato?
Eu tenho grande orgulho da Lava Jato. Fico emocionado com o trabalho que foi feito ali. A gente vivia num País de impunidade em relação à grande corrupção, com exceção talvez do mensalão. E a Lava Jato demonstrou que a lei valia para todos. Que não era destino manifesto do Brasil ser um País corrupto. Então não tenho nenhum receio da minha atuação como juiz. Eu tenho uma vida pretérita e presente irretocável, do ponto de vista da integridade. Eu fui juiz durante 22 anos e nunca precisei de foro privilegiado. Depois, fui ministro igualmente com postura inatacável. E agora não preciso de foro privilegiado. Na verdade, a nossa proposta é a extinção do foro privilegiado para todas as autoridades, inclusive para o presidente.

Outra possibilidade seria o senhor ser vice do governador João Doria, ou vice-versa. Há um pacto entre os senhores de um apoiar o outro?
Não existe nenhuma conversa ou definição de nenhum dos lados. O que existe apenas é um diálogo com o governador de São Paulo. Ele governa o estado com a maior economia do País e, portanto, tem a sua relevância. Mas os projetos meus e dele são distintos. Respeito a ambição dele, mas cada um segue o seu caminho. Claro que lá adiante ele pode ser um aliado. Como muitas outras pessoas podem ser aliadas contra esses extremos radicais, representados pelo governo atual e pelo governo do PT.

Analistas dizem que será muito difícil um nome da terceira via romper com a polarização entre Lula e Bolsonaro. Como o senhor pretende vencer essa barreira?
Não existem petistas ou bolsonaristas, existem brasileiros. Alguns desses brasileiros, infelizmente, se equivocam com propostas de radicalismo ultrapassado. Então, acima de tudo, existe a voz do bom senso e da racionalidade. A voz das pessoas que repudiam essas ações erráticas do governo e que nos trouxeram ao atual período de estagnação econômica e de intenso sofrimento das pessoas. Igualmente, há uma insatisfação em relação ao governo do PT, no qual tivemos os grandes escândalos de corrupção e também a maior recessão da história, entre 2014 e 2016. Romper essa polarização não é difícil. Vamos apelar para a racionalidade, ao bom senso, conversar com as pessoas, demonstrar como as coisas podem ser diferentes e que a gente não está fadado a escolher o pior.

O senhor vai usar a campanha para provar aos eleitores que Lula é corrupto?
Essa é uma questão entregue aos processos e à história. E a história todo mundo sabe como aconteceu. Durante o governo do PT, nós tivemos os dois maiores escândalos de corrupção da história. O mensalão, que foi julgado pelo Supremo diretamente, e o petrolão, que representa a essência do que dá errado no Brasil. O loteamento político de cargos públicos, como na Petrobras, com a função de arrecadação de dinheiro para enriquecimento de políticos e financiamento ilegal de partidos. O que se viu durante o governo do PT foi um projeto de poder para o PT. O que eu pretendo discutir agora é uma visão de futuro. A gente precisa construir um País melhor, e isso depende fundamentalmente da melhoria da qualidade das nossas instituições.

No caso de Bolsonaro, o senhor vai insistir na tese de que Bolsonaro usou a PF para proteger sua família e amigos das acusações de malfeitos, como no caso das rachadinhas do senador Flávio?
O governante se submete às leis. E não as leis se submetem aos caprichos dos governantes. Esse é o retrato específico do nosso atraso, pensar as instituições do Estado como estando a serviço do presidente ou dos seus familiares. Então, num quadro institucional de normalidade, se um governante comete um crime, isso vai ser investigado e a pessoa vai ser punida. Não existe isso de as pessoas estarem acima da lei.

A eleição deste ano será em cima de propostas para a economia. O senhor tem recebido contribuições de Affonso Celso Pastore. Ele será o seu Posto Ipiranga?
Convidei o Pastore, que é um dos maiores economistas do País, para integrar um grupo que vai desenvolver o programa de governo. Esse programa envolve temas relacionados não só à economia, mas também à educação, saúde, política de emprego, diminuição da desigualdade, meio ambiente, tecnologia. Ou seja, é algo muito mais amplo. Sabemos que os interesses dos brasileiros vão muito além. Não obstante, o combate à corrupção está no meu DNA. Para que a gente tenha um governo minimamente eficiente em qualquer área, por exemplo, para prestação de serviços de educação, você tem que ter integridade senão as coisas não funcionam. Sendo corrupto vai ser mais uma gestão incompetente. Sendo corrupto é impossível ser competente.

Pastore é um ministeriável no seu governo?
O convite foi para o Pastore construir o programa de governo. Não vamos antecipar decisões que devem ser tomadas lá na frente e têm que ser conversadas com todos os envolvidos. Não é uma questão apenas minha. Temos que conversar inclusive com ele a respeito.

O senhor pretende manter o teto de gastos?
É preciso ter um mecanismo que garanta a credibilidade fiscal do País. O desenvolvimento, os gastos e investimentos públicos precisam ser sustentados e isso depende de credibilidade e responsabilidade fiscal.

O senhor se considera um liberal?
Eu tenho uma visão liberal da economia. A prosperidade depende muito mais do mercado, da inovação do setor privado, do que do setor público. Mas a pandemia nos revelou a importância das políticas do Estado. No caso da pandemia, o socorro do Estado foi fundamental. Você não pode remeter as pessoas carentes a soluções disponibilizadas pelo mercado. Ou elas não vão ter, por exemplo, dinheiro para encarar esses desafios. Então é importante que você tenha uma educação pública de qualidade. É importante você garantir serviços de saúde que amparem as pessoas. É igualmente relevante você ter políticas de erradicação da pobreza e diminuição da desigualdade social.

O senhor privatizaria a Petrobras?
Isso tem que ser analisado do ponto de vista da eficiência econômica. Não tenho nenhum preconceito. Eu venderia a Petrobras sem nenhum problema. No entanto, tem que haver um estudo para saber se isso nos traz ganhos em matéria de eficiência econômica. Não adianta você substituir o monopólio público por um monopólio privado. Eu particularmente sou favorável que o Estado se concentre naquelas políticas que beneficiem o bem-estar para as pessoas, ou seja, Saúde, Educação e Segurança Pública. Liberal na economia não significa que eu seja contrário às políticas sociais.

O senhor é conservador? É contra o aborto, contra a descriminalização da maconha, contra o casamento gay?
Eu me considero conservador em matéria de costumes. Sou casado há 22 anos. Tenho dois filhos. Sou contrário ao uso de drogas. Mas eu também defendo a manutenção da vida, sou a favor da manutenção da legislação atual em relação ao aborto. Nós temos que ter um Estado que não discrimine e promova a inclusão. Todo mundo sendo respeitado, um Estado não tem que se meter nas escolhas dos indivíduos, independentemente das preferências individuais. O casamento gay já foi discutido pelo Supremo, que permitiu esse tipo de união. É algo que já foi resolvido.

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