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Nelsinho Baptista, o último samurai brasileiro no futebol do Japão

No momento em que grandes clubes, como Palmeiras, Flamengo e Atlético Mineiro trabalham com técnicos estrangeiros, o mercado também está se fechando para os profissionais do Brasil do Japão. Na temporada de 2022, que começa em meados de fevereiro, somente um brasileiro segue em atividade nas principais divisões japonesas. Tanto na J1 League, primeira divisão, como na J2 League, segunda, somente um dos nossos brasucas segue de pé: Nelsinho Baptista.

No alto dos seus 71 anos, ele ainda consegue servir ao Kashiwa Reysol com empenho e lealdade. Estas qualidades o tornaram o ultimo samurai brasileiro na terra do sol nascente, onde fez história. É o estrangeiro que mais ficou por lá, indo agora para sua 17ª temporada, em quatro décadas.


“Estamos aqui, estamos aguentando. Me sinto muito bem, estou com a saúde boa e minha família se adaptou muito bem, principalmente a minha filha. Enquanto eu tiver forças e tiver produzindo, nós vamos seguir em frente”, disse, com um ponta de orgulho de ser o único kantoku (técnico) representando o Brasil.

Nelsinho foi um dos primeiros brasileiros a chegar no Japão nos anos 90. A Liga Nacional Profissional promoveu seu primeiro campeonato nacional em 1993 e ele já foi campeão em 1994 pelo Verdy Kawasaki. Há outros brasileiros que passaram pelos clubes japoneses como Nicanor de Carvalho, Paulo Emílio, Emerson Leão, Oswaldo de Oliveira, Jorginho, Toninho Cerezo e Marco Aurélio Moreira. Entre 1991 e 1994 Zico vestiu a camisa do Kashima Antlers, se tornou um ícone e depois dirigiu a seleção japonesa entre 2002 até 2006.

“Nós brasileiros viemos para ensinar o futebol aos japoneses. Acho que cumprimos muito bem nossa missão. Mas com o tempo a situação mudou. A Liga do Japão se fortaleceu, se profissionalizou e passou a cobrar cada vez mais por resultados”, afirmou Nelsinho.

Muita coisa mudou do início até agora na 29ª temporada da J1 League. Nelsinho esclarece, como que a revelar o segredo de seu sucesso duradouro. “Hoje se exige muito mais de um técnico do que ele faz dentro de campo. Se pede uma pessoa que sinta a cultura do país, que pense e viva como um japonês, respeitando suas convicções e a sua história.”

Em 2020, além dele, Antônio Carlos Zago estava no Kashima Antlers, levado pelas mãos de Zico, diretor técnico do clube. Em 2021, Nelsinho teve a companhia do experiente Levir Culpi que resistiu no Cerezo Osaka por apenas 17 jogos em sua terceira passagem pelo time. Agora, em 2022, só restou Nelsinho Baptista.

Não por acaso, mas a custo de muito trabalho. Em 2021, Nelsinho atingiu uma marca histórica no futebol japonês, comemorando 200 vitórias em mais de 600 jogos disputados, além de completar 10 anos no comando do Kashiwa Reysol. O clube retribuiu tanta dedicação com um memorial ao seu maior comandante, que inicia sua 11ª temporada, justamente, no ano em que o Kashiwa Reysol completa 30 anos de fundação.

“É uma data marcante para o clube. Os dirigentes estão orgulhosos e a torcida está esperançosa numa boa temporada. Isso só aumenta a nossa responsabilidade, mas tenho plena consciência do meu papel nesta estrutura” afirmou.

O Reysol terminou a temporada passada em 15º lugar e agora mira uma posição bem melhor. Depois de dois anos difíceis, acompanhados pela pandemia de covid-19, a diretoria promoveu uma renovação no elenco, rejuvenescendo o grupo de atletas. “A expectativa é de um bom ano, com um time jovem, mais forte e com alguns jogadores experientes e de qualidade” explicou o técnico.

Para dar força física ao grupo, foram promovidos cinco jogadores da base. Dois brasileiros saíram: o volante Richardson e o atacante Cristiano. Mas chegaram o atacante Douglas, vindo do rival Vissel Kobe, além de dois japoneses experientes.

Ao todo são seis estrangeiros. Além de um goleiro coreano, são cinco brasileiros: os meias Matheus Sávio, ex-Flamengo, e Dodi, ex-Fluminense; Emerson, ex-zagueiro do Palmeiras, o meio-campo Rodrigo Angelotti, ex-Red Bull, e Douglas.

No Brasil, Nelsinho Baptista dirigiu duas dezenas de clubes. Foi campeão brasileiro pelo Corinthians em 1990 e levantou a Copa do Brasil pelo Sport em 2008, além de conquistar diversos estaduais. No Japão já conquistou vários títulos e continua empenhado em dar o melhor ao Kashima Reysol, como um verdadeiro samurai.