Comportamento

Negligência que mata

Crédito: Alexandre Cardoso

SUBMERSO O casco afundado do navio Capitão Ribeiro, no Rio Xingu: pelos menos 23 mortos (Crédito: Alexandre Cardoso )

PRECARIEDADE Lancha naufragada em Salvador: peso concentrado em um dos lados fez com que ela adernasse

Às 10 horas da noite de terça-feira 22, enquanto muitos dormiam, passageiros acordados no barco Capitão Ribeiro começaram a ouvir estalos no casco de madeira. Para o representante comercial Adalton Santana, entre o início da tempestade, com muitos raios e trovões, e o capotamento do navio, causado por uma tromba d’água, 10 minutos se passaram. A partir daí, não demorou mais de cinco para toda estrutura estar submersa no rio Xingu, Pará. “Eu consegui rasgar a lona lateral e sair”, conta. “Foi o maior desespero, com mãe chamando filho e filho chamando pai. Os gritos nunca vão sair da minha cabeça.” Saldo: 23 mortos, várias crianças. Horas depois, um caso parecidíssimo aconteceu na Baía de Todos os Santos, Bahia. Durante o amanhecer da quinta-feira 24, a lancha Cavalo Marinho, que levava passageiros pela região metropolitana de Salvador, afundou devido ao mau tempo. O desastre deixou 18 mortos, até o fechamento desta edição. Ainda há desaparecidos. Nenhum dos navios funcionava de forma segura. Tragédias quase simultâneas, elas mostram como o transporte náutico é feito de forma improvisada no Brasil. E como milhares de mortes seriam evitadas caso cuidados mínimos fossem observados. “Muitos barcos chegam superlotados”, afirma a comerciante Maria de Nazaré, de Porto de Moz (PA), onde ocorreu o naufrágio. “Mas é o único meio de transporte aqui.”

O acidente paraense é um estudo de caso para tudo que não deveria acontecer. O barco é clandestino, segundo a Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos do estado. Não possuía autorização para levar passageiros e há dois meses foi notificado para regularizar a situação, o que não foi feito. Além disso, pessoas e cargas iam lado a lado, muitas vezes acima da capacidade máxima. A prova viva disso é que, após o naufrágio do Capitão Ribeiro, um automóvel foi encontrado submerso no convés inferior. A construção das embarcações propicia desastres. Feitas de madeira, não permitem a compartimentação do casco no caso de entrada de água. Nessa hipótese, o afundamento ocorre em minutos. Os navios são altos e finos, o que permite funcionar com motores mais fracos — mas compromete a estabilidade. “Esse caso chamou atenção pelo número elevado de mortes”, diz Pedro Lameira, diretor de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará. “Essas situações são rotineiras na região.” Um levantamento no banco de dados do Ministério da Saúde contabiliza 1,3 mil mortes em acidentes náuticos em 10 anos, metade deles no Pará e Amazonas.

Sem punição

Também já é possível ter uma ideia do que aconteceu no desastre em Salvador. Apesar de não haver superlotação, as 116 pessoas a bordo se acumularam em um só lado da lancha para se proteger da chuva. Com o peso, ela acabou virando. A Agência Reguladora de Transportes de Passageiros da Bahia afirmou que a embarcação estava em ordem, mas a Associação em Defesa dos Passageiros da Bahia diz que os barcos que operam na região estão em estado precário e que já havia alertado as autoridades. O acesso aos coletes salva-vidas quase não ocorreu. Segundo os especialistas consultados por ISTOÉ, não é realista exigir que se use o equipamento durante toda a viagem, pois ele é grande, desconfortável e pode aumentar o risco de afogamento caso a pessoa esteja dentro do convés. Mas, como ocorre em viagens aéreas, as instruções de como utilizá-lo em caso de risco deveriam ser dadas mandatoriamente antes de cada embarque, o que raramente acontece. “Deveria haver esquemas de evacuação e emergência, como no avião”, afirma o diretor-técnico do Grupo Náutica, Marcio Dottori. “As pessoas precisam estar preparadas.”

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Mudar esse cenário depende do poder público, dos donos de embarcações e dos passageiros. Mesmo os barcos construídos artesanalmente precisariam de certificação técnica assinada por um engenheiro. Navios que fazem trajetos mais longos deveriam ser obrigatoriamente metálicos. Os donos das empresas precisam se conscientizar de que são responsáveis por vidas, e devem ser devidamente punidos em caso de desrespeito. Por último, os passageiros precisam ser educados, como nos aviões, para conhecer os procedimentos de segurança caso o pior aconteça.

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