Nascidos para correr

Nascidos para correr

Dono de quatro ouros olímpicos e um dos maiores corredores de grandes distâncias da história, o tcheco Emil Zátopek disse em um documentário de TV que “o atletismo é a mãe de todos os esportes.” Não poderia existir definição melhor. Esporte mais nobre da Olimpíada e da Paralimpíada, o atletismo é também o principal provedor de medalhas para o Brasil paralímpico.

No Rio, foram 33 pódios (8 ouros, 14 pratas e 11 bronzes), quase a metade do total de medalhas conquistadas pelos brasileiros. Há diversos motivos para o extraordinário desempenho. O atletismo possui o maior número de centros esportivos espalhados pelo País, o que favorece a formação de futuros campeões, e é também a modalidade com a maior variedade de provas.

Se o futuro atleta não brilha no salto, ele pode escolher a corrida. Se não tem velocidade, ele lança pesos. Se não for bem, arremessa discos. Grandes nomes do atletismo começaram em outras frentes. “Eu queria ser campeão e tentei muita coisa”, diz o goiano Rodrigo Parreira, prata no salto em distância e bronze nos 100m nos Jogos do Rio (categoria T36).

“O atletismo é a mãe de todos os esportes”, Emil Zátopek, corredor de provas longas e lenda do esporte mundial

“Fiz natação, mas nunca consegui chegar entre os primeiros. Depois, fui para o halterofilismo, e nada de novo. Eu não queria ser coadjuvante.” No primeiro salto, venceu uma competição contra rivais mais experientes e descobriu que o atletismo era o caminho a seguir. Rodrigo nasceu com paralisia cerebral e hoje, aos 23 anos, é um dos principais nomes do esporte paralímpico brasileiro.

O rondoniense Mateus Evangelista, outra estrela do salto (foi prata na categoria T37) que nasceu com paralisia cerebral, foi goleiro da Seleção Brasileira Sub-21 de Futebol de 7 (são 7 jogadores de cada lado) antes de enveredar para o atletismo. A diversidade de esportes é importante para o desenvolvimento dos atletas. “O fato de ter jogado Futebol de 5 (são 5 jogadores de cada lado) me ajudou no atletismo”, diz o carioca Felipe Gomes, ouro nos 4x100m e prata nos 100m, 200m e 400m na Rio-2016 . “Graças ao futebol, não sou inseguro para correr e treino sem precisar de guia.” Felipe começou a perder a visão aos 6 anos em decorrência de um glaucoma congênito e ficou cego aos 14. “A corrida foi o caminho que encontrei para me realizar como atleta e como pessoa.”

MUDANÇA DE ROTA

Eles também descobriram o atletismo depois de passar por outros esportes

Uma análise minuciosa da equipe brasileira de atletismo revela um fato curioso: muitos campeões começaram em outras modalidades. Conhecida durante muito tempo como “a deficiente visual mais rápida do mundo”, a mineira Terezinha Guilhermina trocou a natação pelo atletismo depois de ganhar um par de tênis da irmã.

Resultado: Terezinha se tornou um fenômeno esportivo, com 8 medalhas paralímpicas (3 ouros, 2 pratas e 3 bronzes) no currículo. Prata nos 100m e 200m na Rio-2016, o fluminense Fábio da Silva Bordignon foi atleta de futebol de 7 (praticado por 7 jogadores de cada lado) até os 22 anos, e só então migrou para o atletismo. Há diversos exemplos. Nascido com paralisia cerebral, o acreano Edson Cavalcante Pinheiro praticou tênis de mesa, e desejava ser medalhista paralímpico nessa modalidade. Foi no atletismo, porém, que encontrou a verdadeira vocação. No Rio, faturou o bronze nos 100m, na categoria T38.