Nas patas da campanha

Crédito: Alan Santos

(Crédito: Alan Santos)

De chapéu de coco, a cavalo, bem caricato, como convém a quem tem pouca ou nenhuma familiaridade com o público ao qual se dirige, o candidato Jair Bolsonaro subiu rumo aos confins do Nordeste para desbravar terras áridas em busca dos habituais votos de cabresto. Ali já apanhou fragorosamente, na conta de quase dez para um, durante o escrutínio passado. No plano de tentativas canhestras, recorre à surrada artimanha do folclore generalista. Quer se redimir mostrando a faceta de um “Jairzinho paz e amor” que, imagina, lhe cairá bem. Incorpora o irrefreável pendor a caudilho populista, tão comum por essas paragens, com interesses bem concretos. Eleitores de lá estão a lhe fazer falta na base de apoio, essa a cada dia mais esquálida — até porque o capitão, nos últimos tempos, escorrega em bobagens como a de dar remédio a emas e exibe pouca prática na liderança para combater o inimigo maior do País e do mundo, o coronavírus exterminador de vidas a rodo (milhares somente nas cercanias do Brasil gigante). Há quem naturalmente questione: qual o motivo de tanta campanha eleitoral em meio à tragédia? Não aconteceu nem metade de um mandato concluído. Urnas estão longe, a perder de vista. Decisões cruciais e necessidades cotidianas sobrevalecem no momento. Que ordem de prioridades é essa? O Bolsonaro a caráter do sertão desvalido impõe uma dinâmica política totalmente fora de esquadro e nexo. Faria isso por puro capricho ou por simples inaptidão para o posto que, quis o eleitor, lhe caiu no colo? Ou as duas coisas e algo mais? Existem, diz a filosofia, razões que a própria razão desconhece e critérios que cabem apenas na mente de um ser inepto para a imensa tarefa que lhe foi outorgada. Bolsonaro não preside um país. Nem dirige um governo. Nunca assumiu de fato o posto. Jamais desceu do palanque. Sequer olhou para a lista de afazeres primordiais, pendências que estão a rogar por sua atenção. Messias, o “mito”, promoveu ignomínias para esconder a desqualificação. Reverberou a polarização insidiosa, sugerindo haver do outro lado, como alternativa, algo muito pior. Entre o ruim, o péssimo e o medíocre, o Brasil equilibra-se para não ser engolido pela onda de revezes. Encarar firmemente os problemas cotidianos não é com Jair Bolsonaro. Tudo nos seus atos convida ao movimento de rebanho, de seguidores sem a percepção do todo de atraso em curso. O que promete o andarilho Messias nas novas peregrinações por redutos de votos? A salvação contra a “ameaça comunista”, de uma “esquerda” que funciona como alterego para concretizar suas ambições de poder perene. Nada mais obtuso e raso. O seu “outro eu”, concebido no inimigo imaginário que reflete seus próprios anseios, serve para confundir e iludir a claque embalada pela ideia de um salvador da pátria. Mais um, acalentando anseios inconfessáveis. E o Bolsonaro de palanque insiste na jornada distópica da realidade, sem compreender a urgência de uma gestão. Perseguir opositores é o esporte predileto. Não apenas nas redes sociais. Messias já se vangloriava de possuir o próprio serviço secreto de vigilância, “mais eficiente” que o oficial, prestativo, obsequioso a ele. Acaba de criar na Abin, órgão federal de natureza de Estado, a sua versão mal ajambrada de Gestapo. É a inovação com jeito de retrocesso. O renascimento da polícia política. Com qual intuito? Esse braço extensor da Abin gera um sistema de espionagem particular que é, no todo, ilegal e imoral. Somada a medida está a famigerada relação para combate a nomes notoriamente “antifascistas”, gerada no seio do Ministério da Justiça, com o beneplácito do próprio titular da pasta, André Mendonça, que aterrissou no cargo depois que Bolsonaro botou para correr o paladino da Lava Jato e herói nacional, o ex-juiz Sergio Moro. A lista negra, que tenta gerar um constrangimento funcional e serve de munição para ataques na internet dá bem o caráter daqueles que a confeccionaram. Se a batizam de “antifascistas” é porque, deliberadamente, eles se consideram fascistas. A tropa de choque do bolsonarismo que cavalga por caminhos tão sombrios e reacionários não poderia realmente ter um líder mais representativo desse retrocesso. Messias, o mito, na estreiteza de métodos, só serve mesmo para campanha de ilusões. Jamais para governar.

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