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Narcodoenças na Colômbia, a sequela silenciosa no maior produtor de cocaína

Narcodoenças na Colômbia, a sequela silenciosa no maior produtor de cocaína

Usuário de cocaína mostra as consequências da droga na pele das costas durante entrevista à AFP em Bogotá, em 29 de janeiro de 2020 - AFP

O legado sombrio dos traficantes de drogas colombianos ecoa em todo mundo. Mas, em silêncio, em meio ao estigma e à dor, vivem os usuários de cocaína doentes.

Perda do septo, depressão, problemas coronários, hepáticos, ou neurológicos, impotência sexual, necrose… A ONU alerta sobre as consequências do consumo.

Em uma Colômbia que luta contra a herança de Pablo Escobar, as autoridades alertam para um “aumento sistemático” no consumo de narcóticos.

Pouco menos de 1% dos colombianos admitiu ter-se drogado com cocaína em 2013, longe dos principais mercados: Estados Unidos (2,70%), Inglaterra (2,67%), ou Austrália (2,50%), segundo a ONU.

Embora a Organização dos Estados Americanos (OEA) descreva como “intermediário” o consumo no país responsável pela produção de 70% do pó branco, os especialistas temem um aumento do uso, quando o confinamento devido à pandemia de coronavírus for suspenso.

“As pessoas que reduziram o consumo durante a quarentena não podem sair agora para ter o que tinham antes, porque poderão ter uma overdose”, alerta o diretor da Corporação Ação Técnica Social (ATS), Julián Quintero.

Na Colômbia, os dados sobre mortes e viciados são incertos, mas no mundo existem 35 milhões de pessoas com “transtornos” e que precisam de tratamento. Cerca de meio milhão de pessoas morrem a cada ano, conforme as Nações Unidas.

“As pessoas dificilmente procuram o médico porque são viciadas em cocaína e não acham que isso afeta outras coisas”, diz o diretor científico do Centro de Reabilitação da Fundação Colectivo Aqui e Agora, Efrén Martínez.

“Ainda é embaraçoso falar sobre o uso de drogas”, completou.

Abaixo estão testemunhos de condições derivadas do consumo desta droga.

– Septo perfurado –

O sangue não impedia Nicolás Merizalde de parar de “cheirar perico”, como a cocaína é conhecida na Colômbia.

“Com um lenço, com o que quer que fosse, eu limpava o sangue, deixava secar um pouco, voltava (a aspirar) e voltava a despejar sangue”, diz o homem de 47 anos.

Merizalde vira a cabeça, e não há vestígios de cirurgia. Mas seu septo agora é de platina.

O septo e os cornetos foram destruídos pelo consumo desenfreado que começou aos 14 anos de idade. Os danos geralmente ocorrem entre aqueles que cheiram por anos.

“A quantidade de elementos, de ácidos, que a cocaína possui, tem o poder de corroer o osso, literalmente”, diz Martínez.

“O mais sério é a quantidade de microinfartos do cérebro que você pode ter” porque, com a perfuração do osso, a substância vai diretamente para o cérebro.

Embora ele tenha começado com maconha e álcool, Merizalde rapidamente passou à “neve”. Ao contrário de seus amigos, cheirava “mais obsessivamente”.

“Eles cheiravam um pino, eu, dois”, relata.

Sua vida se desfez. Roubou, bateu em uma namorada, traficou drogas para o Peru e se permitiu ser apalpado em troca de uma dose.

Rendido à “doença”, que o deixou com problemas de memória, trancou-se em um motel em busca de uma overdose. Falhou e acabou internado. Está limpo desde 1995 e há uma década dirige um centro de reabilitação.

– Impotência sexual –

Alberto* garante que a impotência sexual foi uma das causas de sua separação. “Apaixonado” desde adolescente pela cocaína, ele nunca pensou que seu vício o trairia debaixo das cobertas.

“Foi desconfortável, a pior coisa que poderia acontecer. Esse também foi um dos gatilhos para nos separarmos, porque ela começou a ver que meu corpo, que minha vida, tudo dependia da droga”, conta ele, em um corredor do Hospital Infantil Universitário de San José, em Bogotá.

No centro médico, onde está internado desde uma isquemia cerebral decorrente do consumo excessivo, lembra-se de seus problemas de ereção, que começaram mais de duas décadas atrás.

Tinha então 22 anos, oito de consumo diário.

Mais tarde, casou-se e teve dois filhos, hoje adolescentes. Durante o casamento, continuou cheirando. Sua esposa tolerou até que ele começou a gastar o dinheiro da família. E sua vida sexual foi frustrada por disfunções eréteis.

“Quando você é dependente da droga, muitas vezes ela anula o prazer sexual”, explica.

A cocaína forma coágulos de gordura nos vasos sanguíneos que impedem uma irrigação normal do pênis, órgão que, para ter uma ereção, precisa de sangue, explica o toxicologista Miguel Tolosa.

Alberto “corre o risco de [antes de completar 50 anos] ficar impotente por causa dos danos aos vasos” sanguíneos, diz Tolosa, que o tratou no hospital.

Após a separação, Alberto manteve seu relacionamento com as drogas. Seu problema sexual parece menor comparado a outras condições: infarto cerebral, problemas hepáticos, coronários e renais.

“A droga foi a pior decisão da minha vida, acabou com tudo”, confessa. Alberto não retornou para exames médicos, e seu paradeiro é desconhecido.

– Necrose –

Jorge Rodríguez* tira a camisa e mostra o peito, as costas e os braços. Sua pele escura retrata seu “inferno” por uma necrose cutânea por cheirar cocaína processada com remédio veterinário.

Suas extremidades e tronco têm cicatrizes. Onde agora há manchas, anos atrás havia sangue e queimação.

“Essa droga não te deixa fazer absolutamente nada, nem ler, nem digitar bem, nem fazer sexo (…) prejudica sua vida”, desabafa em sua casa, no centro de Bogotá.

“A cama cheia de sangue, as camisas… é uma doença absolutamente embaraçosa… estava manchado o tempo todo”.

No final dos anos 2000, o corpo de Rodríguez, 50 anos, começou a secar. Pequenas espinhas apareceram e explodiram em feridas.

“Para ir a uma reunião, tinha que colocar calmantes na pele”, explica. “Tive que deixar minha vida pública profissional (como pesquisador e consultor) e me concentrar em uma vida profissional fechada”.

Consumidor habitual de cocaína por um quarto de século, a doença começou quando ele mudou de revendedor. Foi o primeiro de seis amigos a apresentar sintomas.

Eles visitaram médicos que diagnosticaram sarna, ou ácaros. Foram tratados e curados por alguns dias, até que a ATS examinou a cocaína. A entidade descobriu que a droga estava misturada com Levamisol, um dos produtos químicos empregados pelos traficantes para aumentar os lucros.

Estudos científicos indicam que esse antiparasitário pode causar necrose da pele em consumidores crônicos, diz o diretor da ATS.

Em 2014, Rodríguez mudou de fornecedor, e a doença desapareceu. Também reduziu sua dose diária e agora inala uma de maior “pureza” sem aditivos.

O especialista Quintero alerta, porém, que a cocaína de alta pureza acarreta riscos maiores de dependência e de overdose.

*Nomes alterados por solicitação das fontes.

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