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Entrevista

Paulo Coelho, escritor

Não vejo candidato que coloque o Brasil nos eixos

Niels Ackermann

Não vejo candidato que coloque o Brasil nos eixos

Luís Antônio Giron
Edição 04/05/2018 - nº 2524

Paulo Coelho mantém há décadas a regra de lançar livros em anos pares. Esta semana, chega ao Brasil o romance “Hippie”, lançado pelo selo Paralela. É seu vigésimo título desde 1974. Segundo ele, o ritual dos anos pares lhe traz sorte. Talvez essa seja a causa do seu sucesso mundial, na falta de explicação mais objetiva. Aos 70 anos, ele é há mais de 20 o escritor brasileiro de maior fama internacional: traduzido para 81 idiomas, vendeu 225 milhões de exemplares. Em “Hippie”, Paulo Coelho narra em terceira pessoa a aventura que ele fez em 1970, uma viagem de ônibus (o Magic Bus) de Amsterdã a Katmandu, passando por Istambul, Teerã e lugares que hoje, segundo ele, saíram do mapa. O volume conta com uma ilustração da mulher de Paulo, a artista plástica Christina Oiticica, mostrando a jornada do hippie Paulo. As muitas entrevistas que costuma conceder quando lança livros também fazem parte da rotina mística. Nesta, concedida a ISTOÉ por telefone, de seu apartamento em Genebra, Suíça, ele faz previsões sobre a Copa do Mundo, fala da decepção com a política e os políticos brasileiros e analisa a cultura hippie à luz da ausência de utopias do mundo atual.

Seu novo romance, “Hippie”, trata da utopia dos anos 1960. Você é saudoso daqueles tempos?

Eu fui hippie, mas não tenho nenhuma saudade desse fato. Volta ao passado não está com nada. Eu nem volto aos lugares onde eu já andei. O livro é sobre valores atemporais. Há valores éticos que não têm nada ver com a época. O que nos vimos hoje em dia é que o fundamentalismo, que não se restringe à religião, em que você não pode falar nada, se você disser isso é um crime. Todo mundo fica sem falar. Se você diz qualquer coisa, as pessoas se escondem atrás do anonimato. No livro, procuro explicar que existiu uma época em que alguns valores foram inculcados e que continuam. É um livro sobre a importância de certas coisas que eu vivi e entrei de cabeça. Por isso foi fácil escrever.

A aventura que você narra é real?

Cada pedaço dela. Alguns momentos eu tive de sintetizar, porque não podia contar tudo. Até por uma questão de espaço e de dramatização no sentido da narrativa. Eu me lembro de cada segundo. Eu me lembro de muitos rostos e até do endereço do abrigo onde pernoitei em Amsterdã.

O Magic Bus existiu?

Sim, descobri que ele existe até hoje. Mas agora deve ter ar condicionado, e ele não passa pelos lugares estranhos de antes porque tudo mudou. O sentido de aventura se perdeu.

Por que você se lembrou da jornada rumo ao Oriente?

Ela voltou com força quando eu comecei a ver o fundamentalismo, a intolerância, o politicamente correto. O fato de obrigarem as pessoas a serem isso e aquilo. Quando comecei a ver o renascer de uma coisa que não é boa, que era espontânea na minha geração sem que ninguém precisasse elogiar nada, eu disse: “Tô fora e vou escrever sobre isso”. Isso foi um ano atrás. De repente, em janeiro deste ano, a coisa veio. Vou escrever sobre um mês e meio da experiência a bordo do Magic Bus.

Que balanço você faz dessa época? O que ficou?

Tudo ficou da cultura hippie, menos a droga. A droga acabou enchendo o saco. Eu não conheço as drogas novas. Com a cocaína parei em Nova York quando vi que meus amigos estavam ficando viciados. Heroína eu nunca experimentei. LSD depois de cinco viagens eu já sabia tudo. Depois fica uma coisa meio repetitiva. Maconha também, parei na manhã do primeiro dia da primavera da 1982. Estava revisitando Amsterdã, já casado com Chris. De repente, acordei com alguém cantando “Chegou a primavera”. Aquilo ficou repetindo na minha cabeça e não tinha mais a conexão que a maconha provocava.

Não, são sincronicidades. Quando aconteceu o maio de 1968, eu estava em Macho Picchu. Mas todo mundo sabia que aquilo estava acontecendo. O balanço que eu faria é que houve uma explosão mal explicada até hoje, e logo, no final de maio, o general De Gaulle (presidente da França) conseguiu mobilizar a opinião pública a seu favor. Promoveu marchas e muitos pegaram carona naquilo, feito o Jean-Paul Sartre. De repente, uma grande passeata deu a volta na coisa. De Gaulle botou a maioria silenciosa nas ruas de todas as cidades da França. É mais ou menos o que acontece hoje em dia: a maioria silenciosa, conservadora, reacionária, correta, com aqueles valores antigos, foi para as ruas, o De Gaulle sufocou os movimentos, que já tinham se transferido da juventude, da Sorbonne, do instituto de Sciences Po, para as centrais operárias e sindicatos. Ele fechou com mão de ferro ali. E acabou.

Os blackblocs tomaram as ruas de Paris neste 1º de maio e depredaram prédios, lojas e bancos. Você não teme que seu apartamento parisiense seja vandalizado?

Ih, não, cara, não tem nada a ver. Eu temo muito mais a intolerância que ocorre lá por causa de movimentos religiosos. Meu patrimônio fica no quinto andar de um prédio no 16º Distrito de Paris, numa posição logística bastante segura. É um bairro que tem embaixadas, área superpoliciada. Não estou temendo. Você não pode passar a vida pensando em coisas materiais. Não vou a Paris há muito tempo. Mas quando eu vou, meu apartamento está lá.

As novas modalidades de protesto não mostram o colapso da das utopias?

A única coisa que ficou quando Pandora abriu a famosa caixinha foi uma coisa chamada esperança. Você não pode perder a esperança no ser humano, nos valores e na bondade intrínseca que neste momento não está visível por causa da internet, da qual já fui fã e hoje já não sou tanto. As pessoas estão mostrando o que de pior elas têm, os trolls, o anonimato… Sou uma pessoa não idiotamente otimista, mas tenho certeza de que em algum tempo tudo isso vai melhorar.

A política deixou de ter importância?

Não. A política vive um momento de desencanto.

Você conviveu com Sérgio Cabral, Lula, José Dirceu. Hoje os vê assim, com desencanto?

Total, né? Total! Eu era muito bom para certas coisas para outra era muito ingênuo. Tenho um defeito e uma qualidade: acredito em todo mundo, mas quando desacredito, perco o encanto e nunca mais. Em janeiro de 2010, fui com o Sérgio Cabral a Copenhague para fazer a campanha pela Olimpíada do Rio. Quando depois eu li que o Sérgio Cabral estava dando uma camisa da Seleção Brasileira para o Tony Blair, na mesma hora escrevi no Twitter: “Criminoso de guerra não pisa na minha perna. Nem que eu vá até lá jogar um sapato nele”. Ele não vai pisar porque eu tenho mais poder e consciência do meu poder do que essas politicagens.

Você costuma acertar previsões. Já tem seu candidato a presidente do Brasil?

Vou votar no candidato que está em primeiro lugar na última pesquisa da “Folha de S. Paulo”. Sabe quem é? É o chamado Nulo/Não Sei/Branco. Ele atingiu 31%. Está em primeiro lugar. Vou votar em Nulo/Não Sei/Branco.

Foi por causa da política que você não compareceu à Olimpíada de 2016?

O Carlos Arthur Nuzman (então presidente do Comitê Olímpico Internacional) me convidou para ir à Olimpíada de 2016 e carregar a bandeira. Eu disse que não ia carregar. Aquilo já não me representava. Não a carreguei. Fui meio visionário. Pensei: “Isso tudo vai matar o Rio” — como efetivamente ocorreu.

Faz uma década que você não volta ao País para lançar livro e dar autógrafos. Você desistiu do Brasil?

Não posso desistir do meu país. Posso contar tudo o que está acontecendo aí, passo a passo. O Brasil é meu país, é meu sangue. Continuo com meu apartamento em Copacabana. Eu pretendo voltar. Quase voltei agora, por causa de um amigo que estava mal, mas ele sarou e não fui. Eu vejo e leio tudo o que posso sobre o Brasil, acompanho o STF e converso com brasileiros.

Você se sente superpoderoso morando na Suíça?

Genebra foi a cidade com que mais me adaptei. Posso tirar o passaporte suíço, mas não tiro. A única coisa que faço aqui é pagar o imposto de renda. Não pago imposto no Brasil desde 2006.

Você foi precursor do exílio de luxo que está acontecendo agora, com milhares de brasileiros trocando o Brasil por Miami e Lisboa e vivendo lá como expatriados.

Eu não estou no exílio. Recuso-me a aceitar a palavra “exilado”. Não foi meu caso. Exilados não podem voltar ao país. Não moro no Brasil porque não quero, desde que entrei para a Academia Brasileira de Letras, em 2002. Estou preocupado com minha vida. Quero que as pessoas façam o que bem entenderem. Nem penso nelas.

Como o mago prevê o futuro imediato do Brasil?

O visionário não consegue ver tudo. O Brasil neste momento é uma incógnita. Posso ter meus desejos pessoais. Não vejo neste momento um candidato que possa assumir uma série de responsabilidades, fazer as reformas necessárias e colocar o Brasil nos eixos. O império dos faraós do Egito durou 3 mil anos, Alexandre conquistou o mundo. Hoje o Egito é um país que nunca mais se recuperou. Eu espero que isso não aconteça com o Brasil. Mas o Brasil está em péssimas mãos com Temer na presidência e não ficaria melhor com Lula. Lula já passou a sua fase. Hoje mesmo Noam Chomsky disse que Lula tem que fazer a autocrítica. Eu deixei de ser Lula há muito tempo, embora as pessoas me associem a ele. Isso porque eu fiz campanha para ele — foi mais uma babaquice da minha história.

Você tem esperança da Seleção Brasileira na Copa?

Tenho. Espero que o Brasil ganhe. Tudo depende de como as pessoas se comportarem. Se a Seleção Brasileira for com um ar muito blasé, já perdeu. A Espanha está com uma seleção fortíssima. A Alemanha está maravilhosa. De qualquer forma, eu acho o Tite um grande treinador, que inculca valores nos atletas. Ele mandou os jogadores lerem meus livros. Não é por isso que eu gosto dele. É que ele sabe o que faz. Tem senso de disciplina. É o oposto do Luiz Felipe Scolari, um horror.

O que você nunca fez e gostaria?

Pelo amor de Deus, se eu falar isso, eu morro amanhã. Falta muita coisa. Alguns sonhos que pretendo realizar: passar três meses num mosteiro, conhecer a Síria, visitar o Kilimanjaro. São coisas que vão me acrescentara muito. Falta eu conseguir distribuir meus livros na África. Toda vez que assino um contrato em francês ou inglês, exijo que no mínimo mil cópias sejam doadas a bibliotecas na África. Fiz tudo o que tinha que fazer, combati o bom combate, agora Deus pode me levar. Ele vai me levar quando quiser, é óbvio. Antes disso, falta eu fazer muita coisa.

Você foi um dos nomes importantes da contracultura hippie no Brasil, por causa de suas canções em parceria com Raul Seixas. O que ficou daquele tempo?

A jornada do livro acontece em 1970. O encontro com Raul Seixas foi em 1973.  Eu me encontrei com o Raul porque eu estava empolgado com o espírito hippie e criei uma revista underground chamada “2001”. Existia uma imprensa alternativa muito forte naquela época. Minha revista tratava de discos voadores, manifestos culturais, uma visão diferente da vida, o apocalipse. Tudo o que fazia parte da cultura hippie eu publicava. Obviamente, a revista entrou em falência em dois números. O Raul leu uma matéria sobre discos voadores e foi lá falar comigo, e surgiu a parceria.

Você sempre lutou para impor sua obra. Mas no Brasil você ainda conta com críticos que o odeiam. Essa falta de reconhecimento por parte da crítica brasileira magoa você?

Você tem uma luta com o adversário que é igual a você. É uma covardia você lutar com quem é mais fraco do que você e uma burrice lutar com quem é mais forte que você. Nunca tive uma luta com os críticos. Eu fiz a coisa que eu queria fazer e nunca respondi aos críticos. Reconhecimento de quem? De três pessoas que merecem que eu lute para ter o reconhecimento delas? Ninguém. Todas as pessoas que falaram mal de mim sumiram e eu continuei. Não mudei nada e continuei escrevendo como eu acho que tenho que escrever. Ignorei esse pessoal porque nunca foi representativo. E me surpreende que os jornalistas me perguntem isso, porque, quando se fala em críticos, você tem que travar uma luta com fulano de tal. Mas crítico é muito vago. Ele fala para o amigo do amigo do amigo. Por isso a Feira de Frankfurt de 2013 foi um desastre. Estavam ali todos os escritores incensados pelos críticos, e nenhum deles conseguiu nada. Porque o crítico que fala bem não quer dizer nada. Nem leio as críticas.

Em Frankfurt, você foi hostilizado pelos críticos e escritores seus bajuladores críticos.

Eu sabia que aquilo ia acontecer. Isso ocorre com qualquer pessoa que faça sucesso. Uma vez eu encontrei a Madonna e a gente estava batendo papo quando ela disse: “Eu sou a pessoa mais odiada do mundo.” Levei um susto, como isso era possível? O problema é que ela lia as críticas. Eu disse a ela que parasse de ler. Porque o simples fato de ler críticas já polui a mente. Eu não leio nada. Nunca respondi nada porque nunca li nada.

Com o Lula você esteve na campanha para a Copa do Mundo de 2014? Você disse que acha estranho o Lula preso?

O que eu acho estranho é esse negócio do triplex. Mas não quero me meter nessa história, não.


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