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Entrevista

Dom Falcão

Não sugeri dar veneno de rato ao Caetano

Divulgação

Não sugeri dar veneno de rato ao Caetano

Rudolfo Lago e Ary Filgueira
Edição 12/04/2019 - nº 2572

A canção “Miserere Nobis” é a primeira faixa do célebre álbum “Panis et Circensis”, marco do movimento tropicalista. Foi composta em 1967 por Gilberto Gil e Capinan e seus versos finais são as palavras soletradas “Brasil”, “Fuzil” e “Canhão”, seguidas da frase em latim “Ora pro Nobis!”. Apesar de não ter sido composta por ele e fazer clara alusão à fase mais dura da ditadura militar, o Bispo Auxiliar do Ordinariado Militar do Brasil, dom José Francisco Falcão de Barros, a elegeu sua preferida do repertório do cantor Caetano Veloso. “Miserere Nobis” significa “Tende piedade de nós” e “Ora pro Nobis” quer dizer “Orai por Nós”. Na semana passada, no entanto, dom Falcão envolveu-se em uma polêmica com Caetano. Noticiou-se que durante missa no dia 31 de março, quando o golpe militar de 1964 completou 55 anos, o bispo teria citado outra canção do compositor, “É Proibido Proibir”, para criticá-lo. O bispo teria chamado Caetano de “imbecil” e desejado que alguém desse “veneno de rato” para ele. Caetano interpelou judicialmente dom Falcão, mas o bispo diz que suas palavras foram distorcidas. Em entrevista à ISTOÉ, o bispo afirma que não mencionou Caetano e nem desejou sua morte.

O que houve no episódio envolvendo o cantor e compositor Caetano Veloso? O senhor o atacou durante a missa? O chamou de “imbecil”? Disse que desejava que alguém desse “veneno de rato” a ele?

As minhas palavras na homilia foram distorcidas. Colocaram nos meus lábios palavras que eu jamais disse. Nem diria. Em toda a homilia, jamais pronunciei a palavra “imbecil”. Nem desejei dar nada (veneno de rato) a ninguém. A primeira coisa que eu devo dizer também é que ao longo da homilia não foi citado o nome de qualquer cantor ou compositor. A homilia do dia 31 versou sobre as leituras litúrgicas, o trecho do Evangelho que fala do filho pródigo que abandona a casa do pai em busca de uma liberdade sem proibição. O que eu quis mostrar é que a liberdade, no sentido cristão, é um conjunto de restrições. Não se pode falar de liberdade sem proibição. Dos Dez Mandamentos da lei de Deus, seis têm proibições. Foi nesse contexto que eu disse que na década de 1970 alguém compôs uma música cujo título era “É Proibido Proibir”. Eu me referi a algo que já vinha sido cantado no espírito de Maio de 68 na França…

Sim, porque essa frase não é de Caetano. Ele só faz referência a ela…

Sim, antes dessa música ser composta aqui no Brasil. “Il est interdit d’interdire”… “É proibido proibir”. É uma expressão que não é de Caetano Veloso. Voltando à homilia, para mostrar a incoerência de se dizer que você é livre e proíbe qualquer proibição, eu disse a seguinte frase: ‘Se eu encontrasse o autor dessa música, eu lhe perguntaria: ‘Como assim? Então, você aceitaria comer veneno de rato e mastigar cianureto?’. Fiz uma pergunta, fiz um questionamento. Não foi um desejo.

Não se poderia levar o que o senhor disse a uma outra interpretação?

Quando você quer contrapor um pensamento a outro, faz uma pergunta hipotética. Para confrontar a ideia do outro. A questão hipotética é que é proibido comer aquilo. Por isso, a sua tese de que é proibido proibir comer aquilo é inaceitável. É como no jornalismo. Como diz a Constituição, é legítima a manifestação do pensamento. Mas com os limites éticos e legais. Aí, alguém diz que defende a liberdade de pensamento sem qualquer limite ético ou legal. Aí, se perguntaria: ‘Você aceitaria que alguém publicasse um artigo, difamando, caluniando, injuriando a sua mãe?’. A pergunta não é um desejo. É um questionamento para mostrar a inconsistência do pensamento do interlocutor. Foi isso o que aconteceu. Não chamei ninguém de imbecil. Não me referi a nenhum cantor brasileiro. Esse jargão é francês. Não é de Caetano.

O senhor procurou o próprio Caetano para esclarecer o episódio?

Não. Eu emiti uma nota para esclarecer os fatos.

Passada a polêmica, o senhor escuta Caetano Veloso? Há alguma coisa dele que o senhor particularmente admira?

Há uma canção de um de seus primeiros discos, que remete à liturgia católica: “Miserere Nobis”. É uma afirmação que se encontra literalmente na missa católica. Não sei qual o contexto que o levou a redigir, mas o fato é que é uma letra católica romana. “Miserere Nóbis, Miserere Nóbis, Miserere Nóbis, Senhor” é o que nós rezamos todos os dias. Impossível que alguma pessoa ouvindo não remeta à nossa Igreja, ao nosso Deus, ao que rezamos todos os dias.

A família de Caetano é de formação católica…

Dona Canô, mãe de Caetano, e Maria Bethânia é devotísisma do Senhor do Bonfim, padroeiro da Arquidiocese de São Salvador, da Bahia.

Saíram informações de que depois da notícia o senhor recebeu agressões e ameaças pelas redes sociais…

Não tenho conhecimento disso. Não confirmo.

Ainda que não confirme ter recebido ameaças, o senhor considera que o episódio em que suas “palavras foram distorcidas” se insere nesse momento de radicalismo, de ódio e intolerância, sobretudo política e moral, por que passa o Brasil e o mundo?

Nosso Senhor Jesus Cristo, no início de sua vida pública, no Evangelho Segundo João, é intransigente ao expulsar os vendilhões do Templo. Com o chicote na mão, ele diz de forma contundente: ‘Tirem isso daqui e não façam da Casa do meu Pai um covil de ladrões!’

O senhor quer dizer que há momentos em que as circunstâncias autorizam a intransigência?

Há determinadas coisas, na convivência humana, que não podem ser toleradas. Não se pode tolerar a violação à dignidade da pessoa humana. Não se pode permitir que a sacralidade do homem seja violada. Que a natureza seja ofendida. E, nesse sentido, há um princípio básico na convivência humana de que nós tenhamos algumas coisas bastante claras. O outro tem dignidade. O outro tem a sacralidade. O outro tem direitos fundamentais que estão impregnados na natureza dele. Não por força de lei. A dignidade do homem é própria do homem. Não porque a lei diz. Esse é o primeiro princípio que eu creio que está sendo esquecido em muitos lugares do mundo. Nos corações das pessoas.

Há muita intolerância hoje?

O intolerante é aquele que é incapaz de aceitar a alteridade. O outro, com tudo aquilo que tem de específico, com suas características, com suas virtudes, limitações, com suas potencialidades. O intolerante é aquele que diz: ‘O mundo tem que ser como eu quero, as pessoas têm que pensar como eu penso, as pessoas têm que ter a concepção de mundo que eu tenho’. Isso é extremamente perigoso, porque o mundo passa a ser um centro. O próprio eu dessa pessoa. Nos tempos atuais, eu acho que é preciso admitir a possibilidade, primeiro, de respeitar as diferenças. Depois, a capacidade de conviver pacificamente para além das diferenças e procurar um denominador comum. Isso precisa de diálogo, respeito. Esses tempos difíceis que estamos vivendo eles requerem mais do que nunca no coração das pessoas limite e possibilidade. Eu já vi conflitos serem dirimidos com esse preceito: “Eu não posso tudo e devo fazer para o outro aquilo que eu gostaria que me fizesse”.

Vivemos tempos de falta de diálogo?

Eu colocaria, antes de tudo, a perda do sentido da racionalidade. O irracional é aquele que diz: faz sentido. Quando você não admite que o outro também pode ter razão, seus valores, ideias, está radicalizando. Ou é o que eu penso e o que eu quero ou não é. Pensando e agindo dessa forma, você fecha as portas para qualquer tipo de aproximação de entendimento. Isso é o princípio para algo extremamente perigoso na convivência humana que é o ódio com todas as suas manifestações trágicas. A história tem abundantes exemplos de que a irracionalidade, quando tentou prevalecer, não levou a nada a não ser à dor e ao sofrimento e à morte. Tivemos uma prova disso na Segunda Guerra Mundial em que o ódio assumiu a sua face mais horrenda.

Esse estado de coisas, na sua avaliação, está relacionado, como propõem alguns grupos religiosos, ao crescimento de posicionamentos que ameaçam os valores cristãos? Ameaças ao conceito tradicional de família, a discussão sobre ideologia de gênero, liberação do aborto?

Creio firmemente que esta ameaça está em ato. E esses três pontos que foram abordados na pergunta exatamente exemplificam isso. O aborto, por exemplo, é uma gravíssima ameaça à vida, porque significa o assassinato de seres indefesos. Portanto, é um crime e não pode, na visão cristã, ser admitido em hipótese alguma. A ideologia de gênero é uma ameaça ao próprio conceito de homem e de mulher. O que diz a ideologia de gênero em síntese é que ninguém nasce homem ou mulher, mas se torna um ou outro. Ou algo neutro. O que existe é um indivíduo, não a natureza. Na visão cristã, isso é absolutamente inaceitável. Deus colocou na natureza do homem a geneticidade masculina e na da mulher a feminina. O homem não tem direito de alterar aquilo que Deus impregnou como algo imutável. É verdade que, ao longo da vida, o homem evolui. Mas em consonância com esse dado que não lhe foi dado como possibilidade de mudança. Homem é homem. Mulher é mulher. Com relação ao conceito tradicional de família, Deus colocou na natureza do homem e da mulher a complementaridade e disse: o matrimônio é uma instituição natural pautada na diversidade dos sexos e na complementaridade de ambos. Homem se casa com mulher. Mulher se casa com homem. Esta é a vontade de Deus.

O senhor fala da degradação moral da sociedade, mas a própria Igreja Católica está sendo atualmente contestada e cobrada por causa das diversas denúncias de pedofilia. Como membro da Igreja, como avalia esses desvios?

Se ao longo da história da igreja, tivesse havido um único caso de pedofilia, já seria gravíssimo e inadmissível. Os escândalos de natureza sexual só têm uma explicação: é o mistério da iniqüidade. O mistério do mal. É a manifestação mais sórdida da ação do poder das trevas dentro da igreja. Nos três últimos pontificados, de São João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco, tivemos uma reação extremamente enérgica de tolerância zero. O papel da Igreja é de ser luz e sal da terra para todos os homens. E isso toca particularmente a conduta dos seus ministros, que deve ser, antes de tudo, um exemplo. Quem não é um exemplo e molesta seres humanos indefesos é indigno de ser sacerdote. É um desafio tremendo que temos pela frente. A imensa maioria dos mais de 400 mil sacerdotes é honesta. Os escândalos são uma chaga que temos de conviver, mas, de forma enérgica, temos de enfrentar.

 

 

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