Edição nº2504 08.12 Ver edições anteriores

Não respeito delatores

Nunca digeri o instituto da delação premiada como método de investigação. Não gosto e não respeito delatores. Considero-os seres desprezíveis. Ainda criança, nos bancos da catequese, não ia com a cara de Judas. Nas carteiras escolares, fiquei odiando Joaquim Silvério dos Reis. Depois de quase 35 anos fazendo reportagens nas áreas de polícia e de política (editorias cada vez mais próximas), já não tenho dúvida: delator, X-9, alcagueta, dedo-duro, vacilão, na essência, são tudo a mesma coisa. Farinha do mesmo saco.

No entanto, há, nos delatores de hoje, uma safada sofisticação que pode os diferenciar dos demais, fazendo-os ainda mais nocivos à sociedade.

Os delatores de agora não são singelos informantes. Eles são os criminosos, os corruptos e os corruptores da semana passada. E, nos casos mais recentes registrados no Brasil, pode-se afirmar que serão os corruptos e os corruptores da semana que vem, com ou sem tornozeleira eletrônica. Não se trata de achismo. Basta tomar como exemplo a história do doleiro Alberto Youssef. Em 2003, ele foi flagrado operando no chamado.

Caso Banestado. Ajudou a mandar para fora do País cerca de US$ 30 bilhões, corrompeu e lavou dinheiro sujo para dezenas de políticos. Fez um acordo de delação premiada, entregou 90 doleiros e logo foi posto em liberdade. Claro, não poderia abrir mão do conhecimento adquirido. Continuou sua vida criminal e se tornou um dos maiores operadores da Lava Jato. Foi preso e voltou a fazer delação premiada. Parece brincadeira, mas obteve os benefícios do Ministério Público Federal, homologados pelo Supremo Tribunal Federal.

Tenho convicção de que esses delatores quando meninos, na escola, eram chamados pelos coleguinhas de seres portadores de bumbum avantajado. Com suas práticas nada republicanas ganharam dinheiro e agora tentam falar alto. Há dias, um deles chegou ao cúmulo de dizer que a delação era um direito capaz de lhe assegurar uma possível impunidade. Como respeitar alguém que diz isso!

Na verdade, é como se uma mãe dissesse ao filho: Não roube pirulitos no supermercado, mas se o fizer e for flagrado, entregue todos os seus amiguinhos. Se não entregar ficará de castigo. Não é com ensinamentos como esses que irá se construir um País.

Depois de 35 anos fazendo reportagens de polícia e de política (editorias cada vez mais próximas), posso dizer que delator, alcagueta, X-9, dedo-duro e vacilão são tudo a mesma coisa


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