Edição nº2504 08.12 Ver edições anteriores

Não à indignação seletiva

Ultimamente, qualquer conversa acaba caindo na indignação geral com a corrupção que tomou conta do País e com a impunidade que pune a todos nós brasileiros, enquanto líderes políticos saem ilesos. Considerando a extensão
e a profundidade dos escândalos, seria chocante se isso não acontecesse.

Só vamos construir o País que queremos combatendo a cleptocracia que se apoderou do Estado brasileiro. Isso só acontecerá reformando-se legislações que perpetuam a impunidade e a corrupção, como a indicação política de ministros dos tribunais de contas e do STF e o foro privilegiado de congressistas, presidente e governadores.

O que me surpreende é não encontrarmos a mesma indignação e mobilização popular para eliminarmos outras ilegalidades que também limitam nosso desenvolvimento e o bem estar dos brasileiros, como sonegação de impostos e fraudes. Como exigir punições exemplares de nossos líderes políticos enquanto permanecemos coniventes com outras práticas ilícitas? Felizmente, iniciativas para mudar esee quadro já estão brotando. Bom exemplo é o Movimento Combustível Legal, liderado pelo Sindicom — Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes. Ele combate a sonegação de impostos e as fraudes no setor. Só no ano passado, R$ 4,8 bilhões em tributos deixaram de ser arrecadados. Sonegadores aproveitam
a lentidão e frouxidão da Justiça, que não diferencia devedores contumazes — que adotam o não pagamento de impostos como prática — dos eventuais — que alguma vez atrasaram o pagamento de algum imposto.

Com o valor sonegado daria para bancar o ensino de quase dois milhões de crianças durante um ano. Outras alternativas? Que tal pagar os salários anuais de mais de cem mil policiais ou duplicar 1.100 quilômetros de estradas? Tão maléficas quanto a legislação que permite a impunidade dos políticos, são as leis que favorecem devedores contumazes. O Movimento Combustível Legal combate também as bombas fraudadas e a adulteração de produtos, práticas que lesam os consumidores há tempos.

Aqui, o principal problema é a fiscalização, que fica muito aquém do necessário. A solução? A criação de forças-tarefas permanentes lideradas pelos estados, com o apoio da ANP, Secretarias da Fazenda, Ministério Público, Procon, IPEM e polícia. Precisamos de mais movimentos assim. Vamos apoiar as novas iniciativas que surgirem. Nenhum salvador da pátria vai resolver os problemas do País por nós.

Só nos mesmos podemos fazer isso.

O que me surpreende é não encontrarmos a mesma indignação e mobilização popular para eliminarmos outras ilegalidades que também limitam nosso desenvolvimento


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