‘Não há volta’, diz à AFP viúva do último xá após protestos no Irã

A viúva do último xá do Irã, Farah Pahlavi, considera que “não há volta” após os protestos contra o regime islâmico e diz estar convencida de que os iranianos sairão “vencedores deste confronto desigual”, em entrevista exclusiva à AFP.

Expulsa do país em janeiro de 1979 junto com o marido Mohammad Reza Pahlavi durante a revolução que levou ao poder o aiatolá Khomeini, a mulher de 87 anos afirma que seu “desejo” e sua “necessidade hoje são voltar ao Irã”.

“Mas o que realmente importa não é meu destino pessoal. É que a juventude e todo o povo iraniano sejam finalmente livres e se libertem deste regime criminoso, retrógrado e obscurantista”, declarou em seu apartamento em Paris.

“Recusei inúmeros pedidos da imprensa nas últimas semanas, mas é meu dever dirigir uma mensagem não apenas de apoio aos meus compatriotas, mas ao mundo inteiro, que deve ajudá-los”, afirmou Pahlavi, também conhecida como Farah Diba.

“Mantenham a esperança e a determinação. Vocês sairão vencedores deste confronto desigual com a república islâmica”, disse a ex-imperatriz, dirigindo-se aos jovens de seu país.

Com roupas escuras, ela posou para fotos diante da bandeira do antigo regime imperial iraniano, com um leão e um sol.

Antes, a viúva do último xá aceitou responder por escrito e em francês a uma série de perguntas sobre a situação em seu país natal.

“Há uma coisa clara: já não há volta. Este caminho é de mão única – conduz à liberdade – e, todos os dias, de forma trágica, é regado com o sangue das filhas e dos filhos desta terra. Um sacrifício assim conduz necessariamente a uma vitória”, afirmou na entrevista à AFP.

“E essa vitória não será apenas do meu país, será também a vitória da paz, da segurança e da estabilidade do mundo”, acrescentou.

– Uma vida no exílio –

Rainha aos 21 anos e coroada imperatriz, ou “shahbanu”, aos 29 por seu marido Mohammad Reza Pahlavi, ocupou nas décadas de 1960 e 1970 as capas de revistas internacionais e levou uma vida faustosa.

Seu destino mudou em 16 de janeiro de 1979. Derrubada do trono pela revolução islâmica junto com o marido, que comandou um Estado considerado repressivo e morreu no ano seguinte, vive desde então no exílio, principalmente entre Paris e os Estados Unidos.

Também nos Estados Unidos vive seu filho mais velho, Reza Pahlavi, que afirma estar disposto a liderar uma transição democrática em seu país.

Questionada sobre as ambições dele, Farah Pahlavi respondeu que “seu papel será exatamente aquele que o povo iraniano decidir confiar-lhe (…) Ele se considera apenas o porta-voz dos jovens iranianos até o dia da liberdade”.

A AFP perguntou à ex-imperatriz se ela desejaria uma intervenção externa, por exemplo dos Estados Unidos, para pôr fim ao regime dos aiatolás.

“Apelo à consciência do mundo inteiro para que, em solidariedade com este povo, continue a apoiá-lo. Não é possível que milhares de iranianos percam a vida na indiferença geral. Reforçar suas opções nesta luta profundamente desigual equivale a compreender que, com sua vitória e o advento de um Irã democrático, caminharemos rumo a um Oriente Médio mais pacífico”, respondeu.

A mobilização iniciada em 28 de dezembro com protestos contra o alto custo de vida transformou-se em um desafio aberto à república islâmica instaurada desde 1979.

O poder respondeu com uma ampla campanha de repressão que deixou milhares de mortos, segundo diversas ONGs.

frd/anb/mas-avl/dbh/lm/aa