O médico Pedro Andrade, namorado da cantora Sandy, compartilhou em suas redes sociais que é adepto da “dieta do alho”. Na publicação, ele contou que começou seu “terceiro ciclo anual de alho em jejum” e explicou o que é a prática.
“Eu uso (alho) durante 60 dias, três vezes ao ano. Não de forma consecutiva, pois posso desenvolver sensibilidade ao alimento (como acontece com qualquer alimento consumido com frequência – devemos respeitar a sazonalidade de Deus). É difícil encontrar na literatura científica um alimento com mais propriedades medicinais do que o alho”, escreveu.
Pedro ainda menciona que a planta é rica em alicina, um fitoquímico com propriedades antifúngicas, antibacterianas e antiparasitárias, e em S-Alil-Cisteína (SAC), que teria efeitos “detoxificantes, antioxidantes e anti-inflamatórios”.
“Eu aprendi com um paciente a grelhar o alho por um minuto com azeite. Isso tira um pouco do gosto ardido e torna seu consumo mais tolerável. Já faço o da semana, depois vou tirando um por dia, amasso e consumo de estômago vazio, seguido de 500 ml de água. Se ingerirmos junto com outros alimentos, ele perde parte das propriedades medicinais por competir com outros nutrientes pela absorção”, completa.
Ao site IstoÉ Gente, o Dr. Neto Borghi, nutrólogo da Clínica Soul Nutro e especialista em emagrecimento, afirmou que “não há evidência científica da dieta do alho divulgada pelo namorado de Sandy”.
“Recentemente, a chamada dieta do alho ganhou destaque por suas potenciais propriedades medicinais. Embora o nome possa sugerir uma alimentação baseada exclusivamente nesse ingrediente, na verdade, trata-se de incorporá-lo estrategicamente na dieta devido à sua riqueza em alicina, um composto bioativo que contribui para a produção endógena de glutationa — um poderoso antioxidante natural do organismo”, explica o especialista.
“O alho (Allium sativum) tem sido amplamente reconhecido por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e detoxificantes, muitas das quais são atribuídas à presença de compostos organossulfurados, como a alicina e a S-Alil-Cisteína (SAC). No entanto, quando analisamos o impacto específico do consumo de alho na produção de glutationa endógena, a ciência ainda apresenta limitações importantes.”
O alho e a glutationa
A glutationa é um antioxidante intracelular essencial que atua na neutralização de radicais livres e no processo de detoxificação. Compostos como a SAC podem estimular as enzimas Glutationa-S-Transferases (GSTs), contribuindo para o aumento da produção de glutationa. Contudo, a quantidade necessária de alho para gerar um efeito significativo no aumento da glutationa endógena ainda não foi claramente definida em estudos robustos.
A sugestão popular de consumir um dente de alho por dia, mesmo com práticas como grelhar levemente ou consumir em jejum, carece de respaldo científico suficiente para garantir que esse hábito possa substituir intervenções farmacológicas, como a suplementação com N-Acetil-Cisteína (NAC). A NAC é um precursor direto da glutationa, com eficácia bem estabelecida em condições clínicas como doenças hepáticas, respiratórias e intoxicação por paracetamol.
Comparação com a NAC
- Mecanismo de Ação: A NAC fornece cisteína, um aminoácido essencial para a síntese de glutationa. Já a SAC, presente no alho, age de forma mais indireta ao ativar enzimas como as GSTs, o que pode ser menos eficiente em casos de deficiência severa de glutationa.
- Dose e Biodisponibilidade: Estudos em humanos sugerem que a eficácia do alho na estimulação de glutationa intracelular pode depender de um consumo regular e em quantidades elevadas (por exemplo, extratos padronizados em estudos, e não o simples consumo de 1 dente por dia). Assim, os benefícios são diluídos quando o alho é consumido como alimento em quantidades pequenas.
A literatura atual sobre os efeitos do alho na glutationa ainda é limitada e, em grande parte, derivada de estudos in vitro ou em modelos animais. Poucos estudos clínicos avaliaram a eficácia de doses específicas de alho no aumento de glutationa em humanos.
Evidência Promissora: Estudos preliminares indicam que o alho pode modular o estresse oxidativo e a inflamação, mas esses efeitos são modestos em comparação à suplementação direta com NAC.
Limitações: Não há evidências robustas que suportem a substituição de NAC ou outras estratégias farmacológicas pelo consumo diário de alho em doses alimentares.
Segundo Neto Borghi, embora o alho seja uma adição valiosa à dieta e ofereça benefícios antioxidantes, a crença de que 1 dente de alho por dia seja suficiente para aumentar significativamente a produção de glutationa ao ponto de substituir a NAC é cientificamente infundada até o momento.
“Para efeitos terapêuticos, especialmente em condições que demandam elevação rápida e significativa de glutationa, a NAC continua sendo a escolha mais eficiente e bem documentada. Recomenda-se que o alho seja integrado a uma dieta equilibrada como um coadjuvante de saúde, mas sem expectativas de resultados equivalentes aos de suplementos farmacológicos padronizados”, finaliza.
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