Em 1990, como capitão, concluí o curso da escola de aperfeiçoamento de oficiais (ESAO) e escolhi servir no 11º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Ponta Porã (MS).
Fruto do projeto FT-90, levado a cabo pelo General Leônidas Pires Gonçalves, Ministro do Exército do governo Sarney, a unidade se tornara referência para as tropas de reconhecimento em nosso Exército.
O regimento possuía as novíssimas viaturas blindadas de reconhecimento (Cascavel) e viaturas blindadas de transporte de pessoal (Urutu) produzidas pela Engesa. Era o estado d’arte em equipamento militar.
Em 2003, como tenente-coronel, fui nomeado comandante desse regimento. Lá estavam os mesmos carros que encontrara em 1990. Já haviam passado por uma primeira modernização para mantê-los aptos à missão.
A Engesa, orgulho da indústria militar brasileira, sucumbira aos desafios de operar neste competitivo mercado mundial de material de emprego militar. Estávamos órfãos e sem referência.
As peças de reposição começaram rarear e a manutenção ficou sob encargo dos arsenais de guerra da própria força terrestre.
Em 2019, como general, compareci a uma cerimônia para comemorar o centenário daquela unidade. Os mesmos carros resistiam ao tempo, agora ladeados pelas novas viaturas Guarani, projeto da Iveco, que paulatinamente substituiriam os Urutus.
Para os Cascavéis ainda não tínhamos uma solução.
Esta semana li que o Escritório de Projetos do Exército (EPEx) havia indicado ao Alto-Comando do Exército a carro blindado Centauro 2, produzido pela empresa CIO, como melhor custo-benefício para substituição das VBR.
O contrato prevê a entrega de 98 viaturas, de forma escalonada, e está previsto para ser assinado no próximo dia 05 de dezembro, ao custo de R$ 5 bilhões.
Os principais órgãos de imprensa divulgaram o negócio, dando ênfase ao custo da transação. Cinco bilhões de reais é mesmo muito dinheiro. O número isolado chama ainda mais atenção.
Mas ele equivale a um seguro cujo valor é de R$ 23 por brasileiro, com cobertura por cerca de vinte anos.
Não existe Black Friday para aviões de combate, submarinos, carros de combate, sistemas de guerra eletrônica, lançadores múltiplos de foguetes etc.
O desenvolvimento ou aquisição desses equipamentos exige tempo, planejamento, negociação, orçamento confiável, aceitação de cláusulas restritivas do país concedente, proteção de informações tecnológicas etc., até que o armamento esteja disponível para emprego pela tropa na ponta da linha.
Como informação, o estudo sobre a nova família de blindados de rodas (NFBR) começou em 1997, passou pelas fases de estudos técnicos e doutrinários, pela apresentação do protótipo do Guarani e posterior entrega aos primeiros quartéis contemplados, até a confirmação da escolha do Centauro 2, agora em dezembro de 2022. Não se encerra aqui. É constantemente reavaliado.
Política de defesa não é questão de governo, é de Estado. Como conclamou o Almirante Barroso, na batalha do Riachuelo: o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.
Quanto maior o cuidado dos governantes e sociedade com o adestramento e material das Forças Armadas, com mais empenho e foco no profissionalismo elas atuarão.
Paz e bem!