Não está fácil ser brasileiro


Nunca foi fácil ser brasileiro, mas agora está difícil demais até para os nossos padrões. Enfrentamos uma “tempestade perfeita”, metáfora bonita para descrever algo terrível – aquela nefasta conjunção em que tudo que pode dar errado, dá.

Começa no topo, com o poder executivo. Pelo lado semântico, seria mais correto chamar esse governo de poder “executor”. Há uma fixação pela morte tão evidente que só uma junta de psicólogos – psiquiatras, no caso – poderia explicar de onde vem. Provavelmente do ódio que o presidente sente pelos 70% dos brasileiros que não abaixam a cabeça quando ele grita. A obsessão em armar a população quando já há 250 mil mortos pela pandemia e milhões sem vacina revela uma morbidez dignade serial killer. Há na presidência um sociopata que poderia ter saído de um filme B de Hollywood — infelizmente, o terror que ele inspira é real.

A dificuldade em ser brasileiro passa também pelo Legislativo, que pode ser resumido em um único adjetivo: Arthur Lira. Nosso congresso é “arthurlírico”, o que, nesse caso, remete a qualidades como ser acusado de corrupção e arrastar a mãe de seus filhos pelos cabelos após espancá-la. Em pleno século 21, nossa política é Neanderthal. Essa figura simpática é o líder do bloco parlamentar – facção, para os íntimos – conhecido como “Centrão”. Aristóteles, autor da teoria de que “a virtude está no centro”, deve estar se remoendo em seu túmulo grego.

Planejamos mais o carnaval que a educação. Em vez de pensarmos nos mestres da sala de aula, estamos preocupados com os mestres-sala

Chegamos ao poder Judiciário, cuja atuação muitas vezes nos obriga a pensar duas vezes se a expressão a “Justiça é cega” é um elogio a sua imparcialidade ou à dificuldade em enxergar a realidade. O lema de certos tribunais poderia ter sido escrito pelo poeta italiano Giuseppe di Lampedusa: “algo tem de mudar para que tudo continue como está”. Esse “algo” poderia ser a Lava Jato – operação que teve a audácia de prender poderosos e tirar o protagonismo dos egos togados.

E daí chega a nossa parte: o povo. Se o brasileiro se dedicasse tanto à educação quanto faz com o carnaval, sairíamos do analfabetismo em dois batuques. Em vez de pensarmos nos mestres da sala de aula, porém, estamos preocupados com os mestres-sala. O brasileiro elabora logísticas complexas para viabilizar festas clandestinas que, no fundo, vão contaminar a nós mesmos, mas não tem capacidade de organizar a volta às aulas. Quem sai na chuva é para se molhar, mas quem sai na tempestade perfeita é apenas louco mesmo.


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