Entrevista

Luiz Henrique Mandetta, Ministro da Saúde

Não é necessário que as pessoas entrem em pânico

Pedro Ladeira

Não é necessário que as pessoas entrem em pânico

Germano Oliveira
Edição 28/02/2020 - nº 2616

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, teve um Carnaval agitado. Na terça-feira 25, surgiu a informação de que o primeiro caso de coronavírus havia sido confirmado em São Paulo: um homem de 61 anos, vindo da Itália, era portador do vírus que ataca o sistema respiratório. O caso foi atendido no Hospital Albert Einstein, na segunda-feira. A pessoa infectada esteve na Lombardia, região da Itália atingida pela epidemia. Ela chegou com febre, tosse seca e dor de garganta. O hospital suspeitou tratar-se do coronavírus e o submeteu ao exame, confirmando a doença. Feita a contraprova no Instituto Adolf Lutz, não restou dúvidas de que o vírus havia chegado ao Brasil. O homem está se tratando em casa, onde ficará isolado por 14 dias, mas todas as pessoas com as quais teve contato, as que estavam no voo com ele e membros de sua família, serão monitoradas. As autoridades dizem estar preparadas para que o vírus não se propague. Afinal, em um mundo globalizado, sua chegada era uma questão de tempo. “Não é necessário que as pessoas entrem em pânico”, disse Mandetta à ISTOÉ. “Elas devem informar imediatamente caso tenham sintomas, para que o Brasil possa se proteger”.

Com o primeiro caso de coronavírus confirmado em São Paulo, é preocupante a chegada da doença ao Brasil?
O coronavírus é uma doença nova. Tudo o que é novo cria uma sensação de uma ameaça. Mas não é necessário que as pessoas entrem em pânico. A doença fez com que o mundo inteiro entrasse no estado de emergência sanitária. Até agora, mostra-se uma doença respiratória com uma transmissibilidade maior do que o coronavírus anterior e tem uma letalidade muito mais baixa. Os sistemas de saúde, sim, ficarão muito sobrecarregados caso haja uma epidemia nos moldes do que a gente está vendo na China, onde existe um número grande de pessoas que precisam de hospitalização. O Brasil está na fase de alta vigilância. O sistema está extremamente sensível para perceber o quanto antes a presença do vírus em território nacional. Sabíamos que ele chegaria. Preparamos diferentes cenários para a chegada do vírus, desde um quadro de baixíssima circulação, passando por um quadro com uma circulação de casos isolados, a um cenário de epidemia. Nos três cenários, estamos fazendo as projeções e procurando, logicamente, minimizar o impacto à população.

Além desse caso confirmado em São Paulo, temos outros 20 casos suspeitos de coronavírus, dos quais 12 vindos da Itália. Estamos preparados para enfrentar a doença?
No início, levávamos 4 dias 5 dias para fazer o exame e, hoje, estamos fazendo no intervalo de 6 horas. Devemos chegar a 3 horas para confirmação ou afastamento de caso. O número de casos suspeitos acumulava anteriormente. Agora, estamos fazendo a fila andar de maneira mais rápida. Temos quatro laboratórios nacionais de grande porte. A iniciativa privada começa a fazer os exames também. Estamos em alerta permanente. Aumentaremos a atenção de pessoas vindas dos países que vão demonstrando transmissão sustentável ou que o número de casos justifique. Para encaixar como caso suspeito no Brasil, o paciente deve ter sintomas respiratórios, nariz escorrendo, tosse e febre, além de ter estado em uma região de atenção nos 14 dias antes. Com a ampliação dessa atenção, o número de casos suspeitos irá aumentar. É um enfrentamento amplo, que a gente espera que, com o andar da ciência, com o esclarecimento do comportamento do vírus, dos critérios de tratamento, de testes rápidos e, finalmente, com uma vacina, poderemos superar o capítulo coronavírus.

O senhor defende que o Brasil proíba a entrada no País de pessoas vindas da China ou de outros países infectados, como a Itália?
Não está nas recomendações da Organização Mundial da Saúde proibir, mas recomendar que as pessoas não viajem desnecessariamente a esses lugares. A própria China está tomando esse cuidado em relação a Wuhan, aquela província com maior número de casos. Nós precisamos estar alertas. O mundo vai ter que, num determinado momento, entender como que a circulação dessas pessoas vai se dar, mas, para fins de política de saúde, seguimos o que a OMS e a ciência recomendam Estamos acompanhando as medidas adotadas pelas autoridades chinesas e, até o momento, não tem porque proibir. As pessoas devem informar imediatamente caso tenham sintomas, para que o Brasil possa se proteger.

O senhor acha que os chineses passaram a ser estigmatizados e discriminados por causa de doenças viróticas provocadas pelo consumo de animais peçonhentos, morcegos, cobras?
Na época da gripe espanhola, por exemplo, a Espanha foi apontada como o país originário da doença. Atualmente, sabe-se que já vinha de outros países, quando o mundo reconheceu um vírus extremamente agressivo. Tivemos a gripe suína e a carne de porco praticamente saiu do mercado, causando enormes prejuízos. A China passa aquilo que o Brasil viveu há poucos anos atrás, quando demos o alerta do Zika vírus, que estava causando microcefalia. Também foi reconhecida uma emergência sanitária internacional. Brasileiros também tiveram dificuldades de circulação em outros países. Devemos ter agora solidariedade e reconhecimento de que a China está tomando as medidas que são preconizadas. Não podemos permitir qualquer tipo de xenofobia ou preconceito em razão de saúde.

O Brasil enfrenta também um grave surto de dengue, que já vem do ano passado, quando registramos 1,5 milhão de casos e 782 mortes, um aumento de 488% em relação a 2018. O que está provocando esse aumento espantoso de casos?
As estratégias históricas contra a dengue partem basicamente da população fazer a sua parte e não deixar água parada, recolher pneus e não deixar garrafas de boca para cima, que provocam a proliferação do Aedes aegypti. Em contrapartida, o mosquito se adaptou muito bem ao nosso meio tropical e avançou sobre praticamente todo o território brasileiro. O controle por inseticida, o famoso fumacê, também não mostra eficácia, pois o mosquito desenvolve resistência ao produto. Claramente, precisamos de novas tecnologias para enfrentar a doença. Ao lado disso, dos quatro subtipos do vírus, houve a recirculação do sorotipo 2, que não circulava no Brasil há um bom tempo. É o tipo de dengue que entrou em 2006/2007 e fez a epidemia do Rio de Janeiro. Nosso cenário é um número muito grande de pessoas que não tem imunidade ao sorotipo 2 associado a essa quantidade de mosquitos. A somatória dos dois fatores significa epidemia.Este ano, a situação também continua crítica, já que morreram 14 pessoas, além de outras 62 em análise.

É fato que o descontrole ocorre porque surgiu um novo tipo de vírus para o qual ainda não há vacina?
Os quatro tipos de vírus da dengue são os mesmos. O que ocorre é que, no Brasil, de tempos em tempos, há um vírus predominante. Agora é o sorotipo 2 e muitos não estão imunes a ele. Quando se tem uma situação como essa, tem que redobrar, triplicar, os cuidados de limpeza e evitar a proliferação de focos do mosquito. Some-se a isso uma diminuição das atividades históricas do envolvimento da sociedade e do trabalho de agentes comunitários. Os resultados das ações desenvolvidas estão com um desempenho muito inferior ao esperado para que nós pudéssemos evitar grandes epidemias.

O Brasil já tem vacina para vários vírus da dengue, mas o problema reside no fato da população não se vacinar, certo?
Existe uma vacina de um laboratório de fora, que não se mostrou eficaz e que não foi adotada pelo Brasil. Ela é aplicada em três doses. O problema é que, em algumas situações, pode levar a uma reação forte e, por isso, não foi utilizada nem por outros países. O que temos é uma perspectiva de vacina em desenvolvimento pelo Instituto Butantan. Os testes estão na fase 3, a última etapa antes do registro. Os resultados vêm marcando uma boa imunidade e a aplicação será em dose única para os quatro subtipos do vírus. O Ministério financia a pesquisa, além da parceria com o Laboratório Merck para fazer a construção da fábrica e a venda internacional. Estamos muito otimistas.

Quais os estados estão sendo mais afetados?
A epidemia foi iniciada em 2017 com o sorotipo 2. Em 2018, fez um número muito grande de casos na Baixada Santista e no interior de São Paulo. Depois entrou em Goiás e fez um grande número de casos em Tocantins. Herdamos esses casos em 2019. No ano de 2020, segue o seu deslocamento em direção ao Paraná e ao Paraguai, que já tem um número muito grande de casos, ao Mato Grosso do Sul, ao Acre e também ao Nordeste. Assim, nós temos extrema preocupação com a situação da dengue no Paraná e na região Centro-Oeste, e na região no Nordeste, que tem o seu inverno mais prolongado e chuvas um pouco mais adiante. Esses são os estados onde nós teremos a maior atividade.

Percebemos que as regiões mais atingidas são as mais pobres do País. A disseminação da doença está ligada à falta de saneamento básico e pobreza?
Podemos citar grandes epidemias ao longo do tempo no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Paraná, em Minas Gerais, no Centro-Oeste e no Nordeste. Os únicos estados onde há um menor índice da doença são Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o que tem muito mais a ver com o clima. Eu costumo dizer que é uma doença extremamente democrática, porque pega desde a pessoa mais rica da cidade até a mais pobre. Não faz nenhuma distinção de classe. Na hora que ela prolifera, é lógico que, quanto mais educação em saúde se tem, menor risco de grandes epidemias. Em tese, poderiam ter maior cuidado com os seus quintais, que acumulam água, por exemplo. Nas regiões onde as pessoas costumam guardar água em tonéis, esses reservatórios acabam se tornando focos de mosquitos. As cidades que não organizam bem seus ferros-velhos e sucatas, acabam tendo macrofocos. Enfim, todas as cidades que estão no clima tropical brasileiro acabam sendo mais afetadas pela proliferação do mosquito da dengue.

O governo federal, estados e municípios estão falhando na fiscalização e combate ao Aedes aegypti?
A sociedade está falhando. Na pesquisa que fizemos, mais de 95% da população sabe dizer o que é a doença e cita três ações que deveriam ser tomadas para evitar a dengue. Quando instada a dizer quais dessas ações tomou nos últimos 30 dias, menos de 10% pegou essa informação e transformou em ação, em atitude. Temos a campanha na televisão, rádio, jornais falando sobre dengue. Em 2019, fizemos a primeira campanha ainda no mês de setembro, pois, para prevenir a epidemia, tem que tentar controlar o inseto antes. Na hora da epidemia, devemos atender os doentes para diminuir os óbitos. Já tivemos no Brasil exemplos de grandes epidemias com um número ínfimo de óbitos, porque foi muito bem conduzido o atendimento à população. Agora, não se pode dizer que é uma responsabilidade do Estado. É uma responsabilidade da sociedade. As verbas vão, os recursos são distribuídos, a capacitação é feita, existem os agentes e há a sociedade. Precisamos da ação das imobiliárias, por exemplo. Temos um número enorme de imóveis paralisados para aluguel ou para venda. Imóveis sem moradia que se tornam criadouros rapidamente. É um somatório de fatores que leva à proliferação do mosquito.

No Carnaval, aumentam as doenças transmissíveis. Como evitá-las?
Em relação às doenças sexualmente transmissíveis nós lançamos a campanha deste ano na Rocinha, no Rio de Janeiro, com a participação de jovens de comunidades, onde há um maior índice de gestação indesejada e de gravidez na adolescência. Ainda falamos da prevenção do HIV, das hepatites, da sífilis, da gonorreia e de uma série de doenças sexualmente transmissíveis que podem ser prevenidas com o uso da camisinha. Nesse ano, o Ministério da Saúde faz uma distribuição recorde de preservativos, para que as pessoas tenham acesso. Com essa ação, protege a população e também ajuda o sistema de saúde a enfrentar o grave problema das doenças sexualmente transmissíveis.

A ministra Damares não vai ficar brava se o Ministério da Saúde começar a distribuir camisinhas para os
jovens? O que o senhor acha da abstinência do sexo?
A proposta da ministra Damares faz parte de um conjunto de propostas. Ela é muito bem entendida quando nós olhamos os números. A gravidez na adolescência, no Brasil, ainda é muito elevada. Nosso índice ainda é mais alto do que o da América Latina e muito mais alto do que o mundial. Quando o número é aberto, vemos que, na gravidez abaixo de 15 anos, praticamente não houve redução. Ela vem se mantendo nos últimos vinte anos no mesmo patamar. De 15 a 20 anos, tivemos uma redução expressiva, mas abaixo, pouca redução. Para uma menina de 11, 12, 13 e 14 anos, não há o que falar senão: “Olha o seu tempo, calma, converse com a sua família, evite a gravidez, porque você ainda está em processo de amadurecimento”. Nesse sentido, foi muito bom a gente ter tocado nesse assunto, porque se criou rapidamente um rótulo de abstinência e isso gerou uma certa polêmica, fez com que a sociedade descobrisse o número, esse universo perdido. Em tese, qualquer sexo abaixo de 14 anos é considerado estupro. Assim, não podemos falar para uma menina de 12 anos para que vá a unidade de saúde para colocar um DIU ou para aprender a usar um diafragma. Temos que dizer que não está na hora, que ela se organize melhor. Hoje há uma pressão muito grande na infantilização da atividade sexual.

E os casos de sarampo e febre amarela que estão sendo registrados em algumas regiões do país. O sarampo no Rio matou uma criança depois de 20 anos sem a incidência da doença no País. Por que essas doenças estão voltando?
O sarampo e a febre amarela são doenças para as quais que temos vacina há muitos anos. As gerações passadas foram vacinadas e conquistaram a proteção necessária para suas crianças e para suas famílias. Há uma diminuição mundial da vacinação e, com isso, um número grande de pessoas ficou sem fazer o esquema completo da vacinação contra sarampo, como se essa doença não existisse mais. Agora, estamos fazendo campanhas para alertar as pessoas da necessidade de vacinação. Não temos no Brasil a vacinação compulsória. O que prevalece é a consciência das pessoas. Essa criança do Rio de Janeiro é um caso emblemático. Uma criança de 8 meses. A recomendação de vacinação de crianças aos seis meses já era de domínio público. Tínhamos feito campanhas e a criança não estava vacinada. Esperamos que as pessoas tenham a consciência de que todas as crianças a partir de 6 meses devem tomar a primeira dose do sarampo e refazer o esquema aos 12 e 15 meses. Já a febre amarela é uma doença silvestre e segue um corredor ecológico, de matas, que se estende por todo o território nacional. Acompanhamos a mortalidade de macacos na floresta, uma marcação para sabermos onde o vírus está circulando. A doença atinge o homem quando ele entra na mata ou quando os mosquitos estão muito próximos das cidades, como aconteceu em São Paulo. A vacina tem dose única e sua proteção dura toda a vida.

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