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Entrevista

Tite, técnico da Seleção Brasileira

Não atrelem o futebol à política

Stefano Martini

Não atrelem o futebol à política

Eliane Lobato
Edição 20/04/2018 - nº 2522

Ao vencer a Alemanha pelo placar de um a zero no amistoso do dia 27 de março, em Berlim, a Seleção Brasileira cumpriu seu primeiro grande desafio antes da Copa do Mundo da Rússia: superar o fantasma da goleada histórica sofrida em Belo Horizonte, pelo vergonhoso placar de 7 a 1, que enterrou os sonhos do hexacampeonato em 2014. Antes de vencer os alemães, o Brasil havia triunfado por 3 a 0 sobre a fraca seleção anfitriã, em jogo disputado no estádio que sediará o último jogo do mundial. As duas vitórias consolidam o elenco comandado por Tite entre os favoritos para erguer o caneco em Moscou. Nascido Adenor Leonardo Bachi há 57 anos, em Caxias do Sul (RS), o técnico que devolveu aos brasileiros o orgulho de torcer pela seleção canarinho não pensa só em futebol. Nesta entrevista à ISTOÉ, ele se emocionou ao falar de corrupção e desonestidade. Com olhos marejados, disse que “a desigualdade chega a doer.” E revelou uma conversa com Neymar: “Tu é o astro. O adversário vai usar subterfúgios para te tirar porque ele não quer que tu jogue bola. Seja inteligente. Não faça esse jogo.”

O Brasil é apontado como favorito na Copa. Podemos ganhar?

O Brasil é um dos favoritos e nós temos que ter coragem de assumir isso. Não significa que estou afirmando que vai ganhar. Estou falando do nível alto dos atletas e do futebol que temos apresentado, que nos garante esse favoritismo junto com outras equipes.

Como avalia o caminho da Seleção? O sorteio das chaves nos favoreceu ou prejudicou?

Independentemente do sorteio, nos preocupamos em ter um grande desempenho, nos fortalecer na fase de grupos para chegar cada vez melhor na progressão. Nossa chave não tem nenhum time do pote A – como Espanha e Inglaterra, equipes de altíssimo nível. Mas também não pegamos nenhuma com menor nível técnico. São todas boas, o que não nos permitirá ganhar se jogarmos mal.

O técnico Jorge Sampaoli, da Argentina, afirmou que o Brasil está hoje bem acima da Alemanha. Concorda?

É uma opinião dele. Eu não comungo dessa mesma opinião. Acho que Brasil é um dos favoritos no mesmo nível da Alemanha. Acredito que a Argentina está abaixo. Mas com o Messi em campo e com esse tempo de trabalho do técnico, estará no mesmo nível para a Copa. Pelos atletas que tem, pela qualidade e peso do futebol argentino.

Outros adversários podem surpreender?

França e Espanha são equipes com poderio muito forte. E há outras se aproximando, sem o peso da camiseta e sem o marketing maior, como a Bélgica com Hazard, De Bruyne, Witsel e Courtois, uma geração de muita qualidade.

Talentos individuais podem decidir uma Copa. Quais jogadores são os mais perigosos hoje?

Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo são jogadores diferentes. Hazard também. Coloco esses quatro em um patamar mais perigoso. Griezmann (Antoine, francês) está chegando neste ponto, e David Silva (espanhol) está muito próximo. De Bruyne (belga) também.

A Seleção Brasileira corria o risco de não se classificar antes de o senhor assumir o comando. Chegou a duvidar de que iríamos para a Rússia?

Vocês não imaginam quantas vezes pensei e repensei antes de aceitar o convite. Era desafiador, temeroso, também pela minha inexperiência de ser técnico de seleção, na posição de sexta colocada quando um terço da competição já havia sido disputado. Tudo me fez ter muita dúvida. Mas pesou a paixão pelo esporte, a possibilidade de chegar ao clímax de uma trajetória profissional. Eu também achava, como todos, que havia a possibilidade de o Brasil não se classificar. O fator mais importante foi resgatar o nível de confiança da equipe e dos atletas individualmente, para que eles pudessem ter a mesma produção que têm em seus clubes. Isso foi o principal. Fora a parte emocional, que é de suma importância.

Por que o aspecto emocional é tão decisivo em campo?

Porque futebol se joga com a cabeça, não com os pés. Nosso corpo reflete o que a gente imagina, pensa, cria. Então, o vínculo de confiança e lealdade é fundamental. Eu falo sobre o acerto ou o erro pela frente, e aceito ser contestado. O ambiente é mais leve, tem alegria, prazer. Assim ficamos mais próximos de desenvolver todo o potencial, nos diferentes níveis.

O clichê segundo o qual o “futebol é uma caixinha de surpresas” ainda vale, mesmo com toda a tecnologia e os recursos atuais?

Hoje é uma caixinha de surpresas mas com muito menos incidências do que anos atrás. Não acredito muito em sorte, surpresas. Acredito em esforço, treino, dedicação. O que tem no esporte de enfrentamento é que o adversário pode diminuir as tuas possibilidades, te neutralizar. Por isso, o futebol é intenso e talvez seja uma caixinha de surpresa — mas, hoje não é tanto assim, não.

O senhor pensa em futebol 24 horas por dia? O que faz para minimizar as tensões?

Não. Tem uns 20 minutos de interrupções, esporadicamente (risos). Tenho as minhas orações para ajudar. Sou católico, mas penso que a melhor religião é fazer o bem. Procuro discernimento, paz. É um desafio diário porque sou um cara muito impulsivo. Eu rezo para ter discernimento.

O Brasil é o país que venceu mais Copas, mas perdeu duas jogando em casa. É mais difícil jogar aqui?

Depois de 2014, sim. Revendo hoje, fica claro que a pressão psicológica foi desumana, a expectativa era gigantesca. Isso deve ter gerado um grau absurdo de cobrança e frustração a ponto de alguns problemas terem acontecido em decorrência.

Todos os nossos jogadores já estão definidos?

Na verdade, eu não sei. São 16/17 atletas em nossa equipe base, em função do desempenho que tiveram em seus clubes, cada um melhor que o outro. É deduzível que eles estão dentro. A dor de cabeça que tenho é, por exemplo, escolher lateral esquerda ou zagueiro entre atletas de padrão alto: vou ter que convocar fechando o olho. Vou ganhar tempo e lá na frente decidir.

Existe uma posição que seja mais importante ou estratégica que outras em campo?

Existe, é o meio-campista. Porque da engrenagem dele depende o melhor ataque, que a bola chegue melhor para o Gabriel Jesus ou Neymar, e para que outros não sejam sobrecarregados.

Além do Neymar, que deve voltar a jogar em meados de maio, ainda temos jogadores com problemas médicos?

Nada que ameace a escalação. Estamos monitorando todos, os médicos e os preparadores físicos estão conversando com os clubes para ver os atletas que já foram selecionados, acompanhar o nível físico deles, conversar com as comissões técnicas.

Ainda que esteja em forma para a Copa, a postura irritadiça de Neymar preocupa?

Eu disse a ele: “Neymar, tu é um jogador diferente, tecnicamente. O adversário vai usar subterfúgios para te tirar porque ele não quer que tu jogue bola. Ele quer te irritar, que tu faça falta, que tu reclame. E quando tu fizer isso, ao invés do árbitro dar o cartão para o cara, de a imprensa reclamar porque o árbitro não proibiu, vão falar de ti, que reclamou, reagiu. Sabe por que? Porque tu dá audiência, tu é o astro. Esse é o peso que tu carrega. Tem pessoas que vão te amar e outras que vão te invejar. É humano. Tu tem que compreender isso. Então, seja inteligente. Apenas jogue. Se o cara fizer a falta, sai fora, deixa ele com o árbitro, que terá que assumir a responsabilidade. Deixa o adversário tomar o cartão. Não traz para ti.”

O fato de a CBF estar envolvida em escândalos de corrupção, com um ex-presidente suspenso pela Fifa, atrapalha?

Não, os problemas políticos não nos afetam. Há divisão e autonomia da Seleção em relação à CBF. Nossas questões com a entidade são técnicas e não políticas. Estamos falando em jogadores de excelência, não de uma equipe que vai jogar um campeonatinho ali na esquina. Me foi dado dentro da CBF essa célula com autonomias.

Já vimos, no passado, o futebol ser alinhado com preferências ou ódios políticos. É possível blindar a equipe contra isso?

Isso é real e aproveito para me manifestar de forma muito clara: política é da política e do meio social, deixem o esporte e a seleção fazer o seu papel em paz. Que ela tenha preceitos diferentes dessa política que estamos vendo, que não promove igualdade social, que tem corrupção, desonestidade. Chega a doer ver tanta desigualdade. Será que acham que somos tão estúpidos assim? O cara fala uma coisa mas age diferente. Pratica corrupção, mas o discurso é totalmente diferente. Quem quiser realmente torcer pela Seleção Brasileira, por favor, não ligue uma coisa à outra. Não quero, não gosto, não busquem atrelamentos de futebol com política. Tudo o que eu puder fazer para separar, farei. Ganhando ou perdendo, eu não vou a Brasília na ida e nem na volta da Copa. O meio político tem me dado repulsa. Acredito que novas lideranças vão surgir, não precisa ser novo na idade, mas na conduta. Que tenha uma vida de correção, honesta, de construção da carreira de forma decente. Vamos fazer gol na hora de votar para que encontremos as boas lideranças que a gente tem.

Em uma pesquisa de intenção de voto para presidente da República, o senhor teve a preferência de 15% dos entrevistados. Pensa em entrar para a política?

Não, não e não. Trabalhei muito tempo e paguei muito caro para chegar no estágio de conhecimento e atividade profissional que tenho. Para ser político, também é necessário preparação, conhecimento da engrenagem e das necessidades do povo, uma gama imensa. E por que esses 15%? Porque eu personifico o carinho pela Seleção, que é muito grande. Mas não é o Tite, é o futebol apresentado pela Seleção, resultado do trabalho de uma equipe. Gostaria de pensar: Uau, eu sou “o cara!” Mas não é isso. É representação.

 

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