Edição nº2530 15/06 Ver edições anteriores

Não às vivandeiras

A Parada do Orgulho LGBT, que se realiza todos os anos em São Paulo e é considerada a maior do mundo com público flutuante entre dois e três milhões de pessoas, existe há vinte e dois anos. No domingo passado, sob o frio de quinze graus, a colorida e alegre multidão de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e travestis, todos quase nus, fizeram mais uma vez a sua festa. Como sempre, choveu palavra de ordem contra a discriminação sexual, a violência e a homofobia. Nada mais natural. Houve, no entanto, o surgimento de um novo componente. Trata-se do tom político. Parada gay é sinônimo de alienação? Nunca foi, mas, para aqueles que assim a consideravam, agora tal conceito caiu definitivamente por terra.

Pela primeira vez, no Brasil, a Parada LGBT mostrou-se altamente politizada — e, importante, organizada nas palavras de ordem, demonstrando que muitos de seus participantes e diversas de suas naturais lideranças se sintonizaram antes do evento. Isso é bom para o País, já que é inegável a grande visibilidade que os gays têm atualmente, sobretudo por meio das redes sociais — em coro, defendendo a democracia, são uma voz e tanto. E isso também é bom para eles próprios, uma vez que, ao transformarem as suas reivindicações pontuais numa mais ampla plataforma de direitos civis, conquistam maior força ainda — ganham adeptos que, por exemplo, lutam contra a corrupção no País mas nunca haviam se interessado pelo tema específico da questão do gênero.

A Parada LGBT deixou de ser somente contra o preconceito e a “caretice”. Foi a favor da democracia em todos os setores da sociedade

Nos EUA, país em que a Parada Gay existe há quase quatro décadas, ela já nasceu da luta social. Houve o espancamento de lésbicas, pela polícia, no bar Stonewall, em Nova York. Nesse mesmo bar, também negros costumavam apanhar. Era o ano de 1969. Cerca de dois mil manifestantes foram às ruas e, já então, o direito civil da igualdade racial se juntou aos slogans contra a discriminação sexual. No Brasil, o que agora se viu foi a Parada LGBT manifestar-se, abertamente e a seu modo, contra aqueles que pedem o retorno dos militares ao poder, por meio de um golpe de Estado. “Intervenha aqui” era uma das frases escritas em sutiãs e cuecas, ridicularizando, não os militares, mas, sim, os civis que querem novamente o socorro das casernas (as “vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e causar extravagâncias ao poder militar”, conforme dizia o marechal Humberto Castelo Branco). “Menos Bolsonaro, mais Beyoncé” foi outra das palavras de ordem mais gritadas. Ou seja: a Parada deixou de ser somente contra o preconceito e a “caretice”. Foi a favor da democracia em todos os setores da sociedade.


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