Corpos de centenas de soldados ingleses dizimados pelas tropas francesas em 1627 estariam no fundo dos pântanos da ilha de Ré, ao longo da costa atlântica francesa, e a exumação deles poderia dar pistas preciosas sobre a última batalha da guerra religiosa entre estas duas potências europeias.

A associação “Île de Ré Patrimoine”, apoiada em conclusões científicas, planeja pesquisas a partir de 2025, com vista a escavações nas quais espera encontrar roupas, botas e armas preservadas pelas águas barrentas que forneceriam dados importantes sobre os “condições de vida” e “higiene” dos soldados protestantes.

Segundo pesquisas, o local da batalha de Pont du Feneau estaria próximo a um caminho atualmente apreciado pelos ciclistas e não junto à ponte de mesmo nome nesta pequena ilha de 85 km2 e 17 mil habitantes em frente à cidade de La Rochelle, à época um bastião do protestantismo.

No confronto, em 8 de novembro de 1627, morreram entre 1.000 e 4.000 soldados, a maioria ingleses, segundo a associação, formada por jornalistas, escritores e historiadores.

Os ingleses, sob o comando do duque de Buckingham, tinham a intenção de instalar ali um “posto avançado” da rebelião protestante na França e um “ponto de ancoragem para as rotas marítimas”, explica Benjamin Deruelle, historiador da Universidade de Quebec (Canadá) e membro do conselho científico da associação.

Mas suas tropas sofreram vários reveses e tentaram fugir para seus navios através de um estreito dique de terra construído em poucas semanas. A maioria, entretanto, morreu “perfurada pelas espadas” dos soldados franceses.

– Outra história –

La Rochelle, sitiada pelas tropas de Luís XIII e de seu primeiro-ministro, o cardeal Richelieu, capitulou no ano seguinte.

O episódio “encerra definitivamente as guerras religiosas a nível político e militar” e permite a “amputação” de disposições do Edito de Nantes, que desde 1598 concedia fortalezas aos protestantes, observa o historiador David Van Der Linden.

Do lado inglês, esta “imensa derrota” reforçou “as críticas dos adversários” do rei Charles I e foi “um passo” rumo à revolução que menos de duas décadas depois, sob o comando de Oliver Cromwell, resultou na execução do monarca e abolição temporária da monarquia, argumenta Peter Wilson, especialista da Universidade de Oxford.

– Um sítio arqueológico único –

O verdadeiro “Caminho dos Ingleses”, atualmente coberto de arbustos, foi identificado, segundo a associação, através da comparação de histórias e fontes iconográficas da época, incluindo uma majestosa pintura de Laurent de la Hyre, na reserva do Museu do Exército, em Paris, que mostra alguns edifícios ainda de pé.

Foi uma descoberta “espetacular”, porque “não há outro lugar na Europa que permaneça intacto quatro séculos depois das guerras religiosas”, afirma um dos fundadores da associação, o jornalista argentino Indalecio Alvarez, que vive na ilha.

Os sítios arqueológicos militares da era moderna “podem ser contados nos dedos de uma mão” na Europa, segundo Deruelle, que cita os corpos das vítimas da retirada das tropas napoleônicas da Rússia (1812), exumados em Vilnius em 2002 , ou o navio de guerra sueco “Vasa” (1628), que naufragou na sua viagem inaugural e no qual foi instalado um museu em Estocolmo.

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