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Na Sapucaí, uma nova polêmica sobre Jesus

Depois de levar à Marquês de Sapucaí, no ano passado, “o Brasil que não está no retrato”, a Mangueira prepara para 2020 um enredo que conta a história do Jesus que não está no retrato. A definição é dada pelo próprio carnavalesco da escola, Leandro Vieira, de 35 anos. Com referência crítica ao presidente Jair Bolsonaro, o samba com o qual a Verde-e-Rosa vai buscar o segundo título consecutivo já tem incomodado setores religiosos, que acusam a escola de blasfêmia.

No braço esquerdo de Leandro, uma tatuagem indica valores religiosos. Amarradas a uma âncora, as palavras “família” e “Deus” marcam a pele. Mas, de acordo com Vieira, a ideia é levar à avenida um Jesus não ligado à religião. Um Jesus humano, com a cara do oprimido do Brasil. “Mais recentemente, em nome de um avanço conservador e da representatividade política de determinados setores políticos da sociedade brasileira, Jesus tem se tornado uma espécie de fiador de uma política que incita o ódio”, diz.

Para ele, o enredo deste ano é praticamente uma extensão do que levou ao título de 2019, que dava a setores sociais excluídos a oportunidade de contar a História brasileira sob sua própria ótica. Um Jesus de mãe humilde e pai desempregado, que desce e sobe as ladeiras da favela: este é o Jesus da Mangueira.

A letra do samba, composta pelo mesmo grupo que homenageou no último carnaval Marielle Franco, vereadora assassinado em 2018 no Rio, pinta um Jesus com “rosto negro, sangue índio e corpo de mulher”. Ressalta seu lado humano, sofrido, que pensa naqueles que mais precisam de amparo.

Os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo sintetizam a mensagem do enredo no momento em que citam indiretamente o presidente Jair Bolsonaro: “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão”.

A letra destaca que a reação contrária era esperada. “Mangueira, vão te inventar mil pecados”, avisa o trecho que inspirou uma faixa pendurada na entrada do barracão da escola. “Mas estou do seu lado / E do lado do samba também”.

Em primeira pessoa, o Jesus mangueirense questiona se o povo entendeu seu recado. “Porque, de novo, cravejaram o meu corpo.” Quem cravejou, continua, foram os “profetas da intolerância” – que não sabiam que “a esperança brilha mais que a escuridão”, diz a canção da escola.

Outro político que tira o sono de carnavalescos é o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Em 2018, a gestão Crivella acusou a Mangueira de “intolerância religiosa”, após o prefeito ter sido representado na Sapucaí como Judas, traidor do carnaval, por ter cortado verba das agremiações.

A festa da Sapucaí passou para o governo do Estado depois de três anos seguidos de atritos com o prefeito.

Críticas

A reação ao enredo da Mangueira já começou. O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, associação católica paulista, lançou um abaixo-assinado que já tem cerca de 106 mil adeptos. A ideia é dizer “não” ao carnaval da escola – que, de acordo com o instituto, comete blasfêmia.

Vieira não teme nenhuma espécie de censura oficial, como já ocorreu em um caso emblemático do carnaval do Rio. Em 1989, a Beija-Flor teve seu “Cristo mendigo” proibido pela Justiça a pedido da Igreja Católica. Depois, o carnavalesco Joãozinho Trinta e o diretor da escola, Laíla, tiveram a ideia de cobri-lo com um enorme saco plástico preto. Na frente, uma faixa dava o recado: “Mesmo proibido, olhai por nós.”

No dia 23 de janeiro, a Arquidiocese do Rio enviou uma carta a Jorge Castanheira, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), na qual manifesta “preocupação” com a abordagem que será feita pelas escolas na avenida. O setor jurídico da Igreja nega censura; pede um “momento de reflexão” para que ofensas ao sentimento religioso sejam evitadas.

Índios para provocar Bolsonaro

Ao se inspirar no livro O Rio Antes do Rio, de Rafael Freitas da Silva, para contar a história dos primeiros habitantes da Guanabara, a Portela manda um recado ao presidente Jair Bolsonaro. O enredo Guajupiá, Terra Sem Males cita os índios que viviam no Rio antes da chegada dos colonizadores europeus.

“Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão”, diz o trecho do samba. O uso da palavra bispo parece uma alusão ao prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), ligado à Igreja Universal.

Os indígenas são tema recorrente no discurso do presidente. Na semana passada, ele declarou que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.

A fala é apenas um dos episódios em que o presidente foi alvo de críticas por seus pensamentos sobre índios. Contrário a novas demarcações de terras para esses povos, Bolsonaro defende abrir essas áreas à exploração mineral ou ao agronegócio. Ele também critica com frequência o cacique Raoni, líder que atua em defesa da Amazônia. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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