Comportamento

Na Rocinha, um futuro campeão

Tenista revelado na escola de tênis da comunidade recebe convite para conhecer a academia de Nick Bolletiteri, que formou Andre Agassi e Boris Becker

Na terça-feira 10, às 6 h da manhã, Valter Albuquerque, de 11 anos, começava a viagem de ônibus que o levaria da Rocinha, a maior favela do Brasil, em São Conrado, ao colégio Pedro II, no Humaitá – ambos na zona sul carioca, embora distantes. Ele ficou assustado quando viu tanques de guerra e soldados armados no caminho da favela. Não sabia que quando retornasse, de tarde, a situação estaria muito pior, com tiroteios intensos. “Eu não pude mais subir para minha casa, que fica lá no alto da comunidade. ‘Tava’ muito tenso. Fiquei na casa da minha tia, que é na parte baixa”, diz Valtinho, como é chamado. A rotina de violência na comunidade, porém, não o impede de se destacar em um esporte quase sempre associado à elite: o tênis. O talento de Valtinho no saibro fez com fosse selecionado para conhecer, nos Estados Unidos, a IMG Academy e seu famoso coordenador, Nick Bollettieri, que já formou estrelas do esporte como André Agassi, Serena Williams e Boris Becker.

Depois de realizar a “viagem dos sonhos”, Valtinho retomou a realidade infernal que assombra a Rocinha: o enfrentamento, via troca de tiros, entre facções de traficantes rivais e com os soldados do Exército que voltaram a ocupar a favela na semana passada. Como uma criança pode se concentrar em treinos diante de uma situação tão adversa e cruel? “O medo, às vezes, atrapalha um pouco. Mas meu pai sempre me diz para não pensar no pior, que é para imaginar que estou em um lugar, normal, tranquilo, calmo. Eu tento, mas a cabeça nem sempre obedece”, diz. O jeito de falar e a postura disfarçam a pouca idade: ele é “um menino adulto”, como reconhece seu professor de tênis Victor Hugo Ferreira da Silva.

“O Valter me diz: ‘papai, vou ser o número 1 do mundo.’
Eu falo: ‘meu filho, é isso mesmo.’
Não posso tirar o direito de ele sonhar”“
O Valter me diz: ‘papai, vou ser o número 1 do mundo.’
Eu falo: ‘meu filho, é isso mesmo.’
Não posso tirar o direito de ele sonhar”
Valdir Inácio de Albuquerque, garçom e pai de Valtinho

PARA EMAGRECER

Ex-gordinho, ele começou a praticar tênis aos 5 anos para tentar emagrecer. Em 2012 se apaixonou pelo esporte, depois que o tenista brasileiro Gustavo Kuerten e o sérvio Novak Djokovic construíram uma quadra na Rocinha e bancaram as aulas por um ano. Em 2015 a quadra foi reinaugurada pelo governo estadual com o nome de Escolinha de Tênis Fabiano de Paula, em homenagem ao tenista nascido e criado na favela. Fabiano e Victor Hugo têm histórias parecida: quando crianças, os dois trabalharam como boleiros em quadras de luxo. Valtinho, segundo o mestre, encara o esporte “com dedicação, disciplina e talento”. Há outro fator importante para seu sucesso, segundo o treinador: “Ele conta com ótima estrutura familiar. O pai o acompanha e estimula. Isso é totalmente diferente da realidade de outros alunos da favela.”

O pai de Valtinho é o garçom Valdir Inácio de Albuquerque, casado há 20 anos com a cozinheira Francisca. O casal, que também tem a filha Giulia, de 7 anos, nasceu no Ceará e mora na Rocinha há quase três décadas. Toda a família gosta muito da favela. No quarto do há uma cama, TV, ventilador e guarda-roupa. “Há um cantinho só para guardar as minhas seis ou sete raquetes: a maioria, doada”, diz o garoto. “Raquete é cara. Mas meu pai vê que sou esforçado e sempre me dá alguma que caiba no bolso dele”, complementa. “Meu filho é uma prova de que, se o Estado investe na favela, dá certo. A gente consegue treinar, participar de torneios. Mas não é fácil, há muita carência na escola Fabiano e falta apoio para os pequenos atletas se desenvolverem” conta Albuquerque. “O Valter me diz: ‘papai, vou ser o número 1 do mundo.’ Eu falo, ‘meu filho, é isso mesmo.’ Não posso tirar o direito de ele sonhar”, diz o garçom que, no entanto, insiste para o filho fazer um curso universitário, mais tarde. O que nenhum Albuquerque quer é sair da Rocinha. “Nossa vida é lá, um lugar cheio de gente honesta e trabalhadora.” E Valtinho completa: “Conheci um pedacinho dos Estados Unidos e fiquei encantado. Você pode andar nas ruas e se sentir seguro. Posso ser capaz de repetir ídolos do tênis. Tenho confiança em mim. E posso conhecer o mundo. Mas nunca vou esquecer a Rocinha, que gosto muito.” Na comunidade, o grande desafio é manter a Escolinha funcionando, já que os salários dos professores estão muito atrasados. “Continuamos por amor. Mas não sabemos até quando vamos aguentar”, diz Victor Hugo.

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