Entrevista

Monja Coen Sacerdotisa budista e escritora

Na meditação aprendi a me ouvir de verdade

GABRIEL REIS

Na meditação aprendi a me ouvir de verdade

Bárbara Fava
Edição 17/01/2020 - nº 2610

Pouca gente conhece Cláudia Dias Batista de Souza, uma paulistana de 72 anos. Mas a Monja Coen, nome que assumiu no budismo, é uma figura midiática. Presente na tevê e autora de uma série de livros sobre meditação e autoconhecimento, ela fez revelações sofridas à IstoÉ sobre os assédios sexuais e o brutal estupro que sofreu enquanto estudava em mosteiro zen-budista, no Japão, nos anos 1980. E, pior, o agressor era o homem com quem viria a se casar logo depois, em um momento de extrema solidão e fragilidade. Parte dessa história a monja relata em seu livro mais recente, “O que aprendi com o silêncio” (Academia, 226 páginas). Ainda que seja adepta do perdão, engana-se quem supõe que hoje ela ache que tais crimes devam ficar impunes. As mulheres são vítimas do que classifica de “carma coletivo” e precisam deixar de se sentirem culpadas: “Certas coisas não devem ser silenciadas”.

A senhora foi corajosa ao revelar que se casou com o homem que a estuprou em um mosteiro. Como foi lidar com essa violência?

Quando eu era pequenininha, meu tio me assediava. Uma vez eu estava no clube e um homem mostrou seu órgão sexual para mim. Outra vez, estava no ônibus e um cara ficou tentando me tocar. Também houve uma tentativa de abuso em um mosteiro [no Japão]. Imaginei que seu eu casasse, estaria protegida. Ficava pensando nas razões disso acontecer. Será que era a lei do carma? Dizem que a mulher provoca, mas eu não provoquei ninguém.

Além desse seu caso de assédio, houve outros?

Uma monja que foi minha colega insistiu em treinar em um mosteiro masculino [também no Japão], onde a prática e as liturgias eram mais intensas. Ela foi para lá e um professor tentou abusar dela. Ela colocou a boca no mundo, por isso pediram que saísse.

A senhora chegou a denunciar o agressor?

Eu não saí do silêncio. No dia que fui falar com meu professor, ele não podia me atender. Estava na época de sair do mosteiro. Eu não sabia o que fazer. Foi aí que pensei: “Bom, tem o moço que quer casar comigo. Vou casar, pois assim terei proteção”. E eu tive. Só que logo depois também fui abusada sexualmente por ele dentro do mosteiro.

O que passou por sua cabeça?

Eu só pensava que tudo estava se repetindo e como eu iria lidar com a situação. Como eu me protegeria? Se eu falasse, diriam que provoquei. Tanto que depois o avô dele ligou perguntando o que eu havia feito com o rapaz. Afinal, se a mulher é mais velha, ela seduziu. Foi um escândalo.

Não lhe causou raiva casar com quem a violou?

Não fiquei com raiva. Eu estava triste e sozinha. Tinha 40 anos e ele, aos 23 anos, possuía a idade da minha filha. Antes, quando ele se declarou para mim, já éramos amigos, não tinha cara de quem iria me atacar. Aí, quando ele forçou [a relação sexual], pensei: “O que vou fazer?”. Achava que não podia acordar todo mundo.

O budismo prega o silêncio. Quando isso deixaria de ser uma solução?

Certas coisas não devem ser silenciadas. Hoje, nas minhas palestras, falo sobre suicídio e feminicídio. São assuntos a serem discutidos. Se alguém está há cinco dias sem sair de casa ou começando a se cortar, é preciso ajudar. Em briga de casal tem que se meter se há gritos e agressões. Tem que bater na porta e chamar a polícia. Não podemos calar.

A senhora crê que a violência contra as mulheres é cármica?

As mulheres são vítimas de um carma coletivo. Os homens se acham no direito de agredir e de explorar sexualmente. Se uma mulher casada não está com vontade de ter uma relação, não pode ser obrigada. Está errado. Como é uma cerimônia de casamento? É um patriarcalismo perpetuado. O que significa um pai levar uma filha para o altar? É um homem dar uma mulher como se fosse um objeto, passando a responsabilidade para outro homem. É algo que está errado. O que gosto no casamento japonês é que os noivos entram juntos. Eu falo para as mulheres que na primeira vez que o namorado ou ficante for em casa, elas precisam perguntar se ele quer um copo d’água. Se ele disser sim, devem mostrar onde pegar e ainda pedir um copo para si. Senão, vão servi-lo pelo resto da vida.

E como foi viver com quem a agrediu?

Criamos afeto e o casamento durou quase dez anos. Nos separamos com muito respeito. Ele acabou encontrando uma jovem, voltou para o Japão e teve uma filhinha. Com 40 e poucos anos, sofreu um infarto e morreu. Ele foi importante, pois me trouxe de volta ao Brasil, caso contrário eu teria ficado no Japão, em um templo perto do Monte Fuji, que é frequentado por estrangeiros.

E a volta ao Brasil?

Quando cheguei ao templo da Liberdade [bairro de São Paulo], havia três mulheres que tinham feito votos e tocavam instrumentos nas cerimônias. Nenhuma usava o hábito e eu nem sabia que elas eram monjas. Cheguei e fui assumindo, já que os monges de lá não tinham feito os cursos que fiz. Só que eles queriam que eu servisse, afinal, para eles as monjas estavam lá para aquilo. A mulher de um deles me disse que ali não era templo para mulher. Só que o monge anterior tinha pedido que eu assumisse interinamente a Federação das Seitas Budistas do Brasil e do templo da Soto Zen. Assim, fui a primeira mulher e não japonesa a assumir a presidência dessa ordem.

O budismo mudou desde que a senhora começou?

Bastante. O budismo veio da Índia, uma sociedade de castas, com grandes discriminações. Na época em que Buda viveu, há 2.600 anos, a sociedade era completamente dividida. Os textos escritos pelos seus discípulos diziam: “Então Buda estava em um local maravilhoso, cercado de todos os seres humanos e não humanos”. Na primeira vez que li, pensei em bichinhos. Depois me dei conta que eram as pessoas discriminadas, os intocáveis da Índia. Mais tarde, quando o budismo chegou ao Japão, aconteceu a mesma coisa. Houve uma grande revisão disso tudo há uns 30 anos. É impossível apagar o que está escrito, mas hoje podemos por uma nota explicando. Mesmo assim, ainda há problemas. No grupo de formação de professores da qual fiz parte, havia um monge que precisou trabalhar em um matadouro. Quando falavam que as pessoas que trabalhavam nesses lugares fediam e que eram seres inferiores, ele ficava muito bravo. Ocorreram movimentos contra esse tipo de visão de mundo.

O universo é muito fragmentado na cosmologia budista. Como modernizar uma visão tão tradicionalista?

Os grandes estudos e hábitos foram modificados. Falamos que há seis mundos, mas que estão interconectados. Um é dos seres celestiais, onde nada falta e tudo é maravilhoso. A seguir vem o mundo dos asuras [algo como os “antideuses”, em sânscrito], que são seres invejosos, briguentos e que estão sempre reclamando. A seguir, o dos humanos, seguido pelo dos animais, onde só o instinto atua. Além disso, há o mundo dos espíritos famintos. Não são realidades isoladas. Rodamos por esses lugares de uma hora para outra em nossas vidas. Em um momento estamos tranquilos, mas daí alguém fala alguma coisa que nos deixa aflitos ou bravos e, pronto, viramos puro instinto. Há vezes que nada nos satisfaz, pois estamos emocionalmente instáveis e insatisfeitos. Assim é o mundo dos espíritos insaciáveis. Hoje entendemos que podemos transitar por todos esses lugares.

Mas não existem muitas mulheres sacerdotes.

Acho que somos só 10%. No Japão, fiz um curso para monjas e monges que vão ser abades e professores em mosteiros. Éramos umas trinta pessoas. Só duas mulheres, uma americana e eu. A minha superiora, por exemplo, fez doutorado em estudos budistas na Universidade de Komasawa [em Tóquio]. Poucas mulheres chegam no nível que ela atingiu. A maioria das monjas não é estimulada a estudar e, quando casam, deixam o hábito. Mas as coisas estão mudando. Antes, monjas não ocupavam postos elevado. Onde fiz minha formação, por sorte havia um monge responsável que passou todo o poder para a nossa superiora.

E se Buda fosse mulher?

Vamos imaginar que ele fosse uma menina que teve um bebê, mas está se questionando sobre qual é o sentido da vida. Ela sai do castelo, deixa o bebezinho lá, bem cuidado, e vai fazer em busca de seu momento iluminado. Quais seriam as tentações dessa Buda mulher? Homens bonitos, inteligentes, sedutores, de barriga tanquinho e sexualmente agradáveis? Só que ela resistira, pois seu objetivo era maior do que prazeres momentâneos. Seria a história ao contrário. Propuseram ao Dalai Lama imaginar que todas as principais imagens do budismo fossem femininas e que os homens não tivessem acesso à educação, tendo apenas que servir, limpar e fazer chá. Ele começou a chorar e disse que iria fazer o que pudesse pela equidade entre homens e mulheres.

O que as pessoas querem saber sobre uma monja?

Sempre perguntam o que eu fazia antes. Achei que precisava contar algumas histórias, mesclando com os ensinamentos de meditação. Não se trata de nada linear. São momentos que vieram à superfície. Se fosse para contar tudo, teria que escrever mais dois ou três livros.

O que a meditação ensina?

Eu aprendi a me ouvir de verdade. Quando a gente silencia, escuta melhor tanto interna quanto externamente. O zen nos torna conectados com a vida e nos faz ver com mais clareza.

Como alguém que nunca meditou pode começar?

A minha escola é zen-budista. Zen quer dizer meditar. O básico que a gente faz é sentar, alongar a coluna, ver se as orelhas estão em linha com os ombros, o nariz com o umbigo. Daí é colocar as mãos na posição mudra cósmico, com a direita embaixo e os polegares se tocando de leve, formando uma elipse. A seguir, buscamos conexão. A respiração fica mais abdominal, profunda e sutil, como a de um bebê. Isso melhora nosso estado de consciência. Só que a prática não é exatamente para ficarmos calmos. O silêncio faz sair uma porção de coisas da mente. Os meus monstrinhos escondidos atrás do armário aparecem. Tem gente que não gosta e até sente medo. Esses são os que querem relaxamento. Relaxamento é uma coisa, meditação é outra.

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