Comportamento

Na maior favela de palafitas do Brasil, a covid é mais uma mazela

Na maior favela de palafitas do Brasil, a covid é mais uma mazela

Morador caminha por palafitas na favela Dique da Vila Gilda, em Santos, São Paulo, em 10 de junho de 2021 - AFP


Enquanto a pandemia deixa o Brasil enlutado, no Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do país, a covid é apenas uma das mazelas que seus milhares de moradores enfrentam diariamente.

Em Santos, cidade costeira do estado de São Paulo que abriga o maior porto da América Latina e registra um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, o Dique da Vila Gilda é mais um retrato da desigualdade social do país.

Erguida sobre estacas encravadas no manguezal do rio dos Bugres, é o lar de mais de 26.000 pessoas.

Trata-se de um labirinto de corredores estreitos emendados com tábuas e papelão. É preciso caminhar com cuidado e torcer para que nenhuma tábua se quebre na passagem. Alguns trechos tremem e as madeiras rangem.

“Aqui se tu cai, tu vai ficar”, alerta Deise Nascimento dos Santos, que levou 23 pontos na panturrilha ao sofrer uma queda quando saía de casa.

O chão de sua pequena palafita tem buracos que ela cobre com um tapete. Ela vive de doações e dos 91 reais mensais que recebe do Bolsa Família. Com problemas de locomoção, depende dos vizinhos para sair.

“Aqui tem rato, barata, dengue, chikungunya. A gente convive com tudo aqui”, lamenta sua vizinha, Eliette Alves, que mora com o filho em uma palafita maior e pela qual paga 500 reais de aluguel, o que consome quase 70% da sua aposentadoria.

Embora a casa seja mais espaçosa, a umidade começa a fazer estragos na madeira e Eliette reforça com tábuas soltas o chão do quarto, onde apareceu o primeiro buraco por onde pode-se ver o rio.

Para ela, o mais difícil de morar na comunidade é o medo de morrer queimada enquanto dorme. Não é um medo infundado. Em abril do ano passado, um incêndio arrasou várias casas a poucos metros da dela.

“Foi horrível. Quando começou o fogo tinha o barulho da madeira estourando. Eu só tive que pedir para Deus que o fogo não alcançasse a gente”, diz, apontando para uma fileira de estacas carbonizadas.

– “Não é o suficiente” –

Ao caminhar pelas vielas da comunidade, o mau cheiro se acentua. Cães e alguns gatos perambulam. Embaixo, entre as estacas, o lixo se acumula. Em um dia nublado, de maré baixa, a vista é desoladora, quase uma cena distópica.

“Isso aqui não é o suficiente. O suficiente é ter comida no prato, trabalho, educação, habitação digna”, afirma Luciléia Siqueira de Santos, de 39 anos.

Ela chama o presidente Jair Bolsonaro de “genocida” e o acusa de omissões em questões sanitária, social e econômica.

“Todos falam da covid, mas aqui temos muitos outros problemas também”, afirma.

Para ela, a pandemia piorou uma situação que já era crítica. Muito pouca gente usa máscaras. Muitos moradores perderam o emprego e a necessidade econômica e a falta de espaço fazem do isolamento uma quimera.

Juliana da Silva Barbosa, de 35 anos, divide uma palafita de dois quartos estreitos com os seis filhos.

Ela perdeu o emprego durante a pandemia e também se ressente da discriminação social: “somos malvistos”.

Mãe solteira, depende de doações para sobreviver.

Além dos problemas sanitários e socioeconômicos, a falta de internet, escolas e espaços esportivos impede a educação e o lazer das crianças da comunidade.

“Os políticos só vêm aqui quando precisam. Isso é uma bomba para nós”, diz Juliana, mostrando sua precária palafita.

Três dos seus filhos dividem uma cama em um quarto de menos de dois metros de largura e outros dois dormem no segundo quarto. A caçula olha ilustrações em uma minúscula tela no espaço que serve de sala.

Juliana não teve covid, mas chikungunya sim. “Aqui vem ambulância só para pegar os mortos”, lamenta.

A unidade médica mais próxima fica a dez minutos de carro e a estreiteza e precariedade dos corredores da comunidade dificulta o acesso.

“A assistente social que vinha aqui morreu de covid”, conta Julio Silva, de 39 anos, que também perdeu o emprego durante a pandemia.

Alguns aproveitam a maré baixa para pescar o almoço. Giovani Ferreira, de 36 anos, várias vezes recolhe a rede vazia, mas não desiste. Ele já conseguiu pegar uma tilápia e uma tainha. Antes de voltar a lançar a rede, sorri e diz: “a maré sempre traz alguma coisa”.

Luciléia de Santos é menos otimista: “Aqui ficamos à mercê de Deus”.

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