Economia

Na Bahia, água de coco com ‘DNA’ holandês


A casa-sede da Fazenda Bú, nos arredores de Conde, no litoral norte da Bahia, fez parte do ciclo da cana-de-açúcar, no início do século passado. Localizada às margens do rio Bú, a residência em estilo colonial teria recebido, por uma noite, nos anos 1930, o presidente Getúlio Vargas, antes de entrar em um longo período de decadência.

Hoje, completamente restaurada, abriga a sede do Grupo Aurantiaca, dono da marca Obrigado, negócio que produz água de coco e que recebeu, nos últimos cinco anos, R$ 580 milhões em investimentos em terras, desenvolvimento agrícola e de produção.

Após esse período de contínuo investimento, o negócio se prepara para dar grandes saltos. Com faturamento de R$ 80 milhões previsto para 2016, o grupo deverá, pela primeira vez, conseguir fechar um ano sem prejuízo. Nos últimos meses, a companhia deu os primeiros passos no mercado internacional, iniciando as exportações para a União Europeia. Daqui em diante, a ordem é pôr o pé no acelerador: o objetivo para 2017 é pelo menos dobrar a receita.

Embora desenvolvido em solo baiano, o projeto da Obrigado tem DNA europeu. O investimento veio de dois holandeses, um baseado no Brasil (Piet Henk Dörr) e outro nos Estados Unidos (Willem Kooyker). Inicialmente, a ideia era comprar terras para desenvolver empreendimentos voltados ao turismo. Como a atividade não teve o crescimento que prometia pelos idos de 2009 e 2010, começou-se a pensar em uma alternativa.

Para arranjar uma função para as propriedades, o grupo Aurantiaca resolveu apostar no coco, um produto natural da região. Desde o início, segundo Dörr, a intenção foi criar um produto diferenciado, capaz de competir não apenas no mercado brasileiro, mas em todo o mundo.

“As práticas usadas na produção de coco na região eram de 100, 200 anos atrás. Sabíamos que era preciso muito mais”, diz Dörr, que vive na Bahia desde os anos 1970.

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Antes que o projeto pudesse sair do papel, muito teve de ser feito. Parte das fazendas adquiridas abrigava uma antiga comunidade quilombola – o que exigiu o cadastramento das famílias e a construção de uma escola nas proximidades. Para garantir que o produto fosse próximo do natural, foi preciso também criar um sistema agrícola e industrial do zero.

“Desenvolvemos nossos próprios equipamentos. Foi um processo que durou dois anos”, explica Adriano Meyer, diretor de pessoas e governança da Obrigado.

A matéria-prima que sai das fazendas do grupo chega à fábrica, que fica a 15 minutos dos coqueirais, na caçamba de caminhões. Lá, um equipamento ergue os veículos, e os cocos caem diretamente em uma solução de água e desinfetante. Um elevador retira os frutos, que passam por um chuveiro de água pura.

No maquinário, os cocos são automaticamente furados e a água escorre diretamente por tubos, que levam a tanques e, posteriormente, ao envasamento. A fábrica atual, de acordo com Dörr, pode acomodar o crescimento acelerado previsto para os próximos dois anos. Depois, precisará ser ampliada.

Disputa

A agressividade comercial que a Obrigado começa agora a demonstrar está baseada na crença do diferencial do produto sem aditivos ou açúcar e também no crescimento do setor como um todo. Segundo a Euromonitor, mesmo com a economia caindo 4% em 2015, o mercado de água de coco cresceu 12,8% no ano passado. A competição, no entanto, é agressiva.

A gigante Pepsico domina mais da metade do mercado brasileiro, enquanto há também entrantes relativamente recentes com poder de fogo, como a Do Bem, que foi comprada pela poderosa Ambev, em abril.

Para se diferenciar, a arma da Obrigado é se mostrar ao cliente da forma mais transparente possível. A campanha de marketing da companhia, desenvolvida pela agência baiana Morya, propõe algo novo: desafia o leitor a ler o rótulo e a comparar itens como sódio e açúcar na formulação das bebidas.

Segundo Jaime Troiano, presidente da Troiano Branding, que realizou alguns testes com consumidores para a Obrigado, a questão número um para o negócio se sustentar será a consistência de execução. “O consumidor vai olhar, conferir. Ele não acredita em promessas vãs”, afirma. “O cliente de hoje dá muita importância ao compromisso social e ambiental das empresas.”

Enquanto ganha mercado em água de coco – a empresa diz ter 5% em São Paulo e 10% no carioca, segundo dados da Nielsen -, a Obrigado também olha para outras formas de aproveitar sua matéria-prima. Entre os projetos em andamento estão a ampliação da produção de mais itens feitos a partir da fibra do coco e também o início da construção de um projeto de geração de energia a partir de restos dos frutos. “A ideia é sermos autossuficientes em energia e eliminarmos os resíduos da produção”, explica Meyer.

A companhia também tem planos para a casa colonial, em que Getúlio Vargas pode ter pernoitado. Nos próximos anos, a área administrativa deve deixar o edifício histórico da Fazenda Bú. A meta do holandês-baiano Dörr é transformar o local em ponto turístico: um museu completamente dedicado ao coco. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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