O empresário Elon Musk, proprietário da SpaceX, teria determinado a redução da velocidade de um serviço de comunicação por satélite utilizado pelas Forças Armadas da Ucrânia, segundo informações divulgadas pelo jornal americano The Wall Street Journal nesta terça-feira (20). A decisão teria afetado operações militares realizadas com drones e ampliado as tensões entre Kiev e Washington em meio à guerra contra a Rússia.
A restrição teria sido aplicada na semana passada a uma versão do sistema de comunicação da SpaceX destinada a aplicações militares. A tecnologia é considerada estratégica para a Ucrânia, que depende de conexões por satélite para coordenar tropas, transmitir informações e executar missões em áreas de combate.
A reportagem cita autoridades americanas e pessoas familiarizadas com o assunto. A responsabilidade pela medida, entretanto, tornou-se alvo de versões contraditórias entre representantes do governo dos Estados Unidos, Musk e autoridades ucranianas.
Restrição prejudicou operações com drones
A Ucrânia utiliza terminais de comunicação por satélite da SpaceX em diferentes atividades militares, incluindo a coordenação de unidades no campo de batalha e o funcionamento de equipamentos não tripulados.
Segundo autoridades ucranianas, a limitação afetou terminais utilizados em operações de alta velocidade, comprometendo missões que dependiam de comunicação contínua.
O assessor presidencial ucraniano Serhiy Beskrestnov afirmou anteriormente que as forças militares não receberam aviso prévio sobre a mudança. De acordo com ele, a interrupção inesperada levou ao cancelamento de operações.
A restrição teria atingido equipamentos em deslocamento acima de aproximadamente 160 quilômetros por hora, condição relevante para determinadas aplicações militares com drones.
O episódio expôs a dependência de uma infraestrutura administrada por uma empresa privada em operações consideradas essenciais para a defesa do território ucraniano.
Governo americano e Musk divergem sobre responsabilidade
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou nesta quarta-feira (21) que as decisões sobre o acesso da Ucrânia aos serviços da SpaceX são de responsabilidade da própria empresa e de Elon Musk.
Durante uma viagem à Índia, Rubio declarou que o funcionamento dos equipamentos está sujeito às condições previstas em contratos comerciais privados.
O posicionamento contrasta com declarações anteriores de Musk, que havia atribuído às autoridades militares americanas e ao presidente Donald Trump a responsabilidade por eventuais limitações de velocidade ou utilização da rede.
Trump, por sua vez, afirmou não acreditar que ele próprio ou Musk fossem responsáveis pelas restrições registradas na Ucrânia.
Informações divulgadas anteriormente também apontaram para uma possível decisão da Casa Branca, versão defendida pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, mas negada pelo governo americano.
Até o momento, as declarações públicas não esclareceram definitivamente quem autorizou a mudança e quais foram os critérios utilizados para sua implementação.
Trump e Musk teriam discutido a decisão
Segundo a reportagem americana, Musk e Trump conversaram sobre a situação da rede de satélites antes e depois de a redução de velocidade se tornar pública.
As informações indicam que o assunto também teria sido discutido com integrantes do governo dos Estados Unidos.
O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, classificou o episódio como uma questão relacionada às condições comerciais do serviço, destacando a necessidade de cumprimento dos termos contratuais.
A situação provocou questionamentos sobre a influência de empresas privadas nas decisões que afetam diretamente operações militares de países aliados.
A SpaceX possui uma posição estratégica no fornecimento de comunicação por satélite, o que torna eventuais alterações no serviço particularmente sensíveis em regiões de conflito.
Entenda a diferença entre Starlink e Starshield
Embora os dois sistemas pertençam à SpaceX, Starlink e Starshield possuem finalidades distintas.
A Starlink é uma rede de internet por satélite desenvolvida para atender consumidores, empresas e instituições em diferentes regiões do mundo. Desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022, a tecnologia passou a desempenhar papel importante nas comunicações ucranianas.
O Starshield, por sua vez, é voltado a aplicações governamentais e de segurança nacional, incluindo necessidades específicas das Forças Armadas dos Estados Unidos.
A distinção entre os serviços tornou-se parte da controvérsia.
Rubio questionou anteriormente a existência de acesso ucraniano ao Starshield, enquanto Zelensky afirmou que tanto a Starlink quanto o sistema militar sofreram interrupções.
A falta de esclarecimentos sobre quais contratos e equipamentos foram afetados dificulta a compreensão completa do alcance da restrição.
Episódio amplia tensão entre Ucrânia e Estados Unidos
A controvérsia ocorre em um momento de deterioração das relações entre Kiev e Washington.
Nas últimas semanas, Trump adotou posições que provocaram críticas do governo ucraniano, incluindo medidas relacionadas ao comércio de combustíveis russos e pressões para que a Ucrânia interrompa ataques contra refinarias da Rússia.
Zelensky também demonstrou preocupação com a continuidade do apoio americano, especialmente em áreas como inteligência, defesa e comunicação militar.
Durante compromissos diplomáticos na Europa, o presidente ucraniano afirmou ter discutido com Rubio a necessidade de restabelecer plenamente os serviços de comunicação por satélite.
O episódio reforça um dos desafios enfrentados pela Ucrânia desde o início da guerra: garantir acesso contínuo a tecnologias essenciais para sua defesa, mesmo quando dependem de fornecedores estrangeiros.
Embora a responsabilidade pela restrição continue em disputa, os relatos sobre seus efeitos demonstram a importância estratégica das redes de satélites para os conflitos militares contemporâneos.
Da IstoÉ