Museu Britânico reúne 100 obras perdidas do mais famoso artista não ocidental

Museu Britânico reúne 100 obras perdidas do mais famoso artista não ocidental

Uma das coleções de arte mais importantes do mundo ressurgiu depois de estar perdida por mais de 70 anos. Ela foi criada por Katsushika Hokusai (1760 –1849), o artista não ocidental mais famoso do mundo. O pintor japonês do século XIX, criou “Corpus”, uma série de 103 desenhos descoberta em Paris e, agora, comprada pelo The British Museum, cujo site permite acesso online ao trabalho do artista.

O Japão tinha o projeto ambicioso de criar um Grande Livro Fotográfico de Tudo e Hokusai foi chamado para ilustrar essa enorme enciclopédia, mas o projeto foi abandonado em 1830 por falta de verba e os desenhos estavam em coleções privadas.  ‘A Grande Onda de Kanagawa’, produzida por ele aos 70 anos de idade, é uma das obras de arte mais reproduzidas do mundo e uma das imagens mais populares da nossa época. A xilografia mostra uma onda gigante prestes a engolir três barcos de pesca e suas tripulações, com Monte Fuji (minúsculo) ao fundo.

Na época nenhum japonês tinha autorização para viajar e o país praticamente não recebia estrangeiros. Então, os desenhos de Hokusai ganham relevância global por retratar um Japão que poucos conheciam e culturas estrangeiras que os japoneses não tinham acesso. Para produzir parte do material, o artista teve que desenvolver uma narrativa de criação a partir de imagens muito antigas. Podemos dizer que ele criou desenhos para ilustrar o que seria o dicionário ilustrado de sinônimos, um Google do século XIX sob o olhar do Japão.

‘A Japonesa”, quadro de Claude Monet influenciado por Hokusai

A coleção do artista mais famoso da Ásia foi produzida em 1921 e retrata animais, pássaros e a natureza, assim como artes e ofícios japoneses, cosmologia budista, plantas, peixes e paisagens. Apresenta, também, diversas lendas sobre espíritos, movimentos sobrenaturais ou sobre a raposa com nove caudas que muda de forma em suas aventuras pela Índia, China e Japão.

A fama de Hokusai começou enquanto ele era vivo e seu trabalho influenciou muitos pintores europeus e movimentos artísticos como o impressionismo e a Art Nouveau. Na lista de fãs de seu trabalho, estão grandes mestres como Claude Monet, Edgar Degas, Camille Pissarro, Paul Gauguin, Mary Cassatt, Vincent van Gogh e Gustav Klimt.


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Um dos grandes promotores de seu trabalho na Europa foi Henry Vever, um joalheiro que era amigo de vários artistas impressionistas, como Claude Monet, com quem popularizou a arte japonesa na França e, depois, em demais países europeus. Felix Bracquemont também foi um importante intermediário entre a cultura japonesa e a ocidental. Em 1948, seis anos após a morte de Vever, os trabalhos foram leiloados em Paris para um comprador privado desconhecido. As obras ressurgiram ano passado e foram acabam de ser compradas pelo Museu Britânico. É a primeira vez que este material extraordinariamente importante está em uma coleção pública.

Hokusai era um artista inovador e que sabia como promover seu trabalho. Ele participava literalmente de centenas de eventos de arte performática como festas de caligrafia e pintura. Gostava de chamar a atenção e ficou muito feliz quando criou obras gigantes que consumiram centenas de metros quadrados de papel e dezenas de baldes de tinta para trabalhos pintados com vassouras ao invés de pincéis.

Sua preocupação com autopromoção chegou ao ponto de mudar constantemente seu nome. Incluía sobrenomes como “Velho louco para pintar”. O próprio nome Hokusai foi inventado para destacar-se como um artista criativo. Significa ‘Estúdio do Norte’ em uma referência à Estrela do Norte, cujo universo gira ao seu redor.

Interessante notar que os desenhos só existem hoje porque o livro não foi publicado. Se tivesse sido, o processo de impressão iria destruir os originais e o mundo ficaria sem essas imagens. Agora, com a tecnologia existente, pesquisadores, colecionadores, especialistas em arte e entusiastas estão desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre o artista japonês por meio do ResearchSpace. Para quem não sabe, trata-se de um inovador um sistema online que possibilita estudos colaborativos de forma interativa, independentemente da localização do participante. Com isso, todos os desenhos de Hokusai criados para a grande enciclopédia poderão ser reunidos novamente. Essa descoberta será sensacional para o mundo das artes.

Conforme tradição japonesa, Hokusai escreveu um haicai pouco antes de morrer. Seu lindo poema dizia: “Agora como espírito, devo atravessar os campos de verão”. Se alguém tiver uma  história emocionante como essa, aguardo contato pelo Instagram Keka Consiglio ou no Twitter.

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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