Cultura

Municipal encena a ópera ‘Rigoletto’

Quando a censura sugeriu mudanças na ópera Rigoletto, cujo protagonista é um bobo da corte do Duque de Mântua, o compositor italiano Giuseppe Verdi enviou uma carta ao empresário do Teatro La Fenice, em Veneza, na qual não escondia seu descontentamento. “Vejo que evitaram fazer dele um feio corcunda!”, escreveu ele. “Um corcunda que canta! Por que não? Será que vai causar efeito? Não sei. Mas, repito, se eu não sei, então eles, que propõem a mudança, tampouco o sabem. Achei que seria belo retratar esse personagem extremamente deformado, mas que é, interiormente, apaixonado e cheio de amor.”

A carta é de 1850 e, com ela, Verdi explica a revolução que começa a empreender na ópera do século 19, em obras que põem no centro do palco figuras marginalizadas, repletas de conflitos interiores que davam a elas complexidade e sentido teatral maiores. “Rigoletto é uma personagem profundamente complexa”, diz Jorge Takla, diretor da ópera que sobe neste sábado, 20, ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. “Há loucura, obsessão, e a história permite que a gente toque em temas que seguem profundamente atuais, como assédio sexual e moral, corrupção, machismo, exclusão social.”

Rigoletto foi adaptada do texto Le Roi S’Amuse, o Rei se Diverte, de Victor Hugo. Verdi a transformou primeiro em La Maledizione que, retrabalhada, se tornaria Rigoletto. Bobo da corte do Duque de Mântua, Rigoletto colabora com suas conquistas sexuais, mas teme internamente que a própria filha se torne alvo do patrão. Por conta disso, a mantém presa em casa, mas sem sucesso: em seu afã de protegê-la e de destruir o duque, acaba levando a própria Gilda à morte.

Victor Hugo, por sinal, não gostou muito da ideia de ter sua história adaptada para o universo da ópera italiana. Mas ficou famoso o episódio em que, ao assistir à adaptação de Verdi, foi obrigado a se curvar perante a qualidade do resultado final – não sem certo ressentimento, é verdade. “Se eu pudesse, na literatura, fazer com que os personagens falassem todos ao mesmo tempo, como é possível na música, teria atingido efeito parecido ao de Verdi”, teria dito ele sobre o quarteto Bella figlia dell’amore, uma das passagens mais famosas da ópera, assim como a ária do tenor, La donna è mobile, também do último ato da ópera.

“O caminho que começa em Victor Hugo e leva até Verdi é interessante. O original coloca uma forte crítica social na boca desse bufão, personagem que, excluída da sociedade, pode chamar atenção para o comportamento do rei e de sua corte. Verdi sofre com a censura, o rei vira duque, algumas cenas são excluídas, mas este mesmo caráter de crítica é muito forte, aqui com uma dramaturgia musical que transforma, que nos toca imediatamente.”

Em Verdi, o ambiente coletivo e o mundo individual estão sempre em conflito. E em Rigoletto isso fica particularmente claro, inclusive pela leitura que oferece sobre as contradições do protagonista. De um lado, ele é o bobo da corte que defende o assédio, que alimenta a perversidade; de outro, o pai de família que teme por ele. “Rigoletto trancafia a filha em casa, quase em um cárcere privado, e isso tem menos a ver com seu amor por ela e mais com seu próprio medo de que o seu lado mais humano seja invadido”, diz Takla. “E, quando ele fala com o assassino Sparafucile pela primeira vez sobre matar o duque, na verdade está falando uma parte de si mesmo. Ele tem dentro de si o amor, mas é alguém que mataria. É um personagem muito rico.”

Na cena de Rigoletto com Sparafucile, Verdi usa o recurso do recitar cantando, aproximando o canto da fala – assim como fará no final da ópera, quando Rigoletto se dá conta de que sua filha está morta. O texto quase falado, diz Takla, abre enormes possibilidades expressivas. “A fala tem um poder enorme. É sangue, é teatro.”

A montagem do Municipal tem regência de Roberto Minczuk, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coro Lírico Municipal, além de elenco com os barítonos Fabian Veloz e Rodrigo Esteves, as sopranos Olga Pudova e Carla Cottini, os tenores Fernando Portari e Dario Schmunk, as mezzo-sopranos Juliana Tainno e o baixo Luiz-Ottavio Faria.

“A atuação do elenco é fundamental nesse tipo de produção”, diz Takla. Ele explica que optou por não atualizar a história, ou seja, não quis trazê-la para nossos dias e sim evocar o contexto original. “Há uma narrativa musical tão perfeita que dialoga com a nossa época.”

RIGOLETTO

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo; 3053-2100. Estreia sáb. (20). 3ª, 4ª, 6ª, sáb., 20h. Dom., 18h. R$ 20/R$ 120. Até 30/7

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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