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Ações de patifes, roubos e furtos de cachorros de companhia crescem nas grandes cidades e causam sofrimento e tristeza para seus donos

Crédito: Dusan Ilic

CUIDADO Os ladrões estão à solta e querem roubar animais pequenos e dóceis: trauma e dor dilacerante (Crédito: Dusan Ilic)

Crianças adoecem, pessoas idosas infartam, jovens caem em profunda depressão. Os animais de estimação, para os humanos proprietários que os amam, são como um membro da família. Por isso, o furto de cachorros, seja para revendê-los com preços extremamente rebaixados, seja para extorquir os donos e pedir resgates exorbitantes, tem efeitos similares aos do sequestro de uma pessoa. A dor é dilacerante, o vazio na vida de quem os perdeu se anuncia sem fim. Esse tipo de crime, cometido por verdadeiros patifes desprovidos do menor sentimento de empatia, incide sobre os chamados pequenos cães de companhia, a exemplo de shih tzu e yorkshire — os covardes ladrões, que atacam sobretudo crianças, mulheres e senhoras idosas, não ousam surrupiar rootweilers ou pitbulls. Os filhotes de shih tzu ou yorkshire custam mais de R$ 2 mil e, se for de um pug, o preço pode chegar a casa de R$ 4 mil. Os larápios vendem os animais clandestinamente por aproximadamente 10% desse valor

“Deixei o Café preso no supermercado. Quando voltei das compras ele tinha sumido. Me desesperei” Juana Diniz, professora universitária (Crédito:Claudio Gatti)

Aumento do crime

Sob a forma de subtração dos cães de suas próprias casas, esse delito vem apresentando em São Paulo um aumento de 110% — mais do que dobrou nos últimos dois anos. Em 2018, segundo levantamento da Polícia Civil, foram registrados 137 casos, contra 65 em 2017. Casos de furtos na rua ou dentro de veículos acontecem com menos freqüência, mas cresceram 227%. Recentemente, filmagens nos arredores da Alameda Dom João VI, no Parque Imperial, na cidade paulista de Campinas, apontam o sumiço de um belo yorkshire de nove meses. Adultos de péssimo caráter se valeram de crianças para levar o dócil cãozinho. “Três mulheres pararam em frente à loja e olharam tudo. Logo depois, um menino e uma menina, aparentemente de quatro a sete anos, que estavam com as mulheres, chamaram o Ted para rua. Nunca mais vi”, lamenta-se Josemar Silva Gonçalves, dono do animal e também proprietário do estabelecimento comercial onde tudo aconteceu.

A cachorrinha Dorys, de dois anos, da raça shih tzu, foi furtada dentro de casa, na cidade de Arujá, também em São Paulo. A vendedora Thais Guimarães, dona de Dorys, chegou do trabalho, entrou em casa e percebeu que estava tudo de pernas para o ar. “A cachorrinha? Meu Deus, quanta tristeza. Tão querida pela família, era tratada com filha. Pelo branquinho, olhinhos de jabuticaba, ela dormia na cama comigo”, diz Thais. Ela Já fez de tudo para localizar a querida amiga. Mas nada aconteceu.

Onde andará Dorys? Qual o seu destino? Os crimes cometidos contra animais podem alcançar extrema crueldade, e foi isso o que aconteceu na vida de Rubens Araujo. “Quando cheguei à minha chácara, percebi que parte dos meus cães fora levada e a outra parte fora atirada na piscina. Sem conseguir sair da água, eles nadaram, perderam a força e morreram afogados”.

Nem todas as histórias de roubo de cachorros de raça, no entanto, têm final triste. A professora universitária Juana Diniz teve seu cãozinho de estimação, o Café, furtado no supermercado. “Deixei-o preso num setor próprio do estabelecimento. Quando voltei das compras, havia sumido. Fiquei desesperada”, conta Juana. Mas o esperto e inteligente Café, como são todos os shih-tzu, acabou sendo encontrado na Cracolândia, no centro de São Paulo. “Fomos à polícia, fizemos divulgação na internet, procuramos pelo bairro, mas nada. Recebi diversos trotes por telefone, mas uma ligação era verdadeira”, lembra Juana. “O Café fez a maior festa quando me viu”. E ela fez uma festa, ou, melhor, faz até hoje, contou Juana. Um investigador da Policia Civil que prefere não se identificar afirmou que os ladrões preferem animais pequenos porque geram lucro rápido e fácil. Disse também que existem investigações em vigor para detectar feiras clandestinas em que os animais roubados são comercializados. “Mudanças no ambiente social em que o animal vive, no qual formou vínculos, podem proporcionar estresse pós-traumático, da mesma forma que em humanos”, diz o professor Adroaldo José Zanella, da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, especialista em bem-estar animal. “Um cão de raça fica com sequelas permanentes”. O dono, que o ama, também.

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