A verdade é que eu pensava no Teatro e pensando no teatro pensava no . Pensava no Celso, no Martinez e no Corrêa. Pensava no pior e no melhor. Pensava que, assim como ele, também fiz uma faculdade de Direito – e largamos quase formados e tínhamos isso em comum antes de nos assumirmos artistas. Passei a noite em claro. Na véspera em que recebi a notícia.

Tive uma insônia forte, daquelas que você vai acompanhando o relógio numa progressão…  1, 3, 5… quase 6 e 7 da manhã e…. quando finalmente cai chapada de exaustão, por falta de sono, o telefone já está tocando para te acordar. Ligação entra, filha acorda, o cachorro que tem que levar para passear, trabalho que tem que decidir, entregar, ler, fazer orçamento, fazer… E tudo isso se confundia com a inquietude fora do comum que atravessou a noite toda, uma ansiedade incontrolável. Sentia a celebração do que é ser Zé Celso e o privilégio que é ter Zé Celso. Sorte a nossa – e assim pensava quando soube da triste notícia da sua partida. 

Abri o livro PRIMEIRO ATO: Cadernos, Depoimentos, Entrevistas (1958-1974) e bateu um desespero.  É difícil pensar o Teatro sem Zé Celso. Caramba, o Zé Celso é o Teatro!!! É a personificação do que é o Teatro e também do que está além do Teatro. Bastava ir a uma peça para se sentir ilimitado. Meu Deus…como isso era bom. Parece que ele consegue acessar o super-herói que cada um tem, criando o desejo de mudar tudo,  romper, fazer. Um super-herói que acredita na liberdade, na alegria, na beleza, na celebração.  Zé brinca com a libido e a libido é a pulsão de vida contida em tudo isso. O Teatro que está no dia a dia, na vida, no acordar, no dormir, viver e respirar… Arte. 

Nunca vi um artista que tivesse isso de forma tão evidente quanto Zé Celso. O quanto o amo por isso? Não sei como contar. Só sei agradecer por me permitir acreditar que a arte é estar vivo em estado de  presença.

Não trabalhei com Zé, não trabalharei, e isso sim é um arrependimento –  acredito que temos que ter alguns na vida. Queria poder ter estado mais perto daquela força inesgotável de arte, ter revirado meu íntimo, me tornado melhor e passado por crises ao seu lado. De certa forma, Zé sempre esteve no meu imaginário ou no imaginário de todo artista do Brasil. Não há como ser ator e não reverenciar a importância e genialidade das suas encenações, do seu pensamento, das rupturas que ele provoca. 

Me restam as experiências de estar no Oficina e viver suas peças, de atravessar abraçada com ele a ladeira daquele teatro ouvindo coisas lindas e vê-lo sorrir, convidando a todos para dançar. CATARSE. Quando se adentra o Oficina todos estão em cena, atores e plateia, impossível não se afetar ou ser atravessado por aquele ambiente cósmico em que pulsa a vanguarda. Zé o mago, o mágico, Deus, fazia com que todo mundo virasse um pouco ator. Estar em sua plateia era uma experiência de se permitir além dos limites e ser afetado pelo ESTADO DA ARTE

 

“Meu nome é José Celso Martinez Corrêa.

Por birra.

Quando comecei a fazer teatro exigiram um pseudônimo mais curto, mas eu dizia: quem vai fazer teatro somos nós quatro – o José, o Celso, o Martinez e o Corrêa.

Portanto, eu inteiro, chato de decorar, não auditivo… Mas acabaram me reduzindo à Zé Celso e eu até que acabei gostando.

Virando Zé.

Sou de nacionalidade brasileira, espanhola, italiana, portuguesa e índia. Enfim, uma contribuição milionária de todos os erros.

Um complexo onde falta a soul, falta o negro. Eu tento compensar com a cabeça e o beat do meu corpo. 

A arte é causa e consequência em minha vida; e vive quem vive artisticamente. Como artista eu me considero um privilegiado e quero que todos o sejam.” 

O Liberal, Belém do Pará, 5/9/1971.

 

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do IstoÉ.