Comportamento

Muito além da luta de classes

Projeto de R$ 5 bilhões que prevê unir moradias populares e escritórios em São Paulo gera disputa entre vizinhança de classe média alta, prefeitura e grupo Votorantim

Crédito: Divulgação

PRESENTE E FUTURO O atual terreno cercado por favelas (à esq.) e o projeto (abaixo): falta clareza sobre o público-alvo (Crédito: Divulgação)

O projeto da Votorantim (Crédito:Divulgação)

Um grande empreendimento que pretende realocar duas favelas na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, enfrenta oposição de moradores dos condomínios das redondezas. Eles temem que áreas valorizadas se deteriorem e apontam irregularidades. O caso pode ir para a Justiça. A discussão começou quando a Votorantim apresentou um plano de revitalização que mescla prédios comerciais, apartamentos de classe média e habitações populares em um grande terreno da empresa. A área fica ao lado do Ceagesp e hoje está deteriorada. Parte dos moradores das favelas do Nove e do Trilho iriam para um conjunto a ser erguido em um antigo pátio da SPTrans, autarquia do transporte público. Os prédios custariam R$ 110 milhões, sendo R$ 30 milhões da prefeitura e R$ 80 milhões da iniciativa privada, e incluiriam creches, postos de saúde e albergues, já quem há uma “minicracolândia” nas redondezas.


O maior problema é a desconfiança. Os integrantes da Associação Viva Leopoldina (AVL) afirmam que não são contra os desfavorecidos, mas enxergam desequilíbrio na proposta mais aceita pela prefeitura. “A Votorantim quer dar o mínimo. Se não houvesse comunidades, eles teriam que pagar até R$ 250 milhões em impostos nos próximos 20 anos”, reclama Carlos Alexandre de Oliveira, da AVL. Ele defende que a empresa instale todos em seu terreno e em uma área hoje do Ceagesp. Uma queixa ao projeto é o fato de que os deslocados para a área mais rica não teriam como manter os apartamentos, o que criaria uma favela vertical. Outra: a Votorantim não explicita que público deseja atrair. Até 10 mil pessoas poderão viver nos dois locais, incluindo 4,5 mil moradores carentes.

Ricos e pobres
O terreno da SPTrans que seria desapropriado é apontado como inadequado. O solo está contaminado com poluentes que vazaram enquanto ali funcionou uma garagem de ônibus. A prefeitura diz que a poluição pode ser mitigada. A AVL duvida e sugere a criação de um aterro que depois viraria parque. “Nosso projeto é inclusivo”, rebate Benjamin Citron, da Votorantim. Philip Yang, diretor do Urbem, instituto que cuida da parte técnica do empreendimento, afirma que a proposta evitaria a criação de guetos — ricos e pobres —, ao contrário de outras iniciativas, como o Minha Casa Minha Vida, onde as pessoas vão morar longe de seus empregos.
Condomínios contrataram o escritório BMA Barbosa Mussnich Aragão para cuidar da parte jurídica. Os advogados estudam questionar as isenções, a doação do terreno público e “o conflito de interesses e compartilhamento de informações confidenciais” por parte de ex-funcionários públicos que hoje atuam para aprovar o empreendimento.
Fora da discussão, os pobres só observam. Para os que vivem na Favela da Linha há um complicador, já que conseguiram a posse do terreno por usucapião e, portanto, mudar não seria bom negócio. Para a prefeitura, não existem grandes alternativas para acomodar as famílias. “Temos que mediar. A cidade é de todos”, disse a secretária municipal de Urbanismo, Heloísa Proença. A briga terá que passar pela Câmara de Vereadores.