Movimento de protesto no Irã arrefece diante de repressão ‘brutal’

A intensidade dos protestos no Irã contra o sistema teocrático da república islâmica diminuiu após uma repressão brutal com milhares de mortos e em meio a um apagão da internet, afirmam nesta sexta-feira (16) organizações de monitoramento.

A ameaça de um ataque dos Estados Unidos ao Irã também parece ter arrefecido.

Segundo um funcionário saudita, aliados do Golfo convenceram o presidente americano, Donald Trump, a dar “uma oportunidade” a Teerã.

A mobilização começou em 28 de dezembro em Teerã para protestar contra o custo de vida, mas se espalhou para outras cidades com a exigência da queda do sistema clerical que governa o Irã desde a revolução de 1979.

As autoridades cortaram a internet para, segundo organizações de defesa dos direitos humanos, ocultar a dimensão da repressão.

Na noite de quinta-feira, no início de um feriado prolongado de três dias, as forças de segurança estavam fortemente presentes nas ruas de Teerã, constatou um jornalista da AFP.

A repressão “provavelmente sufocou o movimento de protesto por enquanto”, avalia o Instituto para o Estudo da Guerra, com sede nos Estados Unidos, que acompanha as manifestações.

“No entanto, a mobilização generalizada das forças de segurança (…) é insustentável, o que torna possível a retomada dos protestos”, acrescentou.

O grupo de direitos humanos Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, contabiliza ao menos 3.428 manifestantes mortos pelas forças de segurança. O número real pode ser muito maior.

Segundo seu diretor, Mahmood Amiry-Moghaddam, as autoridades lideradas pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, “cometeram um dos crimes mais graves de nossa época”.

Ele citou “relatos horripilantes de testemunhas oculares” sobre “manifestantes mortos a tiros enquanto tentavam fugir, o uso de armas de guerra e a execução em plena rua de manifestantes feridos”.

Lama Fakih, da Human Rights Watch, confirmou “massacres (…) sem precedentes no país”.

Os iranianos estão sem internet há mais de 180 horas, mais do que durante as manifestações massivas de 2019, destaca a ONG de monitoramento de cibersegurança Netblocks.

Em novos vídeos gravados no auge dos protestos, aparecem corpos alinhados no necrotério de Kahrizak, ao sul de Teerã, e familiares desesperados em busca de seus entes queridos. A AFP verificou que as imagens foram feitas nesses locais.

– Dar “uma oportunidade” ao Irã –

Irã e Estados Unidos parecem ter reduzido o tom.

O presidente russo, Vladimir Putin, falou por telefone nesta sexta-feira com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e prevê conversar com seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, anunciou o Kremlin. O objetivo é reduzir a tensão em um país aliado de Moscou.

A Casa Branca também confirmou que o presidente americano falou com Netanyahu, que, segundo o New York Times, pediu que ele não intervenha militarmente.

Um alto funcionário saudita declarou na quinta-feira à AFP que Arábia Saudita, Catar e Omã alertaram Trump sobre o risco de “graves repercussões para a região”.

Os três países “realizaram intensos esforços diplomáticos de última hora para convencer o presidente Trump a dar ao Irã a oportunidade de demonstrar suas boas intenções”, disse o funcionário, sob condição de anonimato.

“Todas as opções seguem sobre a mesa”, afirmou na quinta-feira a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt.

– Iranianos “unidos” –

A Casa Branca afirmou que o Irã recuou de 800 execuções de manifestantes previstas na véspera, número não mencionado pelas autoridades iranianas nem por ativistas de direitos humanos.

O governo americano também anunciou sanções econômicas contra autoridades acusadas de coordenar a repressão, incluindo Ali Larijani, à frente do principal órgão de segurança do Irã.

No Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, a jornalista iraniano-americana Masih Alinejad afirmou que “todos os iranianos estão unidos” contra o sistema clerical no Irã.

O representante iraniano na reunião, Gholamhosein Darzi, acusou Washington de “explorar os protestos pacíficos com fins geopolíticos”.

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