Cultura

Mostra de fotos reflete sobre erotismo, autoconhecimento e isolamento na pandemia

Crédito: Priscila Prade/Divulgação

A exposição Corpo em Quarentena é uma mostra de ensaios fotográficos de nus femininos e masculinos, que abre dia 4 de outubro em SP, e resulta de um projeto da fotógrafa Priscila Prade, durante a pandemia. Com a proposta de montar um grupo de estudos artísticos sobre o erotismo, o autoconhecimento e o isolamento social, ela disparou pelas redes sociais um chamamento para interessados em se inscrever nesse grupo. O retorno foi expressivo e imediato.

Na manhã seguinte ao post, 96 interessados se apresentaram. Ela suspendeu as postagens e passou a telefonar a todos. Um a um, ligou para conversar, entender o motivo do interesse, explicar qual seria sua proposta e informar da disponibilidade de apenas 12 vagas. Priscila faria uma seleção de acordo com objetivos em comum e a aceitação de serem fotografados por mim no final do processo. Assim nasceu a mostra. Entre os fotografados, estão só os atores Clovys Torres e Érica Montanheiro. Priscila conta mais detalhes:

“Meses sozinha em casa, autoconhecimento, desejo, identidade e muita inquietação.  Corpo em Quarentena surgiu de uma série de autorretratos que produzi durante o inicio do isolamento social (pandemia mundial da covid-19). A partir dessa experiência, fui impulsionada a criar um grupo de estudos artísticos de fragmentos filosóficos e imagéticos sobre o erotismo, embasados em textos eróticos de Georges Bataille e Hilda Hilst, dois autores muitos presentes na minha vida.

O grupo de doze pessoas, selecionadas entre 96 inscritos, ocorreu durante oito meses de forma remota, através de encontros semanais virtuais e como resultado, produzimos em conjunto, doze  ensaios fotográficos, apresentados quase que como “versos; estrofes corporais”, ressignificando paixões, feridas e cicatrizes coletivas e individuais.

Os ensaios fotográficos, desenvolvidos e debatidos sempre em grupo, foram realizados em sua totalidade com pessoas de gêneros, idades e contextos diferentes (homens e mulheres de 20 a 62 anos), propondo uma reflexão sobre corpos, pudores, questionamentos e universos pessoais. Respeitando as orientações de saúde, as fotos foram agendadas e realizadas no meu  estúdio de forma presencial, mas, apenas com  a minha presença e do fotografado, e cumprindo todos os protocolos de segurança, com distanciamento, higienização adequada e uso de álcool gel.

Sobre a escolha do tema de cada ensaio e dos autores, temos uma série de estudos ligados ao erotismo colocados em pauta diante da pandemia. Ao longo da história humana, nas mais variadas civilizações, nas diversas expressões culturais e literárias ao longo dos séculos, o sexo, o desejo e o erotismo sempre estiveram presentes. Faz parte de nós, do que somos, vivemos e sonhamos. Neste momento de pandemia, o coletivo forçadamente em quarentena, voltou-se para si.

Mesmo que não quiséssemos, todos fomos obrigados a encarar a nossa singularidade, nos deparando com nossa individualidade, nossa sensualidade, ou nossa solidão em algum momento. A muitos restou apenas a si mesmos nesse período e seus próprios corpos e mentes. O questionamento então é o que fazer com esse corpo que somos?

Fotografar nu é uma arte delicada. A partir da estética escolhida, o corpo despido pode assumir diferentes imagens e acepções. Mas em todos os casos a pele crua é nada mais nada menos que a condição natural do ser humano. Ou deveria ser. Nos ensaios explorei de forma muito sensível e artística corpos nus masculinos e femininos. Corpos de todas as idades. Corpos, cheios de marcas e histórias. Corpos naturais.

Me propus, por meio deste projeto, sublimar justamente esse sentimento frente ao erótico e ao nu, pois, se o nuú artístico sofre alguma repressão social, ela se acentua quando a figura retratada é masculina. A nudez feminina sempre foi bastante explorada, mas o homem nu ainda é impactante para muitos. Por quê?  “Corpo Em Quarentena” procura trazer à luz o inconsciente coletivo sobre essa diferenciação frente ao nuú masculino e feminino, sobre o íntimo, sobre o proibido, e mais, sobre o tabu ou sobre o sagrado.

Propositalmente, o trabalho foi embasado na produção textual de autores renomados, de ambos os gêneros, para nortear o processo criativo do grupo, sob ótica feminina e masculina. De um lado, temos Georges Battaile, “o pensador do corpo”. Battaile indaga o corpo de uma maneira mais direta e, de tal interrogação, propõe um modo de pensar a totalidade (paradoxalmente, afirmada como incompleta) da experiência e do espírito humanos.

De acordo com a crítica de Luís Antônio Ribeiro (universo dos leitores), de “Erotismo”,

O mesmo,  “parece ter perdido um sentido positivo em nossos tempos. Hoje em dia, o senso comum atribui ao ato erótico uma sensualidade ligada à pornografia, que se veicula a uma ultra exposição de um processo sexual, exposto translucidamente, que leva diretamente à satisfação do prazer e, por fim, a uma “perda” do evento erótico. Georges Bataille, na década de 30, se apropriou desta perda para refazê-la em outras configurações e tornou o erotismo não uma negatividade, mas uma positividade (mesmo que negativa). O erotismo para ele é, então, o processo contínuo da vida, potência.

A categoria erótica é uma marca da “vida interior” do homem. Assim, ele não é algo que se coloca “por fora”, mas que busca, por dentro, uma continuidade impossível. Bataille propõe o erotismo como esta presença interior, ou seja, uma tentativa de continuidade naquilo que é descontínuo na vida.

De outro lado, temos Hilda Hilst. Em sua obra, o sexo surge como algo natural, explícito, sem tabu, como uma parte essencial do ser humano. A literatura de Hilda trata desses temas de uma forma muito delicada, procurando a beleza no gozo, no prazer, na satisfação dos nossos impulsos animalescos, na fragilidade dos corpos humanos. Hilda é transgressora na medida em que reflete um tempo ainda cheio de conservadorismo, preconceito, misoginia, homofobia, o que a torna ainda mais atual e necessária – é a voz de uma mulher, numa sociedade patriarcal e machista, a nos falar sobre assuntos muitas vezes proibidos.

Eu, dentro desse registro artístico, apresento minha visão de artista e de mulher, em “Corpo Em Quarentena”. Em uma abordagem diferente do erotismo,  primeiro fotografei a mim mesma para depois, nos doze ensaios fotográficos posteriores, realizar  exercícios visuais que exploram reflexões sobre o  nosso trabalho. Nele, o corpo é a matéria-prima, pronto a ser recriado e exorcizado.”

CORPO EM QUARENTENA

Exposição Fotográfica e Lançamento de Livro

De 4 a 10 de outubro, das 14 às 20 h

No Espaço Cultural Brica Braque – r. Dr. Seabra, 900. V Madalena

Entrada gratuita – Reserva de horário pelo whatsapp 11-9.6660-9120

@espacoculturalbricabraque




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