Com orquestra ao vivo, Mostra Cine São Pedro 2026 exibe clássicos do cinema

Com regência de Marcelo Falcão, a 2ª edição da mostra promove o resgate do expressionismo alemão, a dublagem ao vivo da primeira animação brasileira e celebra o Ano da Cultura Brasil-China

Exibição do filme 'O Gabinete do Dr. Caligari' no Theatro São Pedro, com orquestra regida por Marcelo Falcão
Exibição do filme 'O Gabinete do Dr. Caligari' no Theatro São Pedro, com orquestra regida por Marcelo Falcão Foto: Divulgação

A experiência de assistir a um filme no início do século XX era intrinsecamente musical. Antes da padronização do som sincronizado em 1927, as salas de cinema eram espaços de performance viva. Resgatando essa tradição, o Theatro São Pedro — ele próprio um antigo cinema inaugurado em 1917 — realiza de 13 a 28 de março a 2ª Mostra Cine São Pedro – Música e Cinema. A iniciativa, fruto de uma colaboração com a Cinemateca Brasileira e o Goethe-Institut, vai além do entretenimento, propondo um estudo prático sobre a relação entre imagem e partitura.

Sob a direção musical de Marcelo Falcão, especialista em regência de filmes mudos, a Orquestra do Theatro São Pedro enfrentará o desafio técnico de sincronizar execuções complexas com projeções de obras que definiram a estética visual moderna.

  • Preservação do silencioso: obras-primas de F.W. Murnau, como Nosferatu e Fausto, são apresentadas com suas reconstruções musicais históricas.

  • Pioneirismo brasileiro: a mostra dedica espaço à Sinfonia Amazônica (1951), a primeira longa-metragem de animação do Brasil, unindo música clássica europeia ao folclore nacional.

  • Geopolítica cultural: em celebração ao Ano da Cultura Brasil-China (2026), o evento dedica concertos à obra de Tan Dun, explorando a sonoridade das artes marciais no cinema.

  • Abertura didática: o processo de preparação será compartilhado com o público através de ensaios gerais abertos e gratuitos, democratizando o acesso ao fazer artístico.


A engenharia do expressionismo: Murnau e o som

O expressionismo alemão não foi apenas um movimento visual, mas uma exploração psicológica. Em Nosferatu (1921), o uso de sombras e distorções é amplificado pela trilha original de Hans Erdmann. Já em Fausto (1926), Murnau utilizou efeitos especiais inovadores para a época, que exigem da orquestra uma dinâmica capaz de acompanhar o ritmo visual acelerado da narrativa medieval. A música de Jean Hasse, executada ao vivo, atua como o fio condutor que guia a percepção emocional do espectador moderno.

A “Fantasia” brasileira: Sinfonia Amazônica

Um dos pontos altos da curadoria é o resgate de Sinfonia Amazônica, de Anélio Latini Filho. Concebida de forma quase artesanal ao longo de cinco anos, a animação utiliza obras de Schubert, Wagner e Rossini para ilustrar lendas da região Norte. O diferencial desta edição é a dublagem ao vivo realizada por Rodrigo Miallaret, que exige uma coordenação precisa entre voz, música sinfônica e a projeção de 1951.

Tan Dun: a música como protagonista

Ao homenagear o compositor chinês Tan Dun, a mostra destaca a trilogia de filmes de artes marciais (O Tigre e o Dragão, O Banquete e Herói). Diferente do cinema mudo, aqui a música foi composta para o cinema falado contemporâneo, mas é elevada ao papel principal no concerto Martial Arts Trilogy. A inclusão de videoarte de Suka e a presença do violoncelo e percussão como solistas sublinham a sofisticação da composição oriental moderna.

Guia de programação e serviço

2ª Mostra Cine São Pedro – Música e Cinema

  • Local: Theatro São Pedro (Rua Barra Funda, 171 – São Paulo/SP)

  • Preços: R$ 36 (meia) a R$ 72 (inteira).

  • Vendas: Site Oficial do Theatro

ObraData de ExibiçãoDetalhes Técnicos
Sinfonia Amazônica21/03 (11h)Dublagem ao vivo por Rodrigo Miallaret
Nosferatu13, 22 e 28/03Direção musical de Marcelo Falcão
Fausto14 e 20/03Partitura de Jean Hasse
Homenagem a Tan Dun15 e 27/03Martial Arts Trilogy + Videoarte