Comportamento

Morte anunciada

Suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina depois de ter sido preso em uma operação que investigava desvios na instituição reacende debate sobre possíveis abusos da Policia Federal. O acadêmico tinha uma história sem manchas em mais 40 anos na UFSC. Houve excesso da PF?

Maria Luisa Dias/Mafalda Press/Futura Press

“A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”, escreveu o reitor e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Luiz Carlos Cancellier de Olivo, 59 anos, pouco antes de cometer suicídio. O bilhete foi encontrado no bolso de sua calça. O reitor se jogou da escada rolante de um shopping em Florianópolis. Ele estava sob efeito de remédios e com quadro de depressão desde o mês passado, quando foi preso com outras outras seis pessoas Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal. A prisão ocorreu durante a investigação de desvios em cursos de Educação a Distância (EAD) oferecidos pela UFSC dentro do programa Universidade Aberta no Brasil. De acordo com a PF, Cancellier tentou obstruir as investigações. Durante o encarceramento, ele foi obrigado a vestir o uniforme cor de laranja da prisão. Um dia depois, o reitor foi solto, mas foi proibido de entrar na universidade. “A UFSC era a vida dele, ele amava o que fazia, vivia para aquilo, morava a dois metros da universidade, foi uma humilhação muito grande”, diz Hélio Brasil, advogado do reitor.

Nascido em Tubarão, no sul de Santa Catarina, Cancellier tinha uma história de mais de 40 anos dentro da UFSC. Iniciou os estudos em direito na década de 1970 e depois migrou para o jornalismo, participando de campanhas pela anistia e pelas Diretas-Já. Foi assessor de deputados e senadores catarinenses.

Nos anos 1990, voltou à UFSC, terminou a graduação em direito e fez especializações em Gestão Universitária e Direito Tributário. Em novembro de 2015, foi eleito reitor. “Ele restabeleceu a harmonia na universidade, estava levando-a um caminho muito produtivo. Era um conciliador, sempre dialogou com os alunos”, diz Áureo Moraes, chefe do gabinete do reitor. Segundo Moraes, Cancellier era conhecido pela tolerância. A proibição de entrar na universidade teria sido o estopim para o suicídio.

Divulgação

O jornalista Carlos Damião esteve com o reitor pouco depois da prisão e revela que o sentimento expressado por ele era de total injustiça. “Ele vivia para UFSC, era um cara simples, tinha uma vida extremamente franciscana, desapegado de bens, o que revoltou muita gente. Ele era positivo, de diálogo”, afirma. Na tarde da tragédia, Cancellier, que era separado e tinha um filho, havia combinado de encontrar os irmãos Julio Cancellier e Acioli de Olivo para dar uma volta na Lagoa da Conceição, ponto turístico da cidade. Infelizmente, o encontro não ocorreu. “Ele estava passando por um momento muito difícil, tinha longos silêncios. Ele era um homem brilhante, culto e preferiu nos poupar. Tenho muito orgulho dele”, conta Olivo, irmão do reitor. Na semana passada, os advogados de Cancellier conseguiram uma autorização para que ele voltasse a orientar turmas dos cursos de mestrado e doutorado.

CAMPUS A proibição de entrar na Universidade foi o estopim para o ato desesperado do reitor, tido como “homem brilhante” no meio acadêmico (Crédito:Henrique Almeida/Agecom/UFSC)

Indignação

Em 28 de setembro, Cancellier publicou um artigo no jornal O Globo relatando o constrangimento que sofreu no dia em que estive na prisão. “A humilhação e o vexame a que fomos submetidos — eu e outros colegas da UFSC — há uma semana não tem precedentes na história da instituição”.

A morte do reitor da UFSC reacendeu o questionamento sobre supostos abusos de autoridade e arbitrariedade da Policia Federal em algumas ações. O procurador-geral de Santa Catarina, João dos Passos Martins Neto, cobra uma investigação séria sobre a morte do reitor. “É indispensável a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas”, diz. Consultada pela reportagem de ISTOÉ, a Policia Federal não quis comentar o caso. Disse apenas que as investigações da Ouvidos Moucos continuarão.