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Moro está amuado

Contrariado com várias medidas que tem de tomar por imposição do próprio presidente, o ministro Sergio Moro chegou a pensar em desistir, mas mantém-se no cargo por um projeto maior: uma vaga no STF

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

CONSULTOR Se vier a sair do governo, Moro pensa em estudar em Havard e depois montar escritório de advocacia com a mulher (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Quando Jair Bolsonaro chamou Sergio Moro à sua casa no Rio de Janeiro, no final de outubro, para convidá-lo oficialmente para ser o superministro da Justiça e Segurança Pública, o então juiz federal responsável pela Operação Lava Jato deixou claro ao recém-eleito presidente da República que acalentava o sonho de ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). “Mas não tenho vaga para o STF e sim para o Ministério da Justiça”, enfatizou o presidente. Moro aceitou o ministério sem pestanejar. Seu plano era tornar-se um grande ministro, credenciando-se para a primeira vaga na Suprema Corte, que será aberta no ano que vem com a aposentadoria de Celso de Mello. Um amigo próximo lhe advertiu: “O problema é que para se manter ministro de um ministério que vai operar muito na área de costumes, onde o presidente é intolerante, o senhor vai ter que engolir muitos sapos e talvez não suporte esperar a abertura da vaga no STF”. Moro foi taxativo: “Tenho limites. Se não aguentar, peço para sair”.

As frustrações

Dito e feito. Moro está engolindo, em quatro meses, mais sapos do que imaginou e há momentos em que ele pensa em desistir, como agora, depois de uma série de dissabores. Ela já desabafou a interlocutores que se continuar a ser vítima de pressões de parlamentares ou até mesmo de pessoas ligadas ao governo, muitas vezes por incompreensões do próprio presidente da República, ele larga tudo e vai cuidar da vida profissional. Como ele não pode mais voltar para a Justiça Federal, pois pediu exoneração da função, pode retomar o projeto de estudar uns tempos em Havard, nos EUA, para cumprir a quarentena, e, ao retornar, instalar uma banca de advocacia ao lado da mulher Rosangela, que também é advogada.

A derrota mais doída aconteceu nesta quarta-feira 8, quando a comissão do Congresso que analisa a Medida Provisória do governo sobre a reforma administrativa tirou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de seu ministério e mandou-o de volta para a Economia. Foi um balde de água fria no ministro, que contava com o Coaf para poder seguir em sua obstinada luta contra o crime organizado.

A primeira decepção de Moro aconteceu ainda em janeiro. Bolsonaro garantiu que o governo permitiria que as pessoas se armassem em casa. Moro era contra, mas disse que essa intenção foi manifestada pelo presidente ainda durante a campanha e que ele não se oporia publicamente. Contrariado, evidentemente, pois sua cultura pacifista não permitia digerir facilmente a ideia, não se conformou quando Bolsonaro estabeleceu que as pessoas poderiam comprar até quatro armas cada. Moro torceu o nariz. Considerou que duas armas já era muito, mas teve que ceder à vontade do presidente.

Bolsonaro também impôs que no plano anticrime de Moro ficasse estabelecido que os policiais que matassem em serviço ficariam livres, por meio do dispositivo conhecido por excludente de ilicitude. Isso poderia representar uma espécie da licença para matar aos policiais. Moro resumiu seu pensamento sobre o assunto à ISTOÉ. “Eu penso que o ideal é o policial prender o bandido e voltar vivo para a sua casa”. Ou seja, ninguém precisa matar ninguém.

Depois, veio o episódio mais desgastante para Moro, que foi o encaminhamento do projeto anticrime para a Câmara em fevereiro. Ele queria que os deputados dessem prioridade ao projeto, mas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deixou claro que a preferência era para apreciação da reforma da Previdência. Os dois chegaram a brigar feio publicamente. “O ministro Moro é um empregadinho do presidente Bolsonaro”. Moro rebateu e contou até com a ajuda do vereador Carlos Bolsonaro, que foi em socorro do ministro pelas mídias sociais. “Por que será que Maia anda tão nervoso?”, perguntou o filho do presidente, insinuando que o nervosismo vinha do fato de o sogro do deputado, o ex-ministro Moreira Franco, acabara de ser preso na Operação Lava Jato.

Moro teve outro contratempo na semana passada. Bolsonaro disse na abertura da Agrishow, em Ribeirão Preto, que os fazendeiros poderiam se armar para se defender dos invasores de suas terras, matando intrusos sem pagar por isso, como um garoto que rouba laranja na beira da estrada. Legalista, Moro não se conformou com essa aberração jurídica.
Foi a gota d’água para Moro chegar a pensar em largar tudo. Sempre que as pressões contra ele aumentam, no entanto, o ministro pensa na vaga do STF que se abrirá no ano que vem. Numa recente entrevista para um jornal português chegou a dizer que entrar no Supremo era o mesmo do que ganhar na loteria.

Por ora, a ameaça de deixar o cargo “não passa de especulação”, segundo disse o próprio ministro à ISTOÉ. Amigos do ex-juiz dizem, porém, que ele realmente anda muito amuado. A questão é: até quando ele suportará engolir tantos sapos?

“Eu penso que o ideal é o policial prender o bandido e voltar vivo para casa” Sergio Moro, ministro da Justiça, defendendo uma política pacifista