Cultura

Monólogos de surdos


Foi um esforço tão grande para eliminar Nat Turner da história que, comparativamente, a luta de Nate Parker para fazer seu filme nem parece tão hercúlea. Sete anos de preparação e levantamento de fundos, US$ 10 milhões de orçamento – irrisórios, nos EUA, para o tamanho da produção -, 37 dias de filmagem. O Nascimento de Uma Nação estreou no começo do ano em Sundance e ganhou dois prêmios importantes – do público e especial do júri.

Desde a época, tem alimentado polêmica – seria (é) fundamentalista. Até na vida do ator e diretor Nate Parker se buscaram atitudes incriminadoras. Um caso de estupro, do qual ele foi absolvido quando jovem, voltou às manchetes. Não é que seja irrelevante, mas, de certa forma, para o filme, é. Em seu livro vencedor do Pulitzer – As Confissões de Nat Turner -, William Styron, mesmo sendo amigo do escritor e ativista negro James Baldwin, não se furta a descrever fantasias sexuais do escravo com mulheres brancas. O filme não vai por aí, embasado em documentos que provam que Nat era casado. Sua mulher, sim, sofreu a brutalidade dos brancos.

A polêmica deve se acirrar com a vitória de Donald Trump na eleição norte-americana. Seu discurso para devolver à América sua grandeza é próprio da supremacia branca, e atitudes racistas (contra latinos) não têm ajudado a livrar sua cara. E é por isso que vale lembrar alguns tópicos do debate sobre a voz do negro na Mostra. Participavam da mesa os atores Teka Romualdo e Thogun (o rapper) e os diretores Jeferson De e Juliana Vicente. “A cada chicotada que via (no filme), pensava no genocídio do jovem negro que ocorre hoje, e não apenas na periferia. Quando olho para TV e não me vejo representada, são novas chibatadas”, contou Teka. E Juliana – “É uma dor ancestral, e atual. A gente não vê porque não quer. Quando é filme de Hollywood, a gente se permite ficar comovido, mas isso acontece o tempo todo à nossa volta.”

Agora mesmo, Juliana faz um filme sobre Ruth de Souza, lendária atriz negra brasileira, ativa (e guerreira) desde os anos 1940. “É uma história linda, mas também tem sua dureza, porque, ao longo desses 70 anos, a Ruth nunca fez uma protagonista. E até hoje as pessoas lembram o acontecimento que foi a participação dela em Sinhá Moça, na Vera Cruz, e a repercussão do filme no Festival de Veneza.” “Nesse mercado, só posso entrar como traficante, dono do morro, estuprador”, reflete Thogun. Os papéis serviram como apresentação – e ajudaram a pagar as contas -, mas ele admite que já passou por muito constrangimento. Cenas que o envergonharam, mesmo em filmes de perfil mais artístico, como O Palhaço, de Selton Mello. Como diretor, Jeferson De não aprova muitas escolhas de Nate Parker. “O filme é barulhento demais. Preferiria algo mais delicado, mas a vitória do Trump é a prova de que o momento é de radicalismo. Ninguém está querendo dialogar. As partes só querem se ofender. Eu ainda acredito no caminho do meio, do diálogo. Estou fazendo um filme sobre (o abolicionista) Luís Gama que vai por aí.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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