Candidatos de direita à Presidência no Brasil, incluindo Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Romeu Zema (Novo), prometem importar o controverso “modelo Bukele” de segurança pública de El Salvador. A proposta de construir mega-prisões e endurecer o combate ao crime visa centralizar o tema em suas campanhas para as eleições de outubro, seguindo a influência do presidente salvadorenho Nayib Bukele.
As propostas dos políticos brasileiros refletem a ascensão de Bukele, que conseguiu reduzir drasticamente os índices de criminalidade em seu país, apesar de ser criticado por restringir direitos civis. Esse modelo tem inspirado abordagens semelhantes em toda a América Latina.
O que aconteceu
- Candidatos de direita no Brasil propõem replicar o “modelo Bukele” de El Salvador, focando na construção de prisões e endurecimento do combate ao crime.
- Lideranças como Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Romeu Zema (Novo) viajaram a El Salvador para conhecer o sistema, incluindo o mega-presídio Cecot.
- Apesar da queda de criminalidade em El Salvador, a abordagem de Bukele é criticada por restringir direitos civis e é vista com ressalvas por especialistas sobre sua aplicabilidade no complexo contexto brasileiro.
Nas últimas semanas, candidatos de direita na Colômbia e no Peru também triunfaram em eleições presidenciais, pautando suas campanhas fortemente no combate ao crime, o que demonstra uma tendência regional.
No Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) viajaram a El Salvador. Eles visitaram o mega-presídio Cecot, com capacidade para quarenta mil detentos, buscando conhecer o sistema e angariar apoio eleitoral para medidas mais duras contra o crime organizado.
Flávio Bolsonaro, que tem o melhor desempenho nas pesquisas entre os pré-candidatos de direita na corrida presidencial brasileira, apresentou um plano de segurança pública na semana passada. O projeto inclui a construção de “cinco novos presídios de segurança máxima nos moldes do modelo de El Salvador”.
Por que o “modelo Bukele” atrai políticos brasileiros?
“Mais presídios e menos bandidos soltos”, prometeu o senador em evento público, ecoando seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que também fez campanha com um discurso duro contra a criminalidade. O senador Flávio Bolsonaro, junto com seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, já se reuniu com o ministro da Segurança de Bukele em El Salvador no ano passado. Nikolas Ferreira, o deputado federal mais votado do Brasil em 2022, também participou de encontros.
A admiração pela abordagem de Nayib Bukele em matéria de segurança pública está se tornando um consenso entre as lideranças conservadoras do Brasil. Romeu Zema elogiou a abordagem “pragmática” de El Salvador em entrevista à Reuters no início deste ano.
“Em El Salvador… bandido fica preso. Aqui no Brasil, bandido fica solto”, disse Zema. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também sugeriu que El Salvador tem lições a oferecer ao Brasil, apesar das grandes diferenças entre os países.
“Mal comparando, vamos ver o que o Bukele fez em El Salvador, o que era e o que é”, disse Tarcísio em evento público no final do ano passado, defendendo medidas mais rígidas para conter o crime. “Que a gente comece realmente a enfrentar o crime com a dureza que ele merece ser enfrentado.”
Quais os pilares da estratégia salvadorenha?
A abordagem de Bukele no combate ao crime combinou um estado de emergência que já dura há anos, prisões em massa, policiamento com apoio militar e a enorme prisão Cecot. Seu governo afirma que a estratégia provocou uma queda histórica nos homicídios e quebrou o domínio das gangues que antes aterrorizavam El Salvador.
Contudo, a repressão também restringiu direitos constitucionais, a liberdade de imprensa e a independência do Judiciário. Grupos de direitos humanos acusaram as autoridades salvadorenhas de prisões arbitrárias generalizadas e tortura. O governo de Bukele nega os abusos e afirma que medidas extraordinárias foram necessárias para desmantelar as gangues.
Em toda a América Latina, o apelo político do modelo Bukele tem sido evidente. A Costa Rica recebeu o presidente salvadorenho em janeiro para inaugurar sua própria prisão no estilo Cecot, construída com apoio salvadorenho. A presidente Laura Fernández assumiu o cargo no mês passado prometendo uma “guerra pesada contra o crime organizado”.
O modelo Bukele seria aplicável no Brasil?
Na Colômbia, o presidente eleito Abelardo de la Espriella fez campanha com um plano para dez novas mega-prisões, gerando comparações na mídia com o líder salvadorenho, o que ele rejeitou. No Peru, onde as preocupações com a segurança dominaram o pleito presidencial deste ano, a provável presidente eleita Keiko Fujimori fez campanha por uma “guerra frontal” contra o crime, leis antiterrorismo mais rígidas e um papel maior para as Forças Armadas.
“Em toda a região, eleitores que enfrentam insegurança crônica e crescente desconfiança estão recompensando líderes que prometem controle decisivo”, escreveu Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, no periódico Rusi Journal neste mês. Ele alertou que “estratégias de mão pesada carregam riscos bem conhecidos quando são mal planejadas e politicamente recompensadas”.
Esses riscos podem ser especialmente agudos no Brasil, onde o encarceramento em massa não conseguiu conter o crime organizado. Os dois maiores grupos criminosos do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), cresceram de gangues prisionais para organizações de tráfico de drogas nacionais e transnacionais.
O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, que quase quadruplicou entre 2000 e 2024, chegando a cerca de 909.000 detentos, operando bem acima de sua capacidade, de acordo com o World Prison Brief da Universidade de Londres.
“O Brasil é muito mais complexo do que El Salvador, e seria muito difícil implementar algo assim aqui”, disse Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
*Com Reuters