Internacional

Missão quase impossível

Boris Johnson tem cem dias para viabilizar o Brexit. O sucesso da negociação definirá seu mandato

Crédito: VICTORIA JONES

PROTOCOLO Boris Johnson e a rainha Elizabeth II: convite oficial para assumir a chefia do governo britânico (Crédito: VICTORIA JONES)

Boris Johnson assumiu o posto de primeiro-ministro da Inglaterra na quarta-feira 24 em meio à forte insegurança política e econômica, já sob pressão para concretizar a separação com a União Europeia (UE) até o dia 31 de outubro — e viabilizar o seu governo. Desde 2016, quando o Brexit foi aprovado em referendo, a política britânica vive uma crise sem fim. A sua nomeação é mais um capítulo nesse conflito. Renova a disposição para as negociações, mas não oferece solução para o impasse.

Ele chegou ao governo após vencer a disputa interna no Partido Conservador contra o ministro do exterior, Jeremy Hunt. Assim que foi escolhido adotou um tom conciliador, foi saudado pela antecessora Theresa May, prometeu “concretizar o Brexit, unir o país e derrotar Jeremy Corbyn”, em referência ao líder do Partido Trabalhista. A atitude moderada contrasta com a sua trajetória. Johnson é conhecido por causar divisões em seu partido, está na linha de frente dos eurocéticos e liderou a campanha do Brexit desde o início, quando foi criticado por declarações exageradas e polêmicas. Nos últimos anos criou atritos com May, de quem foi secretário de Relações Exteriores, ao apontar a “fraqueza” nas negociações com a UE. Perdeu o posto, mas ganhou apoio do presidente do EUA, Donald Trump, que reafirmou nos últimos dias sua admiração pelo novo premiê, chamando-o de “Trump britânico”. A aproximação é tratada com cuidado. Johnson procura evitar associar a sua imagem com a do americano, pois isso atrapalha a negociação com os conservadores, com os europeus e dificulta o caminho no Parlamento.

“Vamos cumprir a promessa feita pelo Parlamento e deixar a UE em outubro, incondicionalmente”  Boris Johnson, primeiro-ministro

PROTESTOS Manifestantes marcham em Londres contra
o Brexit: agora o premiê é o rosto da separação

Apesar da aparência exótica, do gosto pela polêmica e comportamento imprevisível, o novo primeiro-ministro é um político que seguiu a trajetória padrão da elite britânica. Estudou nos melhores colégios e atuou no Parlamento após encerrar uma controversa carreira de jornalista. Como governante, adotou um tom mais moderado nos dois mandatos como prefeito de Londres, antes de enveredar para a fanfarra populista do Brexit. Apesar das dúvidas sobre suas ações, analistas acreditam que ele pode adotar uma política mais confiável e menos agressiva. Os líderes europeus parabenizaram o novo premiê de maneira protocolar, mas eles têm se mostrado preocupados e refratários a novas concessões. Admitem adiar a separação, marcada para outubro, mas para isso exigem propostas concretas dos britânicos que não afetem termos já acordados — entre eles um prazo de quase dois anos para a eliminação das vantagens alfandegárias e o pagamento de uma multa de 39 bilhões de libras. Para isso, Johnson precisaria contradizer seu discurso de campanha — ele afirmou nas últimas semanas que se recusa a fazer esse pagamento. A sua principal promessa é a de levar adiante a separação mesmo sem entendimento. Mas as consequências para o país devem ser severas. O Banco da Inglaterra, equivalente ao Banco Central brasileiro, estima que a economia nesse caso possa encolher 8% e a libra perder até um quarto do seu valor. Os preços para o consumidor seriam afetados, já que quase 30% dos produtos alimentícios são importados da Europa. Isso tem feito boa parte dos conservadores — e a maioria do Parlamento — defenderem uma saída negociada.

Tudo vai depender de como Boris Johnson conduzirá o divórcio. A sua estratégia, aparentemente, é forçar os europeus a renegociarem os termos do acordo fechado por Theresa May. Mas a tática é arriscada. Eles podem não aceitar, e um “hard” Brexit vai afetar mais os britânicos que os europeus.

Outra possibilidade é o Parlamento rejeitar o Brexit não negociado. Além de parlamentares da oposição, rebeldes do próprio Partido Conservador afirmam que podem apoiar uma moção de censura se o novo premiê não conseguir um acordo vantajoso. O impasse pode levar o primeiro-ministro a convocar eleições antecipadas, mas aí resta a dúvida se a população vai eleger um novo Legislativo que dê apoio popular à saída unilateral da União Europeia. Isso talvez comprometa a sua própria posição. Se o seu partido for derrotado, ele se tornará um dos premiês mais breves da história do país. É uma aposta muito arriscada para uma administração recém-investida. O Brexit simboliza a maior crise que o país enfrentou desde a Segunda Guerra e já derrubou dois premiês, ameaçando o mandato de um terceiro. Por enquanto, o establishment britânico continua preso na armadilha da separação.

EIS BORIS
Novo premiê teve uma formação no melhor estilo da elite britânica

Divulgação

 

PRINCIPAIS CARGOS
• Prefeito de Londres por oito anos
• Ministro das Relações Exteriores
• Parlamentar em três mandatos

FORMAÇÃO
• Nasceu em Nova York, em 1964
• Estudou na Eton, centenária e tradicional escola interna britânica para meninos
• Formou-se na Universidade de Oxford. Lá, fez parte do Bullingdon Club, clube exclusivo para homens conhecido pelas festas regadas a bebidas alcoólicas
• Foi jornalista do Times e correspondente em Bruxelas do Daily Telegraph

ESCRITOR
• É autor, entre outras obras, de 72 Virgins (72 Virgens), ficção sobre a tentativa de assassinato de um presidente americano em Londres

 

 

 

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