Internacional

Miséria peruana

O precário sistema de saúde do Peru entrou em colapso. O paupérrimo país tem apenas mil leitos de UTI e as pessoas são atendidas na rua

Crédito: ERNESTO BENAVIDES / AFP
CRISE Em Iquitos, cidade com alta taxa de pobreza, profissionais levam um cadáver de uma vítima de Covid-19 (acima) e pessoas fazem fila para conseguir refil de oxigênio a seu parentes (abaixo) (Crédito:CESAR VON BANCELS)

A Covid-19 tem funcionado como um termômetro que mede a capacidade de articulação política dos países e a eficiência das suas políticas públicas em todas as suas esferas, principalmente na saúde. Sob o infalível escrutínio do vírus, a estrutura social de algumas nações vem se revelando verdadeiros propagadores da Covid-19. É o caso do Peru, que tem como principal obstáculo ao seu desenvolvimento a corrupção sistêmica e a pobreza extrema da população. Nesse e em outros aspectos, a semelhança com o Brasil é latente. Com um sistema de saúde precário, é o segundo país da América Latina com o maior número de infectados, atrás apenas do Brasil. Proporcionalmente ao tamanho de sua população, até nos supera: na quarta-feira 20, eram 3.237 contaminados a cada milhão de habitantes, mais que o dobro do Brasil. Diante da precária condição dos hospitais públicos, a situação é alarmante: são apenas 1.000 leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em todo o país e apenas 3,2% do PIB investidos na saúde. Os doentes já se aglomeram nos corredores das instituições e até nas ruas à espera por atendimento.

+ SP deve receber cinco milhões de doses de vacina chinesa em outubro, diz Doria

GETTY IMAGES

Os números assustam tendo em vista as medidas de distanciamento social tomadas pelo governo peruano desde o início da pandemia, entre as mais rígidas da América Latina. No dia 15 de março, o presidente de centro-direita Martín Vizcarra decretou estado de emergência e desde então a nação vive sob fechamento de fronteiras e toque de recolher entre seis da tarde e quatro da manhã. Os carros particulares são praticamente proibidos de trafegar nas ruas e as pessoas só podem sair de casa por razões médicas ou para comprar alimentos. O lockdown foi estendido até o final do mês e as escolas só devem abrir em 2021, mas, mesmo assim, não surtiram os efeitos desejados para conter a disseminação do vírus.

Um dos principais obstáculos para garantir a eficiência do isolamento social é a cultura dos peruanos, semelhante à dos brasileiros: é difícil convencer os seus 31 milhões de habitantes, acostumados com a proximidade física, a ficarem distantes uns dos outros. Para se ter ideia, mais de 60 mil pessoas foram presas por desrespeitarem o lockdown. Além disso, a população está acostumada a comprar os alimentos nos mais de 300 mercados de bairro e com comerciantes informais de rua. Como a fiscalização é rara nesses locais, eles se tornaram ambientes com alto índice de contágio. Em testes realizados pelo poder público, detectou-se que 79% dos vendedores estavam infectados.

Quase 80% da população vive na informalidade e é difícil convencer as pessoas a ficarem em casa

A pobreza dissemina o vírus

Outro fator crítico é a configuração do mercado de trabalho, que incentiva as famílias a saírem às ruas. Como quase 80% da população vive na informalidade, há a necessidade de trabalhar para ganhar hoje o dinheiro que paga as contas do fim do mês. A falta de liquidez é alta e mais de 40% dos cidadãos não têm acesso a contas bancárias. A situação é ainda mais delicada devido à pobreza do país. Assim como no Brasil, grande parte da população peruana mora em ambientes pequenos, fechados e insalubres. O saneamento básico também é crítico: quase um milhão de indivíduos não têm acesso à água corrente. Além da pressão da população de baixa renda, o governo enfrenta o lobby de empresários e classes mais favorecidas a cobrança para a retomada das atividades industriais.

Suspeito de subnotificar o número de infectados, o governo é considerado um desastre no combate à pandemia e não tem a confiança necessária da população, o que impede que ela atenda aos seus apelos. Um dos principais equívocos do presidente foi a aplicação de testes rápidos no começo da pandemia, diagnosticando erroneamente como negativos os casos dos pacientes que estavam com o vírus. No Peru, a pobreza é o principal vetor da Covid-19.

Em resposta a esta reportagem, a Embaixada do Peru enviou a seguinte carta à Redação da IstoÉ:

CARTA A REVISTA ISTOÉ

Veja também

+Cidadania divulga calendário de pagamentos da extensão do auxílio emergencial

+MasterChef: competidora lava louça durante prova do 12º episódio’

+ Veja mudanças após decisão do STF sobre IPVA

+ 12 razões que podem fazer você menstruar duas vezes no mês

+ Arqueólogo leva 36 anos para montar maquete precisa da Roma Antiga

+ Jovem é suspeita de matar namorado com agulha de narguilé durante briga por pastel

+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago

+ Por que não consigo emagrecer? 7 possíveis razões

+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?

+ Educar é mais importante do que colecionar

+ Pragas, pestes, epidemias e pandemias na arte contemporânea