Brasil

‘Minha dor não é mimimi’, diz pai de vítima da covid à CPI da Covid


O filho de Marco Antônio do Nascimento Silva, Hugo, faleceu de covid em 2020. Emocionado, o depoente disse ter sido doloroso ouvir o presidente Jair Bolsonaro perguntar “e daí” sobre as vítimas da doença. Quando o País ultrapassou a China na quantidade de mortos pelo coronavírus, no ano passado, o chefe do Executivo disse: “E daí? Sou Messias, mas não faço milagres”.

Marco relatou ter sofrido com a hostilidade reservada pelo presidente às vítimas da covid. “Eu escutei no fundo do meu coração: ‘E daí que seu filho morreu?”, disse. “Acho que nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do País”, completou.

O depoente disse ter ouvido a frase de Bolsonaro apenas três dias após a morte de seu filho. Ele também esteve presente na praia de Copacabana em 11 de junho de 2020, dia em que apoiadores do presidente invadiram e hostilizaram um protesto que colocava cruzes na areia em memória das vítimas da doença. “Era muita dor, muita tristeza. Quando vi aquela cena (de um homem derrubando as cruzes), pensei: ‘será que esse cara não vê que está pisando na cova do meu filho?”

“Não admito que outros pais achem isso normal, não é normal”, disse Marco. “Minha dor não é ‘mimimi'”.

Para Marco, o início da CPI da Covid foi um alívio. Ele relata ter sido um alento pensar que nem todas as autoridades diriam “e daí” para os óbitos em decorrência da pandemia. “O trabalho feito aqui, senhores senadores, eu tenho um grande agradecimento. Para mim, não importa o partido político dos senhores, o que importa é que meu Hugo não volta mais, mas tenho outros filhos e quatro netinhos”.

Com a voz embargada, Márcio narrou os últimos dias de vida de seu filho, quando ele começou a sentir cansaço e falta de ar. Ele disse ter acompanhado Hugo no hospital até o falecimento, e lembrou com pesar do dia em que teve de reconhecer o corpo do filho. “A última vez que o vi, ele estava dentro de um saco”.

O depoente criticou a postura do presidente e a demora para a aquisição de vacinas. Segundo ele, o que dói não é apenas o luto, mas o que veio após a morte de Hugo: “o deboche, a irracionalidade das pessoas, inclusive de amigos”. “Eu daria a minha vida para o meu filho ter chances de ser vacinado”, disse.


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