Ao aceitarem se candidatar ao governo e ao Senado em São Paulo, os ministros da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e do Planejamento, Simone Tebet (MDB), transferiram o foco da negociação de palanques do presidente Lula (PT) para Minas Gerais.
No segundo maior colégio eleitoral do país, a preferência admitida do petista pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD) e a indefinição do próprio quanto a concorrer ou não ao governo desafiam o grupo a correr para formar uma chapa competitiva a tempo do prazo para as filiações partidárias.
O fator mineiro
Com o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas e a projeção de mais uma eleição presidencial acirrada, a preocupação prioritária do grupo de Lula é não perder terreno em relação a 2022, quando o presidente bateu Jair Bolsonaro (PL) por 2,1 milhões de votos.
Na disputa, o petista ganhou 4,3 milhões de votos em São Paulo em relação ao desempenho do próprio Haddad no pleito anterior, e conquistou 50,20% dos votos em Minas Gerais, garantindo uma vantagem apertada no estado que ‘decide’ quem sobe a rampa do Palácio do Planalto há quase oito décadas — no período, apenas Getúlio Vargas se elegeu presidente, em 1950, sem ter maioria dos mineiros.
Mesmo com a ampla vantagem construída no Nordeste, marqueteiros e pesquisadores consideram que os números do Sudeste foram cruciais para o resultado nacional. Em “Biografia do Abismo” (HarperCollins Brasil, 2023), os pesquisadores Felipe Nunes e Thomas Traumann lembraram que, sempre que um presidenciável perdeu votos em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro em relação à eleição anterior, ele foi derrotado.
“O que fez a diferença para Lula em 2022 foi que ele obteve, nos três maiores colégios eleitorais, mais votos do que Haddad conseguira no pleito anterior (…) Se em 2018, o PT havia ficado circunscrito a pequenas e médias cidades, em 2022 houve uma mudança no padrão de votação nas metrópoles Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A diferença total de votos nessas capitais somadas dá 1,57 milhão de votos a menos para Bolsonaro e a mais para o PT em relação a 2018“, escreveram.

Ministro da Fazenda, Fernando Haddad: menos votos do que Lula em São Paulo quando concorreu à Presidência
A pouco mais de seis meses para tentar um quarto mandato, porém, o presidente tem mais razões para preocupação na região que concentra mais de 40% dos brasileiros. A rodada mais recente da pesquisa Genial/Quaest mostrou que, nela, a desaprovação ao governo chegou a 58%, contra 37% de aprovação.
Entre os mineiros, pesquisa Real Time Big Data mostrou uma desaprovação de 55% ao trabalho de Lula, contra 42% de aprovação. Nos cenários de disputa eleitoral, o mandatário empatou tecnicamente em intenções de voto com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
À espera de Pacheco
A preocupação do presidente com os palanques de São Paulo e Rio de Janeiro gerou não apenas o convencimento de Haddad e Tebet a formarem o palanque paulista, como a garantia de apoio ao prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes (PSD), ao governo do estado sem sequer ter o PT na vice — que será ocupada por Jane Reis (MDB).
Em Minas, no entanto, Lula insiste há mais de um ano para que Pacheco seja seu candidato ao Executivo. Rival do bolsonarismo, mas distante da esquerda, o ex-presidente do Senado se aproximou do Planalto no mandato tornou-se figura cativa em agendas do mandatário no estado, dando sinais de que abraçaria as pretensões do petista.
Desde que foi preterido pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, para a indicação presidencial à vaga aberta no STF (Supremo Tribunal Federal), no entanto, Pacheco passou a manifestar a intenção de deixar a política ao final de seu mandato parlamentar. Lula ignorou os sinais e declarou que convenceria o senador — o mesmo que disse sobre Haddad.
Sem se dar ao mesmo luxo, o PT mineiro avaliou alternativas. Nomes de fora da política, como a reitora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Sandra Goulart, e o ex-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José de Alencar, foram cortejados, mas não empolgaram nas pesquisas. Mesmo com bons números, por sua vez, o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) não vingou nas preferências petistas para repetir a parceria de 2022 com o partido.

Alexandre Kalil: ex-prefeito de BH se distanciou do apoio de Lula ao governo mineiro
A falta de alternativas viáveis revela como a crença por Pacheco se mantém. O senador, no entanto, corre contra o tempo para encontrar um partido onde possa lançar a candidatura — sua atual legenda, o PSD, tem o vice-governador Matheus Simões na posição e não dará palanque a Lula — e enfrenta dilemas em todos os caminhos.
No mais óbvio, um retorno ao MDB, o plano esbarra na pré-candidatura do ex-vereador Gabriel Azevedo; no União Brasil, do aliado Davi Alcolumbre (atual presidente do Senado), a indefinição é quanto à possibilidade de apoio do partido a Flávio no plano nacional; no PSB, que garante alinhamento a Lula, a falta de estrutura estadual pesa contra.
O prazo é 4 de abril, data-limite para que candidatos estejam filiados às siglas pelas quais disputarão as eleições.
Senado tem Marília favorita e incógnita por 2ª vaga
Se o aceite de Tebet garantiu a Lula a primeira vaga na composição da chapa ao Senado em São Paulo, mas manteve a segunda desocupada — a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, é a principal cotada –, o cenário mineiro é similar.
Prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), admitiu à IstoÉ no final de 2025 a intenção de se afastar do cargo para concorrer ao Senado e, desde então, trabalha para isso. A seu favor, além da aprovação municipal, as boas relações com nomes cotados pelo petismo ao governo (Pacheco e Kalil). Na RealTime Big Data mais recente, a petista registrou 20% das intenções de voto, na primeira posição para a disputa.
Para a definição do segundo nome, há um imbróglio. O único incluído no campo governista neste levantamento foi o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), quarto colocado com 11% das intenções de voto. Bem relacionado com Lula, ele vive dilema similar a Pacheco quanto à permanência no atual partido, que caminhou para o antagonismo ao PT no estado. Silveira também é cortejado pelo PSB.