Edição nº2604 22/11 Ver edições anteriores

Millôr e a polarização

No atual ambiente tóxico e polarizado do Brasil, que asfixia o debate público e criminaliza o pensamento independente, é bom lembrar de gênios iluminados que nadaram contra a corrente e impuseram suas ideias em momentos sombrios. O britânico Thomas Paine é um ótimo exemplo. Teve um papel vital na criação da democracia americana, utilizando panfletos incendiários para mobilizar as massas — seu Senso Comum é considerado até hoje um dos maiores best-sellers americanos. Em seguida, mudou-se para a França, quando atuou na Revolução Francesa e escreveu os Direitos do Homem. Quase morreu guilhotinado, e ainda foi antagonista do pai do movimento conservador, o irlandês Edmund Burke.

Contra as patrulhas, os verdadeiros democratas
deveriam sair a campo para defender
as vozes discordantes

Paine foi a grande referência de Barack Obama, quando este rompeu o ciclo de exclusão racial nos EUA. Também era a maior inspiração de outro britânico contemporâneo, Christopher Hitchens, que se projetou nos anos 1990 com uma nova geração de escritores e poetas. Hitchens era um jornalista e crítico talentoso, e renegou sua origem esquerdista quando o amigo Salman Rushdie foi condenado à morte pelo extremismo islâmico. Passou a ser um defensor intransigente da liberdade e combateu o obscurantismo do discurso progressista. Com isso, aproximou-se dos “falcões” americanos, mas sem perder a capacidade analítica e o humor fino. Apesar do horror que causava na esquerda, era respeitado. Outro intelectual que enfrentou seu tempo é George Orwell. Inglês, denunciou os efeitos nocivos do Império Britânico e a miséria na Europa no começo do século XX. Contra a corrente, popularizou-se ao denunciar o totalitarismo de esquerda, além de prever a opressão tecnológica dos tempos modernos.

Os verdadeiros democratas deveriam sair a campo hoje para defender as vozes discordantes. Isso não poderia valer apenas para essas figuras brilhantes que precisaram passar pelo purgatório político de sua época e romperam a barreira do pensamento único. No Brasil, ninguém personifica melhor essa atitude do que Millôr Fernandes. Ele cresceu na ditadura varguista, enfrentou o Exército nos anos 70 e nunca se curvou à pressão de turmas ou à opressão da opinião pública. Abriu o Pasquim para desafiar os militares e o fechou quando ia ser instrumentalizado. Foi independente no verdadeiro sentido da palavra. Recusava o rótulo de intelectual e não arrotava sabedoria — nem mesmo com toda sua erudição. Com toda essa bagagem, aproveitava a vida e um de seus maiores orgulhos era ter inventado o frescobol. Livre pensar é só pensar.


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