Não faz muito tempo que a exibição de armas de fogo em público ficava restrita a bandidos ou a filmes de faroeste. Entretanto, um fenômeno vem ocorrendo depois da eleição de Jair Bolsonaro. Com uma visão distorcida da realidade, o presidente, seus filhos, ministros e apoiadores disputam espaço nas mídias sociais com traficantes e assaltantes de banco para ver quem mostra a pistola ou o fuzil de maior calibre. Metralhadoras também são destaques nesse submundo que contaminou a política nacional. O secretário especial de Cultura, Mário Frias, é o exemplo mais gritante. Em companhia de três assessores, André Porciúncula, Hélio de Oliveira e Felipe Carmona, ele apareceu armado numa foto. A disposição armamentista de Frias é inversamente proporcional à sua letargia e incapacidade de gestão. O ator Caio Blat questionou o secretário. “Isso é cultura para vocês? Isso é a falência da cultura, o vexame de quem não tem nada para oferecer além de armas”, disse. Na mesma postagem, diversos artistas se manifestaram condenando a foto, como Paulo Betti e Zezé Motta. Segundo denúncia de servidores da Cultura, o ex-ator despacha e pratica agressões verbais com uma arma na cintura. O clima na secretaria é de assédio e medo.

Os pistoleiros do governo se espelham no chefe máximo, o capitão. Durante um evento em Belo Horizonte, Bolsonaro carregou uma criança, de seis anos, nos ombros, que empunhava uma réplica de fuzil. Repetiu a cena em Peruíbe, no litoral de São Paulo. Conforme nota divulgada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças não distinguem armas falsas das reais: “O que está em jogo é a vida e a integridade física e emocional de milhares de crianças e adolescentes”. O presidente discorda. Ele parabenizou os pais do garoto e disse que aquilo era um “exemplo de civilidade, patriotismo e respeito”. Em outra oportunidade, ironizou quem defende a compra de feijão. “Quando alguém invadir a tua casa, tu dá tiro de feijão nele”, afirmou. Segundo a dirigente do Instituto Igarapé, Melina Risso, “Bolsonaro colocou o discurso armamentista no centro da agenda nacional, sempre com uma retórica distorcida de liberdade associada ao caos e ao autoritarismo”.

A apologia que sustenta a fala beligerante do presidente está baseada nas suas convicções militares e no fundamentalismo do guru Olavo de Carvalho, outro que gosta de exibir seu arsenal. No ambiente militar há discordância e muitos entendem que a proteção à população civil deve ser prioridade do Estado. Olavo, no entanto, escreveu que “quanto mais armas o povo compra nas lojas, menos crimes acontecem”. Não há base científica que justifique a opinião do ideólogo. Na tentativa de conter a apologia ao uso de armas, o deputado Alencar Santa Braga apresentou o Projeto de Lei 2421/20, que pune com detenção e multa quem fizer exibição ostensiva nas redes sociais. A Comissão de Segurança Pública rejeitou o projeto, que não deve prosperar porque a “bancada da bala” é muito forte no Congresso.

EXIBICIONISMO Eduardo Bolsonaro e o irmão Carlos mostram suas armas mortíferas; Roberto Jefferson e Olavo de Carvalho demonstram a mesma vontade exibicionista

Em casa, a cultura bélica é bem assimilada pelo clã. O vereador Carlos e o deputado Eduardo são conhecidos praticantes de tiro em um clube nos EUA apontado como celeiro de nazistas. O 88 Tactical tem no seu logotipo uma águia parecida com o brasão do partido nazista alemão e o número 88 seria o símbolo de “Heil Hitler” – a letra H, que inicia a saudação dos nazis, é a oitava do alfabeto. Eduardo é o mais entusiasmado com o tema e o responsável pelo lobby armamentista do governo. Inclusive esteve na Ucrânia para intermediar negócios em julho. No Senado há um pedido de investigação para saber quais os interesses do 03 nos acordos com empresas estrangeiras. Já Carlos foi visto praticando tiro no mesmo clube de Florianópolis frequentado por Adélio Bispo de Oliveira, o sujeito que esfaqueou seu pai. Mais discreto, o senador Flávio também apoia a cultura armamentista. Ele defende um projeto que amplia o uso de armas por advogados. Segundo depoimento de parlamentares, Flávio já participou de sessões no Senado portando um revólver. O filho caçula, Jair Renan, segue o comportamento tresloucado da família.

O caso que mais evidencia o uso fisiológico e ideológico do discurso armamentista do governo é o do ex-deputado Roberto Jefferson. Em 1998, ele se apresentava como autor da lei de desarmamento no Brasil e 20 anos mais tarde foi preso ao aparecer em um vídeo empunhando duas pistolas e ameaçando o embaixador da China, Yang Wanming. Em outro momento, o descontrolado ex-deputado incentivou que as pessoas usassem revólveres contra quem tentasse fechar alguma igreja durante a pandemia. Antes de ser preso, Jefferson perdeu o direito a posse de arma, após decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. Mas seu discurso ainda empolga os gabinetes do ódio e merece aplausos de Bolsonaro e de seus ministros e filhos.