Milhares de pessoas protestavam pelas ruas de Santiago e por outras cidades do Chile em resposta a uma convocação de greve geral em meio aos protestos em massa desatados há seis dias com 18 mortos, apesar dos gestos de conciliação do presidente Sebastián Piñera.

Estudantes, aposentados, professores, funcionários públicos e membros dos serviços de saúde pública acolheram o chamado da Central Unitária de Trabalhadores (CUT) e outras vinte organizações sociais, em meio ao estado de emergência e o toque de recolher em vigor no país há quatro dias, na pior revolta social no Chile em pelo menos três décadas.

Três pessoas, entre eles uma criança de 4 anos, se somaram nesta quarta-feira à uma lista oficial de 18 mortos, cinco deles por ação das forças de ordem.

Uma criança e um homem morreram quando um motorista embriagado jogou seu veículo contra um grupo de manifestantes, enquanto outra pessoa morreu depois de ter sido agredido por policiais, segundo a denuncia de seus familiares, de acordo com o balanço entregue pelo subsecretário do Interior, Rodrigo Ubilla.

As organizações sociais querem que o governo derrogue o estado de emergência e “devolva os militares a seus quartéis”, junto com históricos pedidos por melhorias nas aposentadorias, mais recursos para a saúde e a educação pública, entre outras demandas.

A mobilização afetava parcialmente as operações de cobre da estatal Codelco, a maior produtora mundial de Cobre, que assegurou que havia conseguido manter a continuidade operacional.

Os sindicatos concordam que o descontentamento social em um Chile com muitas desigualdades que estourou na sexta-feira com fortes protestos pelo aumento – depois suspenso – de 3,75% do preço da tarifa de metrô em Santiago.

O protesto contra o aumento da passagem de metrô derivou em um movimento heterogêneo e sem liderança identificável que expõe outras demandas, principalmente um aumento das baixíssimas aposentadorias do sistema privado que se mantêm como herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

– Da guerra ao perdão –

Em meio à indignação popular que parece longe de ser aplacada, Piñera pediu “perdão” na noite desta terça-feira e reconheceu sua “falta de visão” para antecipar a revolta, mudando de tom dois dias depois de afirmar que o país está “em guerra”.

O presidente também anunciou um pacote de medidas, entre elas melhorar as aposentadorias dos mais pobres, suspender um aumento de 9,2% das contas de luz, complementar o salário mínimo, estabelecer um seguro para a compra de medicamentos e aumentar os impostos de setores com maior renda.

Também sugeriu reduzir os altos salários da administração pública, o número de parlamentares e limitar as reeleições.

As medidas, contudo, não satisfizeram grande parte da população.

“Achei uma piada. Ele acha que com isso vai acalmar o povo? Não, não vai acalmar, isso vai continuar, porque não vamos continuar calados”, disse à AFP, Ximena Gutiérrez.

“Ele (Piñera) sempre foi mentiroso para dizer as coisas, e agora que que tem um problema, está pedindo perdão”, afirma Carlos Morales, de 23 anos.

Um estudo divulgado nesta quarta-feira pela empresa Ipsos, indica que 67% dos entrevistados “se cansaram de suas condições de vida em matéria econômica, de saúde e aposentadorias”, que percebem como “desiguais e injustas”.

Os sindicalistas exigem que se instaure uma agenda social desenvolvida junto às organizações de base.

“O importante é que haja uma mudança radical de nossa institucionalidade política, que está sendo questionada, está em crise. Hoje veremos a resposta da sociedade civil se está de acordo ou não com o anúncio do presidente”, disse à rádio Cooperativa Camila Vallejo, ex-líder estudantil e deputada do Partido Comunista.

– Quarta-feira de desafios –

Durante a madrugada, Santiago e outra dezena de cidades viveram o quarto toque de recolher desde que o conflito começou. Cerca de 20.000 militares e policiais realizaram controles a veículos e pessoas, enquanto foram registrados distúrbios e acidentes isolados.

Centenas de chilenos residentes em países como Argentina, França e Espanha também foram às ruas com bandeiras e lenços para apoiar as manifestações.

O papa Francisco manifestou sua preocupação pela crise e pediu que “encontrem soluções” por meio do diálogo.