Milei apresentará ao Congresso linhas gerais da segunda metade de seu mandato

Milei chega ao início do novo ciclo legislativo após um 2025 turbulento, marcado por denúncias de corrupção contra funcionários e episódios de instabilidade cambial

Milei apresentará ao Congresso linhas gerais da segunda metade de seu mandato

O presidente da Argentina, Javier Milei, iniciará neste domingo (1º) o período legislativo com um discurso perante o Congresso, no qual traçará as linhas gerais da segunda metade de seu mandato e delineará uma nova etapa de reformas de seu projeto libertário.

Esta alocução, marcada para as 21h00 (mesmo horário em Brasília), definirá as prioridades do Executivo para o ano, com iniciativas previdenciárias, fiscais, penais e eleitorais do que o presidente ultraliberal define como “o governo mais reformista da história”.

Milei chega ao início do novo ciclo legislativo após um 2025 turbulento, marcado por denúncias de corrupção contra funcionários e episódios de instabilidade cambial.

No entanto, sua vitória nas eleições legislativas de outubro lhe permitiu ampliar sua presença no Parlamento e avançar com o programa. Na sexta-feira, o Congresso aprovou a reforma de flexibilização trabalhista apesar da rejeição dos sindicatos, que já convocaram quatro greves gerais desde que Milei assumiu o poder em dezembro de 2023.

“Seu movimento político é bastante punk”, de modo que “a agenda de reformas para ele é necessária” para sustentar seu modelo econômico, analisa o cientista político Pablo Touzón.

– Grande “resgate” –

Na esfera internacional, Milei mantém um firme alinhamento aos Estados Unidos e Israel e apoia incondicionalmente seu aliado Donald Trump. No sábado, ele celebrou a operação de ambos os países contra o Irã e renovou as acusações de participação iraniana no atentado contra a associação judaica AMIA em 1994.

Para Touzón, em meio à instabilidade de 2025, o governo de Milei teve “dois grandes resgates”: o apoio financeiro do governo Trump e o respaldo eleitoral da sociedade argentina nas eleições legislativas, nas quais seu partido A Liberdade Avança obteve 40% dos votos.

Este resultado consolidou o poder do presidente, que havia chegado ao cargo com uma bancada minoritária. A isso se soma, segundo o analista, uma oposição fragmentada que não conseguiu construir alternativas em dois anos.

Segundo a consultoria AtlasIntel, Milei é hoje o dirigente com melhor imagem positiva do país, com 41,5% de aprovação e 55,3% de rejeição.

Ele conseguiu reduzir a inflação e isso “é um grande avanço”, opinou Ariel Tarquis, um estudante de 24 anos que, entretanto, questionou iniciativas como a reforma trabalhista.

O mandatário também obteve a aprovação da Lei de Modernização Trabalhista, que reduz indenizações, permite pagamentos de salários em bens ou serviços e limita o direito de greve.

Além disso, desde dezembro, seu governo sancionou o orçamento nacional, autorizou a regularização de poupanças em dólares e reduziu a responsabilidade penal para 14 anos, com apoio parcial de governadores da oposição peronista.

Para Touzón, o presidente “começa o ano melhor do que nunca”, com uma oposição enfraquecida e uma base governista coesa, com o único fator de risco sendo uma crise derivada do próprio modelo econômico.

– “Situação ruim” –

Desde que sucedeu o governo peronista de centro‑esquerda de Alberto Fernández, Milei conseguiu uma forte desaceleração da inflação e um ajuste fiscal. A inflação anual caiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, e a Argentina registrou superávit fiscal por dois anos consecutivos pela primeira vez desde 2008.

Mas o ajuste teve custos significativos: queda do consumo, abertura às importações e o fechamento de mais de 21.000 empresas em dois anos, com uma perda estimada de 300.000 empregos, segundo fontes sindicais.

O presidente da Câmara de Comércio e Serviços, Mario Grinman, afirmou nesta semana que “alguns vão ficar pelo caminho”, mas se esse é o preço por “uma Argentina normal, com futuro”, o sacrifício “vale a pena”.

A economia do país cresceu 4,4% em 2025, impulsionada pela agricultura e pela intermediação financeira, enquanto a indústria manufatureira e o comércio, dois dos setores que mais geram empregos, contraíram.

Milei “faz as coisas bem, mas para um setor, e não se importa se isso queima outro setor”, afirmou Emanuel, de 29 anos, que trabalha para uma empresa de energia.

“O problema é quando é a maioria que ele deixa em situação ruim”, disse à AFP.