A diversidade de bactérias presentes no intestino pode estar relacionada à preservação da saúde física de mulheres idosas. Um estudo publicado no periódico científico Nature Communications identificou que participantes com uma microbiota intestinal mais diversificada apresentavam, em geral, menores níveis de fragilidade.
A pesquisa analisou dados de 2.081 mulheres com idades entre 75 e 80 anos e reforça o interesse da comunidade científica pela influência dos micro-organismos intestinais no processo de envelhecimento.
A fragilidade é uma condição geriátrica caracterizada por alterações como perda de peso e massa muscular, redução da força, cansaço persistente e declínio da capacidade física.
Essas mudanças podem aumentar a vulnerabilidade a quedas, fraturas, internações e outras complicações de saúde.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo é observacional. Isso significa que foi identificada uma associação entre a microbiota e a fragilidade, mas não é possível concluir que a diversidade bacteriana seja responsável por prevenir a condição.
Como foi realizado o estudo?
As 2.081 participantes passaram por uma avaliação que reuniu informações sobre suas condições de saúde e capacidade funcional.
As mulheres responderam a questionários, tiveram medidas corporais analisadas e realizaram testes de desempenho físico.
Os pesquisadores também coletaram amostras de fezes para estudar o material genético dos micro-organismos presentes no intestino.
Com esses dados, foi possível comparar características da microbiota intestinal com diferentes níveis de fragilidade entre as participantes.
Os resultados apontaram uma tendência: mulheres com maior diversidade de bactérias intestinais apresentavam menor grau de fragilidade.
No entanto, fatores como alimentação, uso de medicamentos e condições clínicas também podem influenciar tanto a microbiota quanto a saúde física.
Por isso, os cientistas defendem a realização de novas pesquisas para compreender melhor essa relação.
Qual é a relação entre o intestino e o envelhecimento?
O intestino abriga trilhões de micro-organismos, incluindo bactérias que participam de diferentes processos necessários ao funcionamento do organismo.
Esse conjunto é conhecido como microbiota intestinal.
Segundo a nutricionista Bruna Fernanda Camargo Parra, do Einstein Hospital Israelita, a microbiota tem papel importante na regulação do metabolismo, do sistema imunológico e dos processos inflamatórios.
Ela também participa de mecanismos relacionados à função muscular e ao sistema neuroendócrino.
Isso ajuda a explicar por que alterações no equilíbrio das bactérias intestinais vêm sendo investigadas em pesquisas sobre envelhecimento saudável.
A influência da microbiota, entretanto, não significa que exista uma única composição bacteriana ideal para todas as pessoas.
Inflamação crônica pode contribuir para a fragilidade
Um dos mecanismos investigados pelos cientistas envolve a inflamação persistente de baixa intensidade, relativamente comum durante o envelhecimento.
Esse processo é conhecido como inflammaging, termo utilizado para descrever um estado inflamatório leve, mas prolongado.
Ao longo dos anos, essa condição pode estar associada a alterações no funcionamento de diferentes tecidos e sistemas do organismo.
O desequilíbrio da microbiota intestinal, chamado de disbiose, também tem sido relacionado a processos inflamatórios.
Em determinadas circunstâncias, mudanças na comunidade de micro-organismos podem comprometer a integridade da barreira intestinal.
Isso pode favorecer o contato do organismo com componentes bacterianos capazes de estimular respostas inflamatórias.
A relação entre esses mecanismos e a fragilidade física ainda é objeto de investigação científica.
Bactérias intestinais produzem substâncias importantes
Algumas bactérias presentes no intestino participam da fermentação das fibras consumidas na alimentação.
Durante esse processo, são produzidas substâncias conhecidas como ácidos graxos de cadeia curta, entre elas butirato, acetato e propionato.
Esses compostos desempenham funções importantes no ambiente intestinal e estão envolvidos na regulação de processos inflamatórios.
A nutricionista Samara Cristina Mascarenhas, também do Einstein Hospital Israelita, destaca a bactéria Faecalibacterium prausnitzii entre os micro-organismos estudados por sua participação na produção dessas substâncias.
Os resultados ajudam a ampliar a compreensão sobre a possível ligação entre alimentação, microbiota e saúde durante o envelhecimento.
O que comer para favorecer a microbiota intestinal?
Uma alimentação variada, com presença frequente de alimentos ricos em fibras, é uma das estratégias para favorecer a diversidade da microbiota intestinal.
Frutas, verduras, legumes, feijões e grãos integrais oferecem nutrientes e fibras que podem servir de alimento para bactérias benéficas.
Entre essas substâncias estão os prebióticos, componentes alimentares utilizados por determinados micro-organismos intestinais.
Dois exemplos são os fruto-oligossacarídeos, conhecidos como FOS, e a inulina.
Essas fibras podem ser encontradas em alimentos como cebola, aspargo, alcachofra, chicória e batata yacon.
A variedade alimentar é importante porque diferentes micro-organismos utilizam diferentes componentes da dieta.
Iogurte, kefir e kombucha podem ajudar?
Alimentos fermentados também podem fazer parte de uma alimentação voltada à saúde intestinal.
Alguns iogurtes com culturas vivas, o kefir e determinadas formulações de kombucha podem conter micro-organismos com potencial benefício à saúde.
Entretanto, nem todo alimento fermentado apresenta necessariamente efeito probiótico comprovado.
A identificação das cepas presentes no produto, suas condições de conservação e a quantidade de micro-organismos viáveis são fatores relevantes.
Segundo Samara Cristina Mascarenhas, é importante observar as informações disponíveis nos rótulos, além da validade e das recomendações de armazenamento.
O uso de suplementos probióticos, especialmente por pessoas com condições de saúde específicas, deve ser avaliado individualmente por profissionais de saúde.
Sono, exercícios e estresse também influenciam o intestino
A composição da microbiota intestinal não depende exclusivamente dos alimentos consumidos.
A prática regular de atividade física, o sono adequado e o controle do estresse também estão entre os fatores associados ao equilíbrio do ambiente intestinal.
O uso de medicamentos e a presença de doenças podem modificar a comunidade de micro-organismos, especialmente em pessoas mais velhas.
Por isso, os cuidados com a microbiota devem ser compreendidos como parte de uma abordagem mais ampla de promoção da saúde.
O estudo publicado na Nature Communications amplia o conhecimento sobre a relação entre o intestino e o envelhecimento, mas ainda não permite utilizar a diversidade bacteriana como um exame isolado para prever ou prevenir a fragilidade.
Da IstoÉ e Agência Einstein