‘Maya, Me Dê Um Título’: Michel Gondry lança animação feita com a filha

Cineasta francês ficou mundialmente reconhecido pelo filme 'Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança'

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Michel Gondry lança animação feita com a filha Foto: Reprodução

O cineasta francês Michel Gondry, mundialmente reconhecido por “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança”, encontrou na distância geográfica da filha, Maya, o combustível para seu mais novo projeto. O longa-metragem “Maya, Me Dê Um Título” estreia no Brasil apresentando o resultado de um ritual que durou seis anos: todas as noites, antes de dormir, o pai solicitava à menina um título para um filme imaginário.

A primeira interação ocorreu quando Maya tinha apenas três anos. Ao ser filmada pela mãe, a criança sugeriu “Maya e o Terremoto”. O que começou como uma brincadeira íntima para mitigar a ausência física transformou-se em um inventário de curtas animados que, agora, ganham as telas em formato de longa-metragem.

A estética do erro e o fazer artesanal

Diferente das produções hiper-realistas que dominam o mercado de animação atual, como as da Pixar ou DreamWorks, Gondry optou por uma técnica de recortes de papel e texturas manuais. Em entrevista ao “Estadão”, o diretor minimizou qualquer intenção de manifesto político contra a tecnologia digital ou o uso de inteligência artificial na arte. Segundo ele, a escolha deveu-se à acessibilidade da ferramenta e ao prazer do processo manual.

A estética, contudo, reforça a temática da obra. Existe uma coerência intrínseca entre o conteúdo — uma construção afetiva entre pai e filha — e a forma — o objeto tátil, cortado e colado quadro a quadro. A narrativa transita por gêneros variados, do cinema de catástrofe à fantasia pura, sempre sob a ótica da lógica do sonho, característica indissociável da filmografia de Michel Gondry.

“Não vejo minha filha como uma criança quando animo ou crio uma história. Faço esses filmes exatamente como se fossem para mim.”

O desafio de animar a realidade

Um dos pontos centrais da obra é a transposição da personalidade de uma criança real para o universo bidimensional. Gondry explica que o processo de animação difere do live-action no que tange à construção do personagem. Enquanto no cinema convencional o ator e o roteiro precisam encontrar um equilíbrio, na animação de sua própria filha, a criação da história orbitou a personalidade que ele já conhecia profundamente.

O diretor ressaltou, ainda, que evita subestimar o público infantil. Para o cineasta, as crianças possuem uma capacidade de absorção de temas complexos que muitas vezes é ignorada pela indústria. Ao produzir o conteúdo “para si mesmo”, ele garante que o resultado final seja um terreno comum para o diálogo entre gerações.

Do privado ao alcance global

O material, que por anos permaneceu restrito ao círculo familiar de Maya e seus avós, assume agora um caráter universal. De acordo com o diretor, a percepção de que a conexão paterna mediada pela criatividade poderia ressoar em outros pais e filhos foi o que motivou a compilação dos curtas em um filme comercial.

Atualmente com nove anos, Maya sinaliza que a fase das colaborações cinematográficas com o pai chegou ao fim. “A página virou”, afirmou o diretor, sem sinais de melancolia. Para ele, o filme permanece como um registro documental e artístico de um período específico da infância, destinado a ser revisitado no futuro.